Capítulo 1 Mary

Como começar?

Talvez pela prisão do meu pai, o senhor Palmer, acusado injustamente pelo assassinato de Victor Barton. A tragédia que varreu as ruas de Greenmead ainda ecoa na minha memória. O que eu nunca imaginei foi que todo aquele drama desabaria sobre a família Palmer, destruindo nosso legado e nos transformando, aos olhos de todos, em assassinos.

Quando descobri os verdadeiros culpados, não hesitei. Infiltrei-me. Hoje, oito anos depois, moro sob o mesmo teto deles, trabalho para eles e quase me tornei parte da família. O que não sabem é que estou apenas esperando o momento certo para arrancar a felicidade que tanto ostentam. Não aceitarei ser a vencida. Perdi minha integridade, meu pai e até o país onde nasci. Ainda sou caçada pelo mesmo povo que venera o duque e a duquesa de Castília.

Respiro fundo diante do grande espelho da penteadeira. Meus dedos trabalham com precisão no coque de sempre, prendendo os grampos com firmeza. Abotoo o último botão da gola do vestido verde-escuro. Já me acostumei aos trajes espanhóis, à rigidez da cultura, ao cheiro de cera de abelha e lavanda que impregna os armários. A guerra terminou, o país tenta se recompor aos poucos — mas aqui, dentro destas paredes grossas, o luxo quase apaga as cicatrizes. Tenho meu próprio quarto, refeições fartas, roupas boas. Tudo pago com o cuidado dedicado à pequena Elisa, agora com oito anos: uma menina saudável, inteligente e de uma gentileza que desarma.

Tão parecida com o pai. Esteban.

Deus, como aquele homem fica mais atraente a cada ano que passa. Vejo o ciúme faiscar nos olhos de Emmiline quando ele entra na sala. Eu, ao contrário, não disfarço. Às vezes deixo meu olhar deslizar descaradamente pelo peito largo, pelos ombros que parecem carregar o peso de um ducado inteiro. Ele mudou. Já não é o garanhão que as fofocas de Greenmead pintavam. Tentei várias vezes chamar sua atenção — especialmente quando levava recados sobre as aulas de Elisa ao escritório dele. Sempre educado, sempre com aquela barreira invisível. Um cão fiel à esposa. Respeito que, no fundo, só aumenta minha frustração.

Emmiline é a duquesa que o povo adora. Todo sábado desce até as vilas com cestas de pão fresco, azeite e roupas. Vai pessoalmente, sem intermediários, distribuindo sorrisos mesmo quando o cheiro de pobreza e lenha úmida sobe das ruas estreitas. Essa bondade parece ser o que mais encanta Esteban. Às vezes os flagro na biblioteca, risos baixos, sussurros que terminam em beijos sem pressa. A química entre eles nunca esfria. Para mim, uma mulher de trinta anos que nunca conheceu o peso de um corpo sobre o seu, é uma tortura silenciosa.

Collin, por sua vez, cresce como um jovem de porte elegante, bonito, másculo. Sua gentileza e cavalheirismo me arrancam suspiros que guardo só para as paredes do quarto. É perigoso deixar esses pensamentos ganharem forma. Ele demonstra interesse, mas é tímido. Quando estamos no mesmo ambiente, suas bochechas coram como tomates maduros. Passa a mão pelo cabelo com certa aspereza, gagueja levemente. Manias que me enternecem.

Certa noite ele me convidou para ver as estrelas através de seu telescópio. Aceitei, animada e receosa ao mesmo tempo. O duque e a duquesa tinham se recolhido cedo, segundo ele. Era uma chance rara de ficarmos a sós. Mesmo sendo mais velha, eu não tinha experiência com homens. O nervosismo apertava meu estômago.

Escolhi um vestido preto com corpete justo e um discreto decote que revelava apenas o início dos seios. Soltei o cabelo, apliquei uma maquiagem leve — um toque de rouge nas maçãs do rosto, lápis nos olhos, blush suave. Algumas bijuterias simples. Calcei as sapatilhas baixas pretas e caminhei pelo corredor silencioso, onde ficam os quartos das crianças. O meu é próximo ao de Elisa. No fundo do corredor, o último quarto permanece fechado há anos: pertence a Estefan, o filho mais velho de Esteban, que partiu há muito tempo.

Bato de leve na penúltima porta. Ela se abre quase imediatamente.

Collin está vestido com uma camisa branca social, suspensórios e calça marrom de pregas. O cabelo escuro, ainda úmido, foi penteado rapidamente para o lado. Seus olhos azuis — intensos, quase hipnóticos — me percorrem com respeito, demorando-se um segundo além do que a decência permite. As bochechas coram. Um sorriso tímido surge.

— Por favor, entre, Mary — diz ele, a voz mais grave do que eu lembrava, como uma nota baixa de violoncelo.

Sinto um arrepio quente e frio ao mesmo tempo. Sorrio e entro. O quarto é amplo, quase um pequeno apartamento: cama larga, sofá de veludo, um piano no canto (herdado do talento da irmã), e, perto da grande janela que dá para o jardim escuro, o telescópio apontado para o céu.

— Desculpe não ter vindo com as roupas de sempre…

Ele me interrompe, suave:

— Não se preocupe, Mary. Você está… — o olhar dele desliza devagar, sem malícia, mas com algo mais profundo, quase reverente — linda.

Sinto o calor subir pelo pescoço. Orgulho discreto. Ele aponta para o banquinho diante do telescópio.

Sento-me. Ele explica em voz baixa como ajustar a lente. Quando coloco o olho, o mundo se transforma: as estrelas parecem próximas o suficiente para tocar. Fico ali, fascinada, enquanto ele conta como descobriu aquele instrumento. Escuto, atenta.

— Deus faz tudo tão perfeito que mal conseguimos enxergar metade do que existe neste planeta, Mary — sussurra perto do meu ouvido.

Seu hálito roça minha pele. O cheiro dele — sabonete de alecrim, lã limpa e algo masculino — me invade. Prendo a respiração. Tudo parece irreal.

Saio do telescópio e nossos olhares se encontram. O ar entre nós fica denso. Por um segundo, desejo tocá-lo, entregar-me a essa bondade que ainda sobrevive em mim. Mas sei que é impossível.

Ele quebra o silêncio, voz rouca:

— Já está tarde e não quero que durma mal amanhã… Mas antes, aceita uma taça de suco de uva?

Sorrio e aceno. Ele se levanta. Observo as costas largas sob a camisa branca, o movimento calmo enquanto serve as taças de cristal. Sentamo-nos no sofá. Brindamos.

— À sua primeira vez olhando as estrelas de verdade.

Rimos baixinho. Beberico o suco doce e fresco, os olhos presos nos dele.

— Posso te confessar uma coisa, Mary? — pergunta, pousando a taça.

— O quê?

— Você é uma boa moça. Merece o melhor desta vida.

As palavras me emocionam. Collin sempre foi assim: observador, atento aos meus silêncios desde menino. Ele nota quando algo me pesa, mas nunca soube da vingança que carrego contra a irmã dele. Nutro um carinho verdadeiro por ele e por Elisa — a única coisa que ainda me impede de seguir adiante com meus planos.

— Obrigada, Collin. Mas a vida nem sempre é como imaginamos — murmuro, dando de ombros.

Ele balança a cabeça, sorrindo de leve.

— Você precisa parar de ser tão pessimista. Olhe por aquelas lentes ali.

Aponto o olhar para o telescópio novamente. Por um breve instante, permito-me sonhar: uma vida simples, longe desta casa, longe da vingança, com uma felicidade quieta no peito.

Mas a razão volta rápido. Não. Isso não é possível.

— Obrigada pelas palavras, Collin. Preciso ir. Boa noite.

Levanto-me. Ele me segue até a porta. Quando me viro, ele segura meu braço com delicadeza. Seus olhos estão arregalados, como se quisesse dizer algo importante. A boca abre, mas nada sai. Apenas uma interrogação silenciosa.

— Tem algo para me dizer? — pergunto baixo, o coração acelerado.

Ele sai do transe, gaguejando levemente:

— N-não… Apenas obrigado por ter vindo.

Sorrio, um sorriso contido, e sigo pelo corredor silencioso, iluminado apenas por candeeiros de parede que projetam sombras alongadas. Collin é um bom rapaz. Mas sinto que o medo de falar o que sente o paralisa — e isso, de algum modo, me deixa insegura sobre os meus próprios sentimentos. Porque, no fundo, sei que é errado. Errado para a sociedade. Errado para mim.

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