Capítulo 3 Estefan castilia

— Ah, Estefan… assim não vou conseguir nem andar amanhã — geme Alexia, a voz rouca de desejo.

Mais uma vez treino minha “performance” com a professora de inglês. A ideia do meu “pai” de mandar professores particulares para a casa do meu tio, o conde de Aragão, só me irrita. Aos dezoito anos, longe do internato e de volta à vida real, ele ainda tenta me controlar de longe. Meu tio me mantém aqui apenas para sugar mais dinheiro do duque. Estou cansado dessa vidinha parada. É hora de tirar o sossego do velho Esteban. Ele precisa pagar pela prisão da minha mãe. A coitada ainda definha atrás das grades por algo que não cometeu. Só de pensar, a raiva sobe quente pelo peito. Prefiro nem me aprofundar, ou meu humor vai para o ralo.

Respiro fundo. Pelo menos desta vez ele mandou uma professora interessante: jovem, cabelos curtos castanho-claros, olhos pretos penetrantes e uma boca que vale a pena. Aproveitei cada segundo com maestria.

— Por favor, não comente com ninguém o que aconteceu entre nós este mês — ela pede com os olhos arregalados.

Rio baixo enquanto caminho pelo quarto e me sirvo de um uísque. Acabei viciado, assim como o velho. Descobri isso nas pesquisas que fiz sobre ele. No fundo, não somos tão diferentes.

Aproximo-me da professora. Seus lábios ainda estão inchados, o olhar assustado. Ela teme pela reputação medíocre que tanto cultiva.

— Some daqui, vadia — digo, segurando firme seu pescoço e olhando bem no fundo dos seus olhos.

Ela arregala os olhos. Solto-a, viro as costas e não olho mais.

Inalo o aroma defumado do uísque, pego um charuto na mesinha e acendo. Esses hábitos me definem agora. Meu querido pai ficaria surpreso ao ver como superei ele.

Olho-me no grande espelho. Não estou nada mal: corpo atlético, moldado por treinos pesados e lutas clandestinas — algo que a boa sociedade jamais aprovaria. Pego a mala e começo a arrumar minhas coisas. Hoje começa uma vida nova. Volto para a “família perfeita”, onde ninguém erra. Rio com deboche.

Vou até o banheiro, tomo um banho longo para tirar o cheiro dela. Depois visto uma camisa social preta, deixo os primeiros botões abertos, coloco suspensórios e calça preta. Passo a mão pelo cabelo castanho-escuro, levemente ondulado — igual ao do meu pai. Infelizmente herdei muita coisa dele. Mas da minha mãe veio o que realmente importa: a sede de vingança. Vou me vingar de todos eles. Menos da minha irmã… embora ela também vá sofrer as consequências. E Collin, meu velho amigo de infância, que carrega um passado quase tão pesado quanto o meu.

Saio pelo corredor. Meu tio aparece correndo, charuto na mão, olhos arregalados.

— Estefan! Aonde você vai?! — A pergunta não é de preocupação. É pânico pelo dinheiro que vai deixar de entrar.

— Vou embora. Obrigado pela moradia. — Não dou mais explicações. Entro no Hispano-Suiza preto que ganhei de presente de dezoito anos. Minha mãe guardou o dinheiro na prisão e pediu ao tio que liberasse para comprar o carro. Escolhi este modelo exatamente porque tem a minha cara: elegante, poderoso e sombrio.

Coloco as malas no porta-malas e parto. As paisagens mudam: da cidade para o mato denso. O cheiro de mar chega devagar com a brisa quente. Lembro da primeira vez que cheguei à casa do duque — a ilusão infantil de ter encontrado um lar. Fui um idiota. Demorei a aprender que não devo depositar sentimentos nos outros. Só em mim mesmo.

Agora vivo apenas para mim. Quando conseguir tirar minha mãe das grades, aí sim terei alguém para cuidar.

Os grandes portões surgem. Os guardas fazem sinal para eu baixar o vidro. Tiro os óculos escuros.

— Não se lembram do herdeiro desta casa? O futuro patrão de vocês? — digo com sarcasmo, tamborilando os dedos no volante.

Eles se entreolham, hesitam, depois abrem caminho. Sigo pela alameda ladeada de árvores, jardins impecáveis criados para a felicidade da perfeita Emmiline. Só de pensar que um dia senti afeição por ela, que a vi como madrasta… agora sinto apenas asco.

Paro diante da entrada principal. Desço, pego a mala e subo os degraus de mármore que brilham sob o sol escaldante da tarde. Cada passo traz memórias da primeira e da última vez que estive aqui — a dor da traição do meu próprio pai. Ele não pensou nos meus sentimentos. Acreditou naquela mulher e nas palavras da avó.

Merda. Não quero lembrar. Coloco a máscara de ironia no rosto. É hora de começar minha vingança.

Ao entrar, os empregados ficam confusos por um instante, até os mais antigos me reconhecerem. Cumprimentam-me com respeito. Os mais jovens se curvam e desaparecem.

Ouço passos firmes na escada. É Collin. Meu amigo. Quase um irmão.

Abraçamo-nos como nos velhos tempos. A saudade que carreguei por anos volta com força. Pelo menos uma pessoa nesta casa — além de Elisa — ainda consegue me dar um pingo de alegria genuína.

Seguimos pelo corredor. A grande porta do escritório do meu pai aparece. Uma mistura de raiva e medo antigo aperta meu peito. Mas não sou mais menino. Não há motivo para temer.

Abro a porta sem bater. Collin arregala os olhos, chocado com a falta de respeito. Ele não merece nem isso.

— Filho?! — Meu pai se levanta devagar, surpreso.

— Oi, papai. Surpreso? — pergunto, tom irônico.

— Por que não avisou que viria?

— Gosto de surpresas.

Sorrio com os lábios franzidos, o olhar carregado de tudo que pretendo fazer enquanto estiver aqui. Se ele acha que vou ser o menino de dez anos que ele abandonou sem hesitar, mandando minha mãe para a prisão, está muito enganado.

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