Capítulo 2 Capítulo 2

Ela o olhou por apenas alguns segundos, depois baixou o olhar, desconcertada.

— Sim… desculpa.

Daniel sorriu de forma sutil e voltou para a frente da sala. Iniciou a aula e, enquanto falava, percebeu que Kaori rabiscava qualquer coisa no caderno, sem atenção alguma ao conteúdo. Aquilo o deixou inquieto.

Quando a aula já estava chegando ao fim, começaram a conversar para preencher o tempo restante. A chuva não dava trégua, caía forte do lado de fora. Enquanto os alunos conversavam entre si, Daniel se aproximou novamente de Kaori.

— Você mora longe daqui? — perguntou.

— Não — respondeu ela.

Então ele perguntou a idade dela, como se não já soubesse desde o primeiro dia.

— Tenho vinte anos.

Ela, por sua vez, perguntou:

— E você? Quantos anos tem?

— Sou um pouco mais velho.

Ela o olhou intrigada.

— Nossa… mas você dá aula? Então deve ser muito esforçado, inteligente e estudioso.

Daniel riu, quase exultante.

— É… estudioso. Esforçado, mais ou menos. Poderia ser mais.

Ele fez uma pausa e continuou:

— Tipo assim… quando eu saí do ensino médio, já fui direto pra faculdade. Sempre gostei dessas coisas de tecnologia, computador. Fiz Ciência da computação e adm, gostava de estar sempre por dentro. Meus pais investiram em mim.

Ele respirou fundo e completou, um pouco constrangido:

— Não quero me gabar, nem parecer nerd, mas preciso te contar uma coisa. Meus pais são donos da escola, são sócios. Então eu meio que ganhei o emprego. Não que eu não mereça… mas, se eu não merecesse, talvez ganhasse do mesmo jeito, entende?

Kaori começou a rir. Pela primeira vez naquele dia, percebeu que aquela conversa poderia ser mais interessante do que imaginava antes de começar o curso.

— É… entendo. Faz algum sentido, ainda mais você sendo tão novo.

Ela olhou diretamente para ele. Daniel estava sentado, encostado na mesa ao lado da carteira dela. Kaori manteve o olhar firme e perguntou:

— Não é estranho dar aula pra gente, tendo quase a mesma idade? Ou você dá aula pra pessoas mais velhas também?

Ela fez uma breve pausa e completou:

— Sabe que tinha uma colega minha que teve um professor só alguns anos mais velho. E adivinha o que aconteceu?

Ela disse aquilo séria, olhando diretamente nos olhos dele.

Daniel cerrou levemente os olhos e respondeu com um sorriso debochado:

— O que aconteceu? Preciso saber pra me precaver, né? Vai que acontece o mesmo comigo.

Ainda séria, Kaori respondeu:

— Ela se apaixonou por ele. Pelo professor. Mais velho… e bonito.

Daniel percebeu que aquilo era um flerte e, apesar de ser noivo e um cara bastante certinho, com boa criação e, além de tudo, criado dentro da igreja evangélica, ele gostou. Algo na personalidade forte dela mexeu profundamente com ele.

A verdade é que ele não estava apenas atraído; estava mais do que interessado em alguma coisa, mesmo sem saber exatamente no quê. Não fazia parte do seu feitio flertar com alunas, muito menos trair a namorada, que agora era noiva. Nada daquilo fazia sentido, mas estava acontecendo e o que ele poderia fazer, afinal?

Então ficou sério e respondeu como quem diz qualquer outra coisa:

— Olha, isso é realmente perigoso. Mas eu não sou tão velho nem bonito. Os jovens hoje em dia têm umas preferências bem diferenciadas.

Kaori sorriu, arqueou as sobrancelhas com ironia e perguntou:

— Como você sabe se é bonito?

Ele piscou, fazendo charme, e respondeu enquanto se levantava:

— Eu não sei. Só suponho que não, já que isso nunca aconteceu comigo.

Daniel se levantou, foi conversar com outros alunos e a aula foi encerrada. Todos começaram a ir embora, saindo aos poucos. Kaori ficou esperando pela mãe, que iria buscá-la. A mãe trabalhava em um restaurante como gerente e costumava sair tarde, apenas quando o local fechava.

Havia outras pessoas na recepção, alunos saindo de outras salas, e Daniel também saiu. Quando ele a viu sozinha, parada perto da porta, observando a chuva, aproximou-se como quem não queria nada e falou, mexendo no celular:

— Você está esperando carona ou vai pedir um Uber?

Kaori o olhou por alguns instantes, virou o rosto e respondeu, já tentando sentir as intenções dele:

— É carona. Estou esperando a minha mãe, ela ainda está no trabalho.

Daniel se encostou ao lado dela, guardou o celular e ficou olhando a chuva cair.

— Hum, entendi… — disse.

— E ela vai demorar? Posso fazer companhia pra você, se quiser. Já está tarde, né?

Kaori sorriu, respondeu, olhando fixamente para o professor:

— Eu acho que ela vai demorar, sim… mas não tem problema, porque eu moro meio longe, fazer o quê? Tenho que esperar. Se não tivesse chovendo, eu podia pelo menos ir andando.

Então ele perguntou, olhando fixamente nos olhos dela, reparando no quanto ela era expressiva:

— Eu fico aqui com você. Mas não quer uma carona? Tem certeza? Eu já estou indo embora mesmo e vou direto pra casa.

Ela olhou a hora e respondeu, pensativa:

— Ah, eu não sei… não vai te atrapalhar? Você nem sabe onde eu moro pra estar oferecendo carona. Que eu saiba, carona a gente oferece quando a pessoa vai pro mesmo lado que a gente.

Ele respondeu rindo:

— Ah, não importa. Eu não posso deixar uma moça como você desamparada no meio da noite, embaixo da chuva. E tem mais, daqui a pouco a escola vai fechar e aqui não é um lugar legal pra ficar sozinha. Ficar sozinha é perigoso.

Ela disse então:

— Tá… então eu aceito a carona. Se não for nenhum problema pra você.

Ele respondeu:

— Não, imagina. Não vai ser problema, não. Bora lá? Meu carro tá ali no estacionamento.

E completou, enquanto eles se preparavam pra sair:

— Eu percebi que hoje você não prestou muita atenção na aula. Você tá com uma carinha meio triste, e você não é assim.

— Aconteceu alguma coisa? Tá tudo bem? Brigou com o namorado?

Eles começaram a correr pra atravessar a rua e entrar no carro. Kaori disse, percebendo que ele tinha segundas intenções:

— Você quer saber se eu tenho namorado, professor? Então pergunta. Pode perguntar.

Ele respondeu rindo:

— No carro eu pergunto tudo o que eu quiser saber.

Os dois correram na chuva e entraram no carro. Kaori ficou rindo, pensativa, se secando das gotas que molharam o cabelo e o rosto.

Ela disse:

— Você não vai me sequestrar, não, né? Por favor, eu sou nova demais pra ir parar no Cidade Alerta.

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