Capítulo 5 Collin
Invadir o quarto de Mary tinha sido um ato desesperado e deselegante, eu sabia. Precisava me declarar antes que o baile chegasse e eu fosse praticamente obrigado a escolher uma noiva conveniente. Mas as palavras travaram, como sempre. Agora caminho rumo ao almoço em família, o estômago apertado. A chegada repentina de Estefan deixou todos em alerta. Eu, ao contrário, sinto uma animação cautelosa. Meu irmão de criação está de volta.
Ao entrar na sala de jantar, o ar está carregado. A luz dourada da tarde entra pelas janelas altas, refletindo nos talheres de prata e na toalha de linho impecável. A mesa está farta como nos velhos tempos: ensopado de cordeiro com azeite de oliva, arroz com açafrão, pão fresco, vinho tinto Rioja e frutas cristalizadas. Elisa é a única que sorri abertamente. Mary está mais ao fundo, ereta e formal como sempre, o uniforme verde-musgo impecável. Nossos olhares se cruzam por um segundo. Ela acena discretamente, sem sorriso. Apenas seriedade.
Sento-me ao lado de Elisa. Esteban segura a mão de Emmiline, alisando os dedos dela com o polegar — um gesto protetor. Todos sabemos da raiva que Estefan nutre pela minha irmã, culpando-a injustamente pela prisão da mãe. Mas não é verdade. Nunca foi.
Mexo os talheres devagar, o pé balançando inquieto sob a mesa. A demora dele parece deliberada, uma pirraça calculada.
Até que Estefan aparece.
Camisa branca com mangas dobradas até os cotovelos, botões abertos no peito, calça cinza folgada e — para completar o desrespeito — um par de chinelos. Totalmente informal na casa do duque.
— Desculpem a demora — diz ele com um sorrisinho irônico, aproximando-se. — Não estou acostumado com uma casa tão exageradamente grande.
Senta-se ao meu lado. Esteban cerra os punhos sobre a toalha. Emmiline força um sorriso doce, tentando dissolver a tensão.
— Com o tempo você se acostuma de novo, filho — responde Esteban, voz controlada.
Estefan olha para Emmiline com frieza, pega o prato e começa a se servir, ignorando a empregada que se aproximava. Um ato de rebeldia pura.
— Hum… o ensopado está bom — comenta, provando. — Mas o arroz pediu mais sal, Vanessa.
Todos olhamos para ele. Não consigo segurar uma risada baixa, cobrindo a boca com a mão.
— O que foi? — pergunta ele, erguendo as sobrancelhas. — Só estou sendo sincero. Está sem sal mesmo. Me passa o saleiro.
— Filho, olhe os modos — diz Esteban, a calma começando a rachar.
Respiro fundo e lanço um olhar discreto para Mary. Ela observa tudo de cabeça baixa, expressão neutra, mas percebo a tensão em seus ombros.
— Como você está, Estefan? — pergunta Emmiline baixinho, comendo devagar. A voz embargada trai o receio.
— Melhor que vocês, não é, Emmiline? — responde ele, seco.
Esteban não aguenta mais.
— Olhe os modos com a sua madrasta, Estefan.
Ele então solta uma risada curta e antipática.
— Ou vai fazer comigo o que fez com a mamãe?
O ar na sala fica gelado. A tensão desaba como uma cortina pesada. Estefan arqueia uma sobrancelha. Emmiline segura a mão do marido e cochicha algo que só eles entendem. Esteban respira fundo, o maxilar travado.
— Vamos comer — ordena ele, voz baixa e firme.
O almoço segue pesado, quase sufocante. O ensopado perde o sabor, o vinho parece mais amargo. Não era assim que queríamos recebê-lo. Mas foi o que aconteceu.
Quando chega a sobremesa — pudim de amêndoas com calda quente de laranja —, Elisa está mais quieta, claramente afetada pela discussão. Ainda assim, ela reúne coragem e fala baixinho:
— Estefan, você topa jogar uma partida de xadrez depois?
Ele sorri, surpreso, o primeiro sorriso genuíno que vejo desde sua chegada.
— Está certo, irmãzinha — responde, suavizando a voz. Depois olha para todos e acrescenta: — Que bom que você é diferente dos seus pais.
— Estefan, mais respeito, garoto! — Esteban se levanta bruscamente, apontando para ele.
Estefan se levanta também, dá as costas e sai andando sem dizer mais nada. O desrespeito é palpável.
Não aguento ficar parado. Levanto-me e vou atrás dele. Preciso conversar, fazê-lo entender que Esteban não pode se estressar assim. Sei que a saúde do meu cunhado não anda boa. Espero que Estefan compreenda e não use sua vingança para destruir ainda mais o homem que, no fundo, ainda é seu pai.
