Capítulo 3

Ponto de vista de Eve

Carreguei a cabeça de Noah de volta para a velha casa de pedra no distrito inferior, onde a gente costumava morar.

Foi ali que Arthur e eu dividimos um lar antes de ele se tornar o principal executor da alcateia. A mesinha de madeira que ele tinha feito à mão ainda estava lá, junto do desenho torto da nossa família que Noah fez quando tinha dois anos, ainda preso à parede com fita. Tudo estava coberto por uma camada espessa de poeira.

—Noah, deixa a mamãe limpar você, tá bem? —eu tremia enquanto começava a limpar o sangue do rosto dele. —Igual quando você era pequenininho.

Meus movimentos eram gentis e lentos, como se ele estivesse apenas dormindo.

Encontrei agulha e linha e comecei a costurar as feridas horríveis de mordida ao redor do pescoço dele. Cada ponto parecia atravessar o meu próprio coração.

Lágrimas pingavam no corpinho dele enquanto minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia segurar a agulha.

—Tá doendo, meu bebê? A mamãe vai ser bem cuidadosa...

Continuei costurando e pedindo desculpas até não aguentar mais.

—Noah... Noah... —eu pressionei a cabeça dele contra mim e chorei. —A mamãe sente muito... a mamãe não conseguiu te proteger...

Três dias depois, eu estava sentada na beirada da cama, segurando Noah, completamente entorpecida.

Eu me perdia naquelas lembranças bonitas —minha única fuga.

"Mamãe, eu aprendi a escrever meu nome hoje!" Noah, com três anos, correu na minha direção todo empolgado, segurando um papel com “Noah” rabiscado nele.

"Isso é incrível!" Eu o ergui e girei com ele no ar. "O nosso Noah é um pequeno gênio!"

Noah deu uma risadinha e sussurrou no meu ouvido: "Quando eu crescer, vou proteger a mamãe e não vou deixar ninguém te machucar."

E nas lembranças dolorosas também...

"Por que o papai não vem ver o meu desenho?" Noah olhou triste para a porta. "Eu desenhei a nossa família inteira..."

"O papai está muito ocupado no trabalho, meu bem." Eu forcei um sorriso. "A mamãe acha o seu desenho perfeito."

"Mamãe, quando a gente vai embora daqui?" Na última vez que eu o vi, Noah se agarrou forte ao meu pescoço. "Eu não gosto daquela moça. Os olhos dela dão medo."

"Logo, meu amor. A mamãe está cuidando disso..."

Mas eu falhei. Eu não consegui protegê-lo. Eu deixei meu único filho morrer sozinho naquele lugar escuro.

Uma ligação da Segurança da Alcateia interrompeu minhas lembranças.

Depois que Noah desapareceu, eu tinha comunicado à Segurança no caminho de volta para casa, mas ninguém acreditou em mim.

Disseram que tinham encontrado os restos mortais de Noah no fundo da Floresta Negra e que precisavam que eu identificasse o corpo. Desliguei, entorpecida, e coloquei Noah com cuidado de volta na caixa de madeira.

Agora eu precisava ir buscar o resto dele para trazer para casa.

Quando eu me preparava para sair, a porta foi escancarada com um chute brutal.

Arthur invadiu a casa, furioso.

—Eve! Essa merda de fugir acaba AGORA! Lilith ainda está no centro médico por causa do seu ataque! Quase ficou desfigurada! Volte pra lá e peça desculpas!

Agarrei a caixa de madeira com força. “Pedir desculpas?”

“Isso mesmo!” Arthur segurou meu braço. “Você surtou de vez e atacou ela, depois inventou uma merda qualquer sobre ela ter matado o Noah! Eve, estou te avisando — não me teste!”

Olhei para aquele homem que eu já tinha amado profundamente, e a raiva queimou dentro de mim.

“Enfia o seu pedido de desculpas no cu!”, falei, escolhendo cada palavra com cuidado. “Eu queria poder matar aquela vadia com as minhas próprias mãos! Fazer ela saber como é ser dilacerada!”

“Você—!” Arthur levantou a mão para me bater, mas, naquele instante, o comunicador dele vibrou.

“O que foi agora?” Ele atendeu, impaciente. “Que assassinato? Um filhote? Quantas vezes eu tenho que dizer — cuidem dessas merdinhas vocês mesmos! Parem de me encher com cada porra de coisa!”

Ele não fazia ideia do que aquela ligação significava. Depois de desligar, atirou um pergaminho aos meus pés.

Os papéis de dissolução do vínculo.

“Se você não vai pedir desculpas, então assine isso e suma da minha vida.”

Olhei para o documento com deboche. “Quer romper o vínculo? Tudo bem. Mas antes você vai comigo a um lugar.”

“E qual é o seu joguinho agora?”

“Eu vou buscar o Noah.” Apertei a caixa ainda mais. “Venha comigo e eu prometo que assino. Prometo que vou desaparecer para sempre.”

Arthur me encarou com dureza, procurando mentiras. Mas meus olhos estavam mortos.

“Tudo bem. Mas se você tentar qualquer coisa...”

“Eu não vou.” Minha voz saiu vazia. “Esta é a última vez.”

O carro saiu do distrito rico e seguiu para áreas cada vez mais decadentes. O rosto de Arthur foi ficando mais feio conforme a paisagem mudava.

“Onde foi que você enfiou o Noah?” Ele puxou a gravata. “Até onde a gente vai?”

Eu segurei a caixa e encarei a janela. “Está quase chegando.”

O carro finalmente parou diante de um prédio cinzento — o necrotério da matilha que cuidava de mortes acidentais.

Quando Arthur desceu e viu a placa, o rosto dele ficou branco.

“Eve! Você está LOUCA? Você trouxe o Noah para um lugar desses?” Ele me agarrou pelos ombros, furioso. “Você trancou uma criança num necrotério só para se vingar de mim?”

O aperto dele doía, mas eu não reagi. Em vez disso, eu ri.

“Agora você está preocupado? Pena. Já é tarde demais.”

“Que porra você quer dizer com—”

Nesse momento, a porta do necrotério se abriu. Um cara de uniforme cirúrgico saiu e se sobressaltou ao ver a fúria de Arthur.

“A senhora é a Srta. Davis?”, ele me perguntou com cautela. “A gente falou por telefone.”

Arthur se virou contra ele. “Falou sobre O QUÊ? O que vocês estão fazendo?”

O rapaz olhou de um para o outro, confuso. “Senhor, o senhor é...?”

“EU SOU O PAI DO NOAH!”, Arthur rugiu. “Quem disse que vocês podiam trancar meu filho nesse lugar? Tragam ele para fora AGORA!”

A expressão do funcionário ficou estranha. Ele olhou para mim, depois para Arthur, com os olhos se enchendo de pena.

“Senhor... acho que o senhor entendeu errado.” O rapaz se esforçou para falar. “Essa senhora está aqui para retirar o corpo do filhote morto dela.”

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