Capítulo 5 5
Hoje o bonito vai conhecer o próprio veneno
Jade narrando
Gringo me irritava em um nível que, sinceramente, merecia um estudo científico.
O homem conseguia acabar com a minha paciência antes mesmo de abrir a boca. E o pior era que, depois de me deixar irritada, ainda aparecia com aquela cara de quem não tinha feito absolutamente nada.
Ah, não, meu querido! Comigo não!
Depois daquela cena na praça, eu e Liz voltamos para minha casa decididas a colocar nossos planos em prática. Porque, se aqueles dois achavam que poderiam viver nos provocando ciúmes enquanto nós ficaríamos sentadinhas, esperando por atenção, estavam prestes a descobrir que tinham escolhido as mulheres erradas.
— Amiga, eu tive uma ideia — Liz anunciou, largando a bolsa no sofá.
Olhei para ela com desconfiança.
— Lá vem!
— Por que não fazemos o contrário? Em vez de ficar discutindo com eles, vamos tratá-los tão bem que os dois vão desconfiar.
Pisquei algumas vezes.
Depois, comecei a rir.
— Liz, tu é um perigo para a sociedade!
— Obrigada. Eu me esforço.
A ideia era simples: nada de discussões, cobranças ou caras fechadas. Naquele dia, seríamos as mulheres mais carinhosas do mundo. Um elogio aqui, um beijo ali, uma mensagem inesperada acolá.
E, quando eles estivessem completamente convencidos de que tudo havia voltado ao normal, nós duas sairíamos para aproveitar o baile.
Sem culpa.
Sem pedir autorização.
Sem deixar que o humor de homem ciumento determinasse a nossa noite.
— Mas tem um detalhe — avisei. — Se o Gringo perceber que estou aprontando, ele vai começar com aquelas perguntas intermináveis.
Liz deu de ombros.
— Então não deixa ele perceber!
Olhei para minha amiga.
Ela olhou para mim.
E começamos a rir como duas pessoas que definitivamente não deveriam ter tantas ideias juntas.
O mais engraçado era que, no fundo, eu gostava de Gringo. Gostava da presença dele, dos momentos em que conseguíamos conversar sem transformar tudo numa disputa e até daquele sorriso convencido que me dava vontade de revirar os olhos.
Mas gostar de alguém não significava aceitar qualquer comportamento.
Eu queria carinho, respeito e liberdade para continuar sendo quem era. Não pretendia trocar meus planos por uma relação em que precisasse justificar cada passo.
E, se Gringo queria continuar ao meu lado, teria que entender isso.
Enquanto ele aprendia, eu e Liz continuaríamos vivendo.
Na noite anterior, tínhamos ido ao shopping e comprado algumas lingeries lindas.
Eram delicadas, elegantes e tinham aquele tipo de beleza que fazia a gente se sentir maravilhosa mesmo sem ninguém por perto.
Quando abri a sacola em cima da cama, Liz praticamente comemorou.
— Jade, hoje esses homens vão perder o rumo!
— Amiga, se comporta!
— Eu estou me comportando. Só estou prevendo acontecimentos.
— Sei.
Passamos um bom tempo conversando sobre nossas roupas, o cabelo e a maquiagem que usaríamos no baile. A intenção era nos divertir, dançar e esquecer um pouco os problemas.
Mas eu tinha um plano particular para Gringo.
Queria descobrir se aquele homem era capaz de demonstrar carinho sem transformar tudo em uma disputa de poder.
Queria vê-lo relaxado, sorrindo, conversando comigo sem procurar motivos para desconfiar de alguma coisa.
E, confesso, também queria dar uma pequena lição naquele orgulho enorme.
Nada de maldade.
Só uma provocaçãozinha.
Afinal, ninguém era de ferro!
A sexta-feira passou depressa.
Arrumei a casa, organizei os quartos, deixei tudo cheiroso e coloquei uma música para tocar enquanto terminava minhas tarefas.
Às quatro da tarde, meu celular vibrou.
Era Liz.
Liz: Amiga, terminei minhas coisas! Vou me arrumar e começar o espetáculo. Não esquece do nosso combinado!
Sorri para a tela.
Eu: Pode deixar. Hoje vamos distribuir carinho e depois distribuir passinhos na pista!
Liz: KKKKKKK! É disso que estou falando!
Guardei o celular e fui tomar banho.
Demorei um pouco, aproveitando aquele momento só meu. Depois, cuidei da pele, passei hidratante e arrumei o cabelo.
Escolhi uma das lingeries que havíamos comprado e me olhei no espelho.
Gostei do que vi.
Não porque precisasse da aprovação de Gringo, mas porque me sentia bonita, confiante e completamente à vontade comigo mesma.
Peguei o celular e tirei uma foto, escolhendo um enquadramento discreto e elegante. Não precisava mostrar demais para transmitir a mensagem.
Abri nossa conversa e digitei:
Eu: Estou com saudades, amor. Vem me ver. ❤️
Enviei a foto.
E esperei.
Não demorou nem um minuto.
O celular começou a vibrar com uma resposta.
Gringo: Eita, gostosa pra caramba! Marca cinco que estou aí.
Mordi o lábio para segurar a gargalhada.
Cinco minutos?
O homem estava praticamente saindo de casa antes mesmo de terminar de responder!
Eu: Te espero, amor. 😘
Deixei o celular sobre a cama e comecei a rir sozinha.
— Ai, Gringo... se tu soubesse!
O plano estava funcionando melhor do que eu imaginava.
Às cinco em ponto, ouvi o barulho da moto se aproximando.
Meu sorriso aumentou.
Era agora.
Respirei fundo, ajeitei o cabelo e fui até a porta.
Gringo entrou com aquele jeito confiante de sempre. Assim que me viu, abriu um sorriso que fez meu coração dar uma pequena tropeçada.
O problema daquele homem era justamente esse: conseguia me deixar irritada e encantada em intervalos muito curtos.
— Vem cá, minha linda — ele disse, aproximando-se.
Abri os braços e o recebi com um abraço.
Ele pareceu surpreso por um instante, mas logo me envolveu pela cintura.
— Agora gostei — murmurou. — Estava com saudade mesmo?
— Muita.
Dei um beijo em sua bochecha.
Gringo sorriu de um jeito convencido.
— Sabia que tu não ia aguentar ficar muito tempo longe de mim.
Revirei os olhos, mas continuei sorrindo.
— Não estraga o momento, homem!
Ele riu e me puxou delicadamente para mais perto, deixando um beijo na minha testa.
Por alguns segundos, ficamos abraçados sem discutir, sem cobranças e sem aquela necessidade de provar quem tinha razão.
E foi bom.
Muito bom.
Eu gostava daquele lado dele, o lado que não precisava dar ordens para demonstrar que queria estar comigo.
— Tu está linda — ele falou, afastando-se apenas o suficiente para olhar meu rosto.
— Obrigada.
— E está muito carinhosa hoje. Aconteceu alguma coisa?
Pronto.
Eu sabia!
Não podíamos passar cinco minutos em paz que o bonito já começava a investigar.
— Preciso de um motivo para tratar meu namorado bem?
A palavra escapou antes que eu pensasse.
Namorado.
Gringo ficou imóvel por um instante.
Depois, um sorriso lento apareceu em seu rosto.
— Como é que é?
Cruzei os braços.
— Não começa!
— Não, não. Quero ouvir de novo.
— Gringo!
Ele começou a rir.
— Tu acabou de me chamar de namorado, Jade!
— Foi modo de falar, convencido!
— Agora já era. Vou guardar essa informação.
Escondi o rosto no peito dele, rindo apesar da vergonha.
E, naquele momento, percebi uma coisa que me deixou pensativa.
Talvez eu estivesse brincando com os sentimentos dele.
Mas talvez também estivesse tentando entender os meus.
Porque, por mais que gostasse de provocá-lo, eu não queria que nossa relação fosse apenas uma disputa para ver quem conseguia irritar mais o outro.
Eu queria descobrir se havia alguma coisa verdadeira por trás de toda aquela intensidade.
Queria saber se Gringo era capaz de me escolher sem tentar me prender.
E, principalmente, queria ter certeza de que eu continuaria sendo dona das minhas próprias escolhas.
— Está pensando em quê? — ele perguntou, acariciando meu cabelo.
Levantei o rosto.
— Em nada.
Ele estreitou os olhos.
— Jade Marson, tu está aprontando alguma coisa.
Abri meu sorriso mais inocente.
— Eu? Nunca!
Gringo começou a rir, mas continuou me olhando com desconfiança.
E eu quase contei tudo.
Quase.
Só que, naquele momento, meu celular vibrou.
Era Liz.
Liz: AMIGA, NÃO ESQUECE DO BAILE! ESTOU PRONTA E ESPERANDO O SINAL!
Meu sorriso desapareceu por uma fração de segundo.
Gringo percebeu.
— Quem é?
— Liz.
— E o que ela quer?
Guardei o celular no bolso e passei os braços pelo pescoço dele.
— Nada importante, amor.
Ele me observou em silêncio.
Depois, aproximou o rosto do meu e falou baixinho:
— Tu está muito boazinha hoje. E eu conheço essa tua carinha.
Meu coração acelerou.
Droga.
Aquele homem podia ser desconfiado demais, mas também me conhecia melhor do que eu gostaria de admitir.
Ainda assim, não pretendia desistir do meu plano.
Sorri, dei um beijo demorado em sua bochecha e me afastei.
— Aproveita enquanto eu estou boazinha, Gringo.
Ele soltou uma gargalhada.
— Tu ainda vai acabar comigo, mulher!
Peguei minha bolsa e caminhei em direção ao quarto, escondendo o sorriso.
Porque o plano continuava de pé.
Eu e Liz iríamos ao baile, dançaríamos até cansar e voltaríamos para casa quando quiséssemos.
Gringo poderia gostar ou não.
Mas a minha vida continuaria sendo minha.
E, quando aquele homem descobrisse o que eu realmente tinha planejado para aquela noite, talvez finalmente entendesse que não era o único capaz de surpreender alguém.
O que ele ainda não sabia era que a maior provocação daquela noite não seria a roupa que eu usaria no baile, nem os olhares que receberia na pista.
Seria a liberdade com que eu escolheria voltar para casa.
