Capítulo 6 Capítulo 6
Violet
— O quê? — minha mãe me olhou em choque e trocou um olhar confuso com meu pai.
— O que aconteceu, querida? O que ele fez? — ela perguntou, mas eu tinha levado o dia inteiro pra tentar esquecer aquilo e não tinha condições de dizer em voz alta.
Então eu só falei:
— Tô cansada e preciso dormir.
— C… claro, minha filha, esta é a sua casa e sempre vai ser — ela deu uns tapinhas nas minhas costas, enquanto meu pai também me abraçava.
Foi tão bom ser abraçada por eles, como se eu ainda fosse a garotinha deles, que corria pros braços deles sempre que queria chorar.
Eu sorri e respondi:
— Eu perdi uma casa, mas não vou perder outra. Vou me casar com quem vocês quiserem. Organizem a cerimônia de casamento o mais rápido possível.
Mamãe e papai trocaram um olhar hesitante.
— O que foi?
— Quatro alfas recusaram sua proposta de casamento ontem. Ninguém quer mais se associar com a nossa matilha. Estamos por nossa conta.
— O quê? Por quê?
Essa notícia deveria ter me deixado feliz. Eu estava cuidando de uma dor bem recente e tinha acabado de apagar tudo que me ligava ao homem com quem eu sonhava em me casar.
Mas o jeito que minha mãe falou aquilo me mostrou que a situação da nossa matilha era grave.
Meu pai imediatamente começou a fazer carinho em mim, todo preocupado:
— Esquece o que sua mãe falou, você voltou pra casa depois de tanto tempo.
Ele me puxou pra outro abraço e falou pra ela:
— Ela deve estar com fome, prepara alguma coisa pra ela comer.
Mamãe correu pra cozinha, enquanto alguns empregados traziam minhas malas pra dentro. Eu estava com sentimentos misturados por voltar pro lugar onde tinha crescido.
Lembrei de como eu tinha saído daqui tão feliz, contando pros meus pais, toda orgulhosa, que ia criar a minha própria matilha, meu próprio ninho com o Nate.
Mas eu tinha queimado tudo, deixado tudo em cinzas com as minhas próprias mãos antes de voltar. Um nó subiu na minha garganta, que eu engoli rápido pra sufocar as lembranças dolorosas.
— Tá tudo bem? — perguntei pro meu pai, porque o sorriso tenso dele não passou despercebido.
— Nada com que você precise se preocupar — ele sorriu, mas eu balancei a cabeça.
— Por favor, pai, eu não sou mais uma menininha que você precisa proteger. O que tá acontecendo?
Meu pai suspirou, e eu consegui ver a derrota nos olhos dele. Ver ele assim, tão impotente, me destruiu por dentro.
— Eu não sei bem o que aconteceu entre você e o Nate, mas parece que todos os alfas tomaram o lado dele depois que o vídeo viralizou.
Eu não precisava perguntar que vídeo era. Pelo jeito, tinha rodado todas as redes sociais e me transformado em meme.
Pelo menos meus pais já sabiam, e eu não ia precisar inventar uma história mirabolante pra justificar o término com o Nate.
— Eu não… eu jamais… — comecei, mas meu pai pousou a mão no meu ombro, num gesto de apoio.
— Eu sei que ele teceu uma teia de mentiras com aquela garota. Mas eles convenceram todo mundo de que a culpada era você… e agora ninguém quer fazer negócio com a gente.
Eu odiava ver meu pai tropeçando nas palavras, como se estivesse tentando me poupar do bullying brutal na internet e deixar de fora os xingamentos pesados que devem ter jogado em cima de mim.
Enquanto eu estava ocupada me apagando da vida do Nate, ele e a Nicole espalharam toda a negatividade e todas as mentiras sobre mim pela comunidade inteira. Eu até tinha aceitado meu destino, de certa forma, mas eles ainda foram além e arrastaram a minha família no meio disso??
Eu fiquei furiosa e fui direto pra fora, ignorando o prato quente de comida que a minha mãe tinha trazido pra mim.
— Violet, espera, aonde você vai? Não adianta tentar falar com o Nate.
Respirei fundo, peguei minhas chaves e respondi:
— Eu não vou.
Eu nem tinha um destino em mente, mas definitivamente não ia ficar sentada sem fazer nada. De algum jeito, um lugar surgiu na minha cabeça e, vinte minutos depois, eu estava entrando no mesmo restaurante onde tudo começou — o Salt & Smoke.
Por sorte, a garçonete que tinha me atendido estava saindo, e eu esbarrei nela de propósito.
— Oi, estou procurando uma pessoa. O cliente que você atendeu hoje. Ele te deu algum nome ou número?
Não perdi tempo com conversinha, embora os olhos dela tenham se arregalado de surpresa.
— Você… eu te atendi. E aí aconteceu o ataque. Eu sou a Lucy, aliás… — ela começou, mas eu estava com pressa.
— Isso, e aí um cara lutou com todos os renegados. Você sabe o nome dele? — perguntei, e ela piscou, surpresa.
— Todo mundo sabe o nome dele. Ele é o famoso Elijah Lockwood. Voltou pra cidade no fim de semana passado.
Ela me olhou como se tivesse me nascido outra cabeça, como se eu não soubesse nem que o sol existia.
— Valeu. Você tem o número dele?
A garçonete balançou a cabeça.
— O pessoal, não. Mas o número que ele usou pra fazer a reserva deve estar no computador que foi destruído no ataque.
Merda. E agora, como é que eu ia encontrar ele?
Peguei o celular e digitei o nome dele na busca, mas não apareceu nada. Ela não tinha dito que a cidade inteira conhecia o nome dele?
Eu já estava quase no meu limite quando ela soltou de repente:
— Eu ouvi ele falando com alguém no telefone sobre se encontrar no Players Den hoje à noite.
Graças à deusa! Na mesma hora puxei umas notas da carteira e entreguei pra ela sem nem contar.
— Obrigada pela ajuda.
O Players Den foi relativamente fácil de achar. Apareceu na busca na hora, e lá estava eu de novo dirigindo pela cidade no meio da madrugada.
Eu estava basicamente numa caça às cegas, mas rezei à Deusa da Lua pra que ele estivesse lá quando eu chegasse.
Uma hora depois, estacionei em frente a uma placa enorme, meio quebrada, onde se lia “Players Den”, e fiquei parada diante de um prédio alto e escuro, que parecia menos um pub e mais um esconderijo secreto da máfia.
Um carro preto, bem elegante, estava parado num canto, e isso me deu um pouco de esperança, embora o lugar fosse meio sinistro.
“É pela mamãe e pelo papai”, repeti na minha cabeça.
Então vesti meu casaco, peguei a bolsa e subi os poucos degraus que me levaram até uma porta enorme, que já tinha visto dias melhores. Não havia seguranças pra me barrar quando entrei, nem música alta saindo pelas janelas.
E um segundo depois eu entendi o porquê.
Era um prédio abandonado, com móveis quebrados, pedaços de metal e coisas largadas pelo chão, espalhadas em volta de uma grande poça d’água.
Meus olhos demoraram um pouco pra se acostumar com a escuridão, e meu corpo inteiro entrou em estado de alerta. Eu só queria ter uma faca ou algum tipo de arma.
Se eu tivesse sorte, não haveria renegados rondando por ali.
Me abaixei e examinei o lugar, pensando se deveria gritar o nome do Elijah em voz alta.
Mas então meus olhos caíram na única fonte de luz, no fim do corredor à minha esquerda.
