Capítulo 1 Capítulo 1

Violet

“O que vai querer hoje, senhorita Violet?”, a garçonete me perguntou com um sorriso educado.

Por quinze minutos, fiquei olhando para o Nate à minha frente, contando quantas vezes a tela do celular dele acendia em vez de os olhos dele encontrarem os meus.

O Alfa Nate era o alfa da matilha Night Howl e o homem com quem eu ia me casar em breve.

Eu esperava que ele desligasse o celular. Que olhasse para mim.

A gente estava sentado no restaurante mais chique de Ashville, e eu tinha feito reserva com semanas de antecedência numa tentativa desesperada de reacender o nosso relacionamento.

Eu tinha me esforçado para me arrumar, cachear o cabelo, mas nada disso tinha sido notado. A iluminação do restaurante fazia os paetês do meu vestido brilharem de leve, e eu vi meu reflexo no painel espelhado ao nosso lado.

Eu parecia… esperançosa. Esperançosa demais.

“Vou esperar até ele ficar livre”, respondi.

“Claro”, a garçonete assentiu e foi atender outros clientes.

Eu girava o garfo entre os dedos enquanto olhava ao redor. Em algumas mesas adiante, um cara pedia a namorada em casamento sob uma rodada de aplausos. Virei o rosto, piscando rápido para afastar a ardência nos olhos.

Meu olhar vagou sem foco, passando pelos rostos, até que um movimento chamou minha atenção perto de uma mesa no canto.

A mesma garçonete de antes estava falando com um cliente.

Não, “falando” era pouco. Ela sorria radiante. Colocava o cabelo atrás da orelha como se tivesse esquecido de repente como usar as mãos.

A voz dela era baixa, mas a expressão dizia tudo. Ela estava nervosa, atrapalhada, se esforçando muito para parecer natural — e falhando.

Curiosa, deixei meus olhos deslizarem até o cliente com quem ela falava, um desconhecido sentado sozinho.

As bochechas dela ficaram cor-de-rosa e os olhos se arregalaram, seguidos daquele tipo de risada que alguém dá quando não sabe o que fazer com toda a atenção que, de repente, está em cima dela.

O homem no canto permanecia imóvel, relaxado na cadeira.

A postura dele não gritava arrogância, só uma confiança silenciosa. Como alguém acostumado a ser observado… e que nunca precisa retribuir a energia.

Seja lá o que ele disse em seguida, fez ela congelar por um segundo e, na pressa de concordar e responder, o cotovelo dela esbarrou na bandeja.

O copo d’água tombou.

“Ah. Meu Deus, desculpa!”, ela engasgou, tentando pegar o copo. Não conseguiu, e a água gelada se espalhou pela mesa, respingando um pouco no paletó do terno dele.

Mor­rendo de vergonha, ela tateou atrás de guardanapos, se inclinando para secar o peito dele, mas ele já tinha feito isso ele mesmo.

O menor traço de decepção cruzou o rosto dela, e isso fez um sorriso leve puxar o canto da minha boca. Fofa. Cativante. Tudo o que a minha noite não era.

Então, infelizmente, ele levantou o olhar.

O olhar dele se chocou com o meu, afiado e sem pressa. Ele não pareceu nem um pouco surpreso por me pegar encarando.

E minha respiração falhou por um instante, enquanto a garçonete disparava em direção à cozinha, com o rosto em chamas.

O Nate escolheu exatamente esse momento para levantar os olhos do celular, seguir a direção do meu olhar e enrijecer. O maxilar apertou, e ele resmungou baixo, claramente achando que o estranho não poderia ouvir.

“Você tá olhando pra ele? Logo pra ele?”, o Nate zombou.

Eu levei um pequeno sobressalto. “Eu… eu não tava.”

As palavras dele eram leves, mas por baixo havia algo inconfundivelmente… cortante. Ele estava territorial.

E com ciúmes de um homem com quem eu nunca nem tinha falado.

“Aquele filho da puta arrogante acha que o mundo deve um pedido de desculpas só porque ele existe. Uma garota doce como você não tem que se meter em nada que envolva ele.”

Eu não tinha perguntado nada, mas por um segundo absurdo meu peito se aqueceu com as palavras docinha. Só que, no instante seguinte, minhas esperanças despencaram quando vi Nate se levantar da cadeira e gritar, todo animado:

— Eu tava te esperando desde de manhã!

Nate correu até a entrada e abraçou a garota que tinha acabado de entrar. Era Nicole, a garota que ele idolatrava muito antes de eu aparecer na vida dele.

Ela usava um vestido vermelho que deixava pouco à imaginação, e Nate não perdeu um segundo antes de puxá‑la para um abraço.

Claro que ele tinha passado a manhã inteira grudado no celular.

Ele a conduziu até onde eu estava, a mão pousada na base das costas dela, o sorriso fácil e brilhante de um jeito que eu não via fazia meses. Não direcionado a mim, nem uma vez.

— Violet, você lembra da Nicole, né? Ela acabou de voltar hoje. Não é incrível?

Incrível não era bem a palavra que me veio à cabeça.

Assenti, toda dura. — Oi.

Nicole me deu o mínimo de um sorriso e imediatamente voltou toda a atenção para o Nate, a mão roçando no peito dele como se aquele lugar fosse dela por direito.

Eu me forcei a desviar o olhar de Nate e da reconciliação perfeita dele com a Nicole, mas a dor continuava pesada no meu peito.

Ele se inclinava cada vez mais perto dela, rindo de alguma coisa que ela sussurrava, esquecendo completamente que eu existia.

“Quando é que você vai perceber que ele não é bom pra gente? Larga ele”, minha loba, Rain, sussurrou na minha cabeça. Ela era uma testemunha silenciosa da minha solidão e da minha dor, mas ultimamente tinha começado a dar a opinião dela de um jeito bem mais forte.

Ela vinha me enchendo pra eu largar ele fazia tempo, mas meu coração não concordava em terminar um relacionamento assim tão fácil.

Irritada, me levantei da cadeira para falar alguma coisa, mas de repente alguém gritou:

— Ataque de rogue!

Ataque de rogue em plena luz do dia?

O caos se instalou quando os rogues invadiram pela entrada, virando mesas e jogando longe funcionários inocentes do hotel que tentavam reagir.

Rosnados e gritos ecoavam pelo ar enquanto minha mão, instintivamente, procurava a do Nate, só pra encontrar o vazio.

Porque ele já tinha começado a correr com a Nicole na direção da porta mais próxima, protegendo ela com o próprio corpo. Ele nem olhou na minha cara.

Fiquei congelada, entorpecida de choque.

Alguma coisa passou voando por mim e eu ouvi uma voz profunda e autoritária:

— Abaixa!

Antes que eu pudesse reagir, alguém me jogou pro lado e uma mesa de vidro despencou exatamente no lugar onde eu estava.

Senti braços fortes e o cheiro de bourbon me envolvendo quando fui empurrada pra trás de uma parede.

Olhei para o meu salvador enquanto ele afastava meu cabelo do rosto, checando rapidamente se eu tinha me machucado.

— Fica aqui! — o estranho tatuado falou com uma voz rica, aveludada. O mesmo cara que tinha ficado curtindo a bebida sozinho.

Quando consegui abrir a boca, ele já tinha saído do meu esconderijo improvisado e corrido direto pros atacantes, enquanto eu espiava pela beirada.

Levei as mãos aos ouvidos pra abafar o barulho e continuei atrás da parede, com medo demais pra me mexer.

Enquanto isso, ele se lançou contra o grupo, virando mesas pra fazer barreiras, golpeando com punhos e pés rápidos demais pros meus olhos acompanharem.

O sangue espirrou por todo lado, se misturando às rosas vermelhas e pintando o chão de carmim.

Num misto de fascínio e horror, vi quando ele se atirou sobre o último rogue que tentou fugir e o arrastou de volta pela gola, como um vira‑lata numa coleira apertada.

No meio de tudo aquilo, os olhos dele voltaram pra mim por um breve segundo e se arregalaram.

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