Capítulo 2 Collin Barton
Oito anos se passaram desde que vim para a Espanha. No início foi difícil deixar meus tios para trás, viver em um país estranho, com outra língua e costumes. Mas a ideia de recuperar o tempo perdido com minha irmã encheu meu peito de esperança. Hoje, aos dezoito anos, tornei-me alguém que jamais imaginei: um jovem da alta sociedade, fluente em várias línguas, aluno exemplar, tratado quase como filho pelo duque de Castília. Minha irmã e meu cunhado me elogiam constantemente. Tudo isso veio sem que eu corresse atrás. Sempre preferi o lado simples da vida — respeito, obediência, gratidão. E, de alguma forma, foi exatamente isso que me trouxe até aqui.
Nada disso teria acontecido sem minha fé. As Escrituras que estudei desde que cheguei, as idas à igreja aos domingos, os momentos de meditação em casa. Quanto mais mergulho nas palavras sobre Deus e o Senhor Jesus Cristo, mais meu peito se enche de uma alegria quieta e profunda. Foi essa mesma esperança que, com o tempo, desejei levar até Mary — a babá da minha sobrinha Elisa, a jovem que veio conosco da Inglaterra.
Aos dezesseis anos, o que antes era amizade pura começou a mudar. Virou paixão. Agora mal consigo conversar com ela como antes. Existe uma palavra que pesquisei no dicionário e que me atormenta: desejo. Basta olhar para seus olhos amendoados e longos para que eu perca o ar. À noite, sonho com seu sorriso doce, com o jeito peculiar e reservado dela. Mary não se parece em nada com as damas que sou obrigado a tirar para dançar nos bailes. Ela carrega um ar misterioso, uma fina camada de desconfiança que esconde algo que ainda não consigo decifrar.
Todas as manhãs arranjo desculpas para estar perto. Acompanho as aulas de montaria de Elisa, vou junto quando ela leva minha irmã aos exames de rotina. Qualquer pretexto serve para ouvir sua voz, sentir de relance o perfume doce que emana de sua pele, roçar acidentalmente sua mão pequena.
Às vezes a vejo da minha janela, na sacada, vestindo apenas a camisola branca, cabelos soltos ao vento noturno. Aquela imagem é o paraíso particular que guardo em segredo. Ah, doce Mary… como eu queria tê-la aqui, diante de mim, para amá-la de verdade.
Suspiro e me levanto certa manhã. Decido ir à cidade comprar o instrumento que Esteban mencionou — um telescópio que permite ver as estrelas de perto. Preciso dele. Quero ver os olhos dela brilharem. Pego um dos carros da propriedade. Prefiro dirigir sozinho; é uma das poucas formas de sentir independência neste mundo onde tudo é feito por empregados.
A estrada serpenteia entre árvores densas. O casarão fica afastado da cidade, e o cheiro forte do mar invade o carro com a brisa quente de verão. Respiro fundo, deixando o sal e o pinho encherem meus pulmões.
Enquanto dirijo, penso em meus pais. Como eles me veriam agora? Certamente teríamos uma vida mais simples — meu pai como comerciante de morangos ou compotas, minha mãe envelhecendo ao lado dele, eu e minhas irmãs cuidando deles. Um sonho que nunca terei. Não posso me prender ao passado, mas às vezes a dor ainda aperta. Nunca conheci minha mãe; a culpa silenciosa que senti pela tristeza do meu pai me acompanhou por anos. Os momentos que tive com ele foram superficiais, como se ele, sem dizer, me responsabilizasse pela perda dela. O amor dos meus tios ajudou a cicatrizar boa parte dessa ferida.
Chego à cidade. Ao descer do carro, noto olhares femininos, mas não me importo. Meu coração e minha mente já pertencem a Mary. Quero casar com ela um dia, assumi-la diante de toda a sociedade — mesmo que ela ainda não saiba.
Entro no endereço indicado por Esteban. O telescópio me fascina. Compro sem hesitar. Ao sair, passo por uma floricultura. Hesito em comprar algo para Mary, com medo de que ela se sinta pressionada. Acabo escolhendo um girassol grande e vibrante para Elisa — lembro como ela chorou de alegria quando Esteban comprou um na Itália.
No caminho de volta, imagino a noite que se aproxima: o que vestir, como me portar, o que dizer. São tantas perguntas que minha cabeça fica confusa.
Ao chegar à propriedade, vejo Esteban e Emmiline na frente da casa. Minha irmã sorri radiante em um vestido lilás leve, enquanto Elisa dança com seu vestidinho rosa. Os cabelos castanhos escuros e cacheados balançam ao sol da tarde. Esteban bate palmas, rindo.
Estaciono e desço sorrindo, escondendo o girassol nas costas. Mary está um pouco mais afastada, com seu uniforme verde-musgo, mordendo uma maçã vermelha. Nossos olhares se cruzam por um instante. Sorrio por dentro.
Aproximo-me de Elisa e pergunto, em tom brincalhão:
— Adivinha o que tenho aqui na mão?
— Não sei, titio! Mas eu quero ver! — Ela pula, ansiosa.
Revelo a flor com um floreio. Seus olhos se iluminam.
— Girassol! Girassol! Eu quero!
Entrego a flor. Emmiline se aproxima, tocada.
— Oh, Collin, muito obrigada por lembrar. Elisa estava cobrando tanto o Esteban desde aquela viagem… Você sabe como seu cunhado é esquecido.
Rio baixinho.
— Não precisa agradecer. Vi na floricultura e lembrei na hora.
Esteban bate de leve no meu ombro.
— Obrigado, Collin. Você continua sendo um bom rapaz.
— Fui na loja que você indicou — conto. — O telescópio estava mesmo lá.
— Ótimo! Assim você pode fazer o que queria.
Se eles soubessem o que realmente quero… Provavelmente me repreenderiam. Especialmente agora que falam em arranjar um casamento conveniente.
Despeço-me e subo as escadas carregando o telescópio. Passo por Mary no corredor. Ela acena discretamente. Retribuo, o coração acelerado. Ela não faz ideia da surpresa que preparei.
No quarto, arrumo tudo: posiciono o telescópio perto da grande janela que dá para o jardim, escrevo um cartão simples de convite e deslizo por baixo da porta dela, olhando para os lados antes. Volto e passo a tarde estudando piano — o professor vai mudar, preciso treinar mais.
A noite chega. Escolho roupas casuais para não exagerar. O relógio marca quase dez horas quando ouço a batida na porta. Meu coração dispara, a respiração falha por um segundo. Arrumo o cabelo rapidamente com a mão e abro.
Lá está ela. Seus olhos amendoados me capturam imediatamente. Os lábios com um leve tom rosado me desarmam. Mary é, sem dúvida, a mulher mais linda que já vi — uma beleza diferente, profunda, que vai além da superfície.
Ela entra. Não consigo evitar que meu olhar desça por um instante pelo contorno do seu corpo sob o vestido preto, mas desvio rápido, respeitoso. Ela não é qualquer mulher. É aquela com quem sonho em construir um futuro.
Mostro o telescópio. Como imaginei, seus olhos brilham de curiosidade. Ela se senta. Aproximo-me devagar, sentindo seu perfume doce invadir meus sentidos. Fico tonto de vontade de ficar ali, perto, por horas.
Ah, Mary… você é a mulher da minha vida.
Depois de observarmos as estrelas, ofereço suco de uva. Sinto uma urgência enorme de abrir meu coração — contar o que sinto, o que desejo, o futuro que imagino para nós. Mas travo, como sempre. As palavras ficam presas. As velhas inseguranças voltam com força: E se ela não sente o mesmo? E se ainda me vê como a criança de oito anos atrás? E se tudo isso for unilateral?
No dia seguinte, acordo cedo. Ao descer as escadas, vejo alguém que não esperava: meu irmão mais velho, Estefan. Uma surpresa boa e ao mesmo tempo inquietante. Ele abre um sorriso largo e vem em minha direção de braços abertos.
— Não acredito! O pirralho certinho virou esse homem! — exclama.
Rimos e nos abraçamos, um abraço rápido mas cheio de saudade.
— Estefan! Quanto tempo, cara!
— Tempo demais. Agora cheguei para ficar. Cadê o papai?
Percebo uma nota diferente na voz dele ao mencionar o pai — algo menos genuíno, quase desafiador. Espero que venha em paz. Esteban não merece reviver sofrimentos antigos.
— Vem, vou te levar até ele — digo.
Seguimos juntos pelo corredor que leva ao escritório.
