Capítulo 6 Capitulo 6

Bato duas vezes na porta e, ao escutá-lo esbravejar um "in between", entendo que é para eu entrar. Pelo o que eu me lembro, Andrew — ou melhor —, Dr. Collins é americano. Porém, é naturalizado brasileiro desde o dia em que foi adotado pela família de Nikolas, pelo o que Laura havia me contado há alguns anos. Luce havia feito questão de perguntar isso a ruiva, em um dos ensaios de seu casamento, só para implicar comigo dizendo o quanto ele era bonito e interessante. Ela sempre fazia piadinhas sobre mim e o irmão de Nikolas, porque não gostava de me ver com Gustavo. E fazia questão de falar no Deus de Asgard — como ela adorava apelidá-lo — na frente do meu ex namorado apenas para afrontá-lo. Na época, confesso que gostava quando Gustavo escutava as piadinhas sem graça dela, porque ele se mostrava irritado e demonstrava gostar de mim. Hoje, depois das reuniões com Marisa e depois de muito refletir, confesso que vejo o seu comportamento como machismo. O pior que muitas das vezes eu me aproveitei disso, pois era apenas o Andrew aparecer para alguma festa familiar, que eu aproveitava para provocar o meu ex namorado. Deixava Luce ou Laura engatar numa conversa com o gringo, e me aproveitava para entrar no assunto, deixando Gustavo possesso de ciúmes.

Sou cautelosa, e abro a porta devagar encontrando-o sentado em seu assento de couro, tão charmoso quanto seus cabelos dourados presos num coque alto, enquanto parece analisar alguns papéis. Sou minuciosa até em minha pequena análise, observando a sua barba espessa e o alargador escuro que traz na orelha, mas disfarço quando vejo que ele finalmente parece perceber a minha presença. Seus olhos tempestuosos recaem sobre mim e suas safiras fitam-me carrancudas. Lembro-me de encará-las numa época não muito distante enquanto era guiada por esse mesmo homem na valsa que nós, os padrinhos de Nick e Laura, fomos obrigados a dançar. Olhos que naquela ocasião eram doces e complacentes, totalmente o contrário do que vejo hoje.

O Andrew que conheci era educado, galanteador e extremamente afetuoso, simplesmente o oposto do sr. Collins sentado à minha frente.

— Com licença, doutor, mandou me chamar?

— Sim! Sente-se, senhorita Teixeira. — Observo que ele não parece me olhar de fato, mesmo tendo seus olhos em minha direção.

Faço o que me pede e ficamos frente a frente novamente. Sinto minhas mãos suarem conforme a sala parece extremamente menor. Sempre tive dificuldades em ser posta no centro das atenções, nunca gostei de trabalhos da escola nem da faculdade, muito menos de ser chamada a atenção por algum problema.

Ele me encara com olhos mais atentos agora, e me perco alguns segundos no azul que eles possuem. Seu rosto quadrado parece mais fino desde a última vez que nos vimos, e gargalho por dentro ao finalmente perceber a semelhança que ele possui com o Thor, Deus de Asgard. A única diferença é que o Deus a minha frente usa um terno cinza e bem cortado enquanto o Deus do trovão deveria usar apenas uma túnica branca deixando praticamente amostra as partes mais interessantes de seu corpo.

Gargalho com o meu pensamento pecaminoso.

— O que é tão engraçado? — Sua testa franzida apenas deixa seu rosto mais charmoso. Puta merda!

— Nada demais, senhor! — Desvio os olhos sentindo o meu rosto esquentar.

— Bom, serei curto e grosso. Sei que se lembra de mim da casa de Nick, mas de antemão informo que aqui seremos chefe e funcionária. É assim que as coisas funcionam neste escritório.

Pisco os olhos algumas vezes e engulo em seco.

Ele pensou que seria de outra forma? Tenho vontade de indagar, mas prefiro me abster de futuros problemas. Sem alternativas, apenas assinto.

— Nós temos amigos em comum, mas não somos amigos! — Levanto uma sobrancelha e penso no quanto a beleza dele desceu alguns degraus na minha mente.

É obvio que não somos amigos, se fôssemos não estaríamos tendo esta conversa.

— E por favor, coloque um uniforme! — Franzo a testa, deixando o olhar recair sobre a minha roupa. Procuro disfarçar o incômodo e solto o ar aos poucos tentando não deixar as lágrimas apontarem nos meus olhos. Será que estou malvestida?

— Eu passarei na confecção mais tarde para pegá-lo, não se preocupe, doutor — comento sem graça. Encaro-o, mais uma vez, notando que seus olhos se demoram em minha blusa. — Algo a mais? — Ele desvia os olhos e responde rapidamente:

— Acredito que não!

— E quanto ao meu horário de almoço? — pergunto vendo-o franzir a testa, aparentemente, sem entender nada. — Meu horário correto, doutor, para que não haja mais contratempos.

— Seu horário permanece o mesmo. Quem te disse ao contrário? — Sua pergunta me pega desprevenida, e vejo que ele ainda possui um resquício de gentileza em sua alma.

— Disseram-me que o Doutor estava me procurando. Que ficou chateado por eu ter saído e.... — Ele me corta:

— Não me chateei, seu horário permanece o mesmo. — É taxativo. — E outra coisa, a senhorita pode ter começado na empresa hoje, porém seu cargo aqui é tão importante quanto o dos outros funcionários. Nunca deixe que a diminuam por isso. — Pisco os olhos completamente atordoada por sua mudança repentina, mas não digo nada e ele completa: — Agora já pode sair! — Seu dedo longo aponta para a porta e não me resta outra alternativa do que me levantar e sair em seguida.

O resto do dia é cansativo, marco algumas reuniões importantes para os meus chefes, conserto suas agendas virtuais e começo a fazer uma cotação para uma viagem para fora do Brasil.

No fim do dia, sinto que me sobrou apenas o pó do meu esqueleto. Olho para a minha cama, ao chegar em casa, e penso apenas em me jogar nela.

— Mas primeiro um banho — falo para ninguém em especial encaminhando-me para o chuveiro.

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