Capítulo 2 Capítulo 2
Depois conversamos muito sobre nós e as crianças. Falei que não haveria segredos entre nós, independentemente do que acontecesse. Ele falou que ia sair dos negócios da família dele assim que possível, que as coisas iriam mudar. Ele se referiu a dinheiro, falei que não importava nada daquilo, desde que a nossa família ficasse segura, e que agora eu tinha a casa dos meus pais e meu pai havia me deixado bem financeiramente. Ele respondeu que não iria depender de mim, nada disso, só que iria se dedicar ao trabalho de tatuador, ficar mais tempo no trabalho e que, por exemplo, não teríamos as viagens e os passeios luxuosos como antes. Falei que eu havia mudado muito e que essas coisas já não faziam mais a minha cabeça, que eu gostava da nossa antiga vida, quando moramos juntos na rua da mãe dele, que nunca fui tão feliz antes.
Nós nos acertamos e já começamos a fazer planos juntos. Ele disse que, como morava em outra cidade, não podia estar indo todos os dias ficar comigo e que também tinha alguns trabalhos para fazer antes de sair dos negócios. Mesmo sem saber dos detalhes, tentei me manter calma, não ficar em cima, cobrando nada e nem falando disso.
No começo, ele ia dia sim, dia não ficar com a gente. Às vezes, ficava até três ou quatro dias sem ir, mas sempre conversávamos muito pelo celular. Quando ia, dormia comigo, levava coisas para a gente e dava muita atenção para a Liz. Eu abri um salão em casa, não trabalhava o dia todo, mas fazia bastante coisa, até com horário marcado: cortes, sobrancelhas, escova, coisas rápidas e sem química por causa da gravidez.
Eu estava fazendo um curso de aperfeiçoamento e deixava a Liz com a minha madrasta para poder ir. Eu estava entrando no oitavo mês e estávamos muito bem, apesar da distância, sempre felizes. Eu sentia muito amor na gestação, sonhava com o meu menino nascendo lindo, perfeito e saudável, pedia a Deus por isso. Eu me culpava por não ter sentido aquilo tudo com a Liz. A terapia me ajudava muito a compreender meus sentimentos e a ter mais controle sobre mim e sobre as crises. Não tive mais crises de ansiedade ou pânico, elas já não faziam parte da minha rotina.
Cuidei-me muito durante toda a gestação, seguindo à risca tudo o que a médica passava. Tive uma consulta importante e avisei o Guto dois dias antes, chamando-o para ir junto. Era um daqueles ultrassons em que dava para ver tudo, ia ser legal para ele participar, já que tinha perdido quase tudo. Ele disse que não ia poder ir porque estava fora a trabalho. Fiquei muito chateada, falei que ele tinha prometido colocar a família em primeiro lugar, que assim seria difícil recomeçar com os erros do passado se repetindo. Ele me pediu tempo e paciência, disse que não dependia só da vontade dele.
A minha madrasta se afastou muito. Desde o aniversário da Liz, ela estava se preparando para mudar de cidade e ir morar perto da família dela. Ela se sentia muito sozinha após perder meu pai. Nosso relacionamento ficou bom até, apesar do nosso histórico, e nós nos mantivemos próximas, comparando com antes. Encontrávamo-nos por causa das crianças também e ela me ajudou muito, ficando com a Liz várias vezes.
A minha sogra havia me aceitado de vez, do jeito dela, lógico. A dona Lúcia tratava a Liz com muito amor, do jeito dela, mas eu não tinha o que reclamar sobre ela, até porque era cada uma no seu canto e ela me mandava comida. Eu esperava ansiosa pelas visitas do Guto também por isso. Ela falava com a Liz pelo celular dele, mandava mimos para a bichinha dela e nunca ia em casa por causa da correria. Até elogiar meu trabalho nas redes sociais ela começou, era inacreditável. Os dias foram passando e o Augusto ainda estava mexendo com coisa errada. Ele sumia, dava-me respostas vagas, eu ficava agoniada, com medo de acontecer algo com ele. Às vezes, via reportagens de roubos, tráfico e sequestros, morria de medo de vê-lo na televisão qualquer dia. Ele sempre me garantia que não havia riscos, que estava seguro, cuidando do financeiro e de acordos porque era de confiança. Falava que, quanto menos eu soubesse, melhor seria para a minha segurança, e eu nunca entendia de fato o que ele fazia.
Na gravidez da Liz, não tive chá de bebê. A gente comprou tudo o que precisava e eu não tinha pessoas para convidar, também vivia escondida na época. Acho que, por estar bem, quis aproveitar tudo ao máximo na gravidez do Gael. Fizemos um chá de bebê com uma superdecoração, com bolas metálicas prateadas enormes e tons sobre tons de azul. Eu fiz uma bela maquiagem, arrumei o cabelo, coloquei um conjunto de cropped e saia longa rosé, com a barriga de fora. A Liz estava começando a andar, não parava mais. Coloquei nela um vestido lilás cheio de babados na saia e organizei tudo com o Augusto, que adorava participar de cada detalhe.
Convidamos os meus familiares, os dele também, alguns que nem eram tão próximos de mim. Na lista, deu umas cinquenta pessoas e foi praticamente todo mundo. Minhas amigas também foram: Laura, Fernanda, Geovana, minha madrasta e meus tios. Eles foram para ficar em casa comigo já na sexta-feira. O Augusto estava com clientes no estúdio o dia todo, só chegou à noite, quase às 22h. Eu ficava muito apreensiva com todos eles juntos. A gente estava em família, assando carne, eles bebendo no quintal. Quando o Augusto chegou, cumprimentou todos e foi para dentro. Fui atrás para falar com ele, ver se estava tudo bem, como tinha sido o dia. Ele falou que ia dormir na casa da mãe dele, por causa da minha família, para deixar a gente mais à vontade, e disse que ia trabalhar no sábado. Era sexta-feira, o chá era no sábado, no dia seguinte. Respondi, perplexa:
— Como assim, Guto? Você também é parte da família agora, não pode ficar evitando eles. Eu não gosto disso!
Ele se aproximou, deu-me um selinho e respondeu, passando a mão na minha barriga:
— Por que vocês sempre deixam a mamãe assim? Grudenta, hein, Gael?
Olhei brava para ele e falei, tirando a mão dele de perto:
— Grudenta, Augusto? Poxa! Se fosse eu ignorando sua família, você não ia gostar!
Ouvi a Liz chorando, fui saindo do quarto para ver. Ele respondeu, debochado:
— Também amo você, morena.
Fiquei irritada com ele, saí, fui para o lado de fora, peguei a Liz do colo da minha tia e fui para a cozinha pegar o copinho dela para colocar água. Minha tia foi atrás e perguntou se estava tudo bem. Falei que sim, ela respondeu:
— Conheço você, Angélica. Estou sentindo você tensa, não sei... Como está o relacionamento de vocês? Faz pouco tempo que estão morando juntos e eu não o vi por aqui o dia todo.
Respondi:
— Está tudo bem, tia. Nos finais de semana, ele tem bastante trabalho mesmo.
Ela perguntou se o problema era eles ficarem lá em casa, falou que ele era muito fechado, sempre calado, e que ela não queria me trazer problemas. Respondi:
— Ele é assim mesmo, não tem nada demais, e a casa é minha, tia. Vocês são a minha família, imagina! Ele nem tem por que achar ruim de nada.
A gente estava sozinha na cozinha e o restante do pessoal estava no quintal. Ela falou do nada, no meio de uma conversa à toa:
— Você é feliz mesmo, Angel? Agora, com essa vida nova?
Respondi, surpresa:
— Sim. Por quê, tia?
Ela respondeu:
— Nada demais, só me preocupo. Você está sozinha aqui, eu fico tão longe, tenho medo de você precisar de mim, de alguém, e se fechar por medo, insegurança, não sei... Você sabe que pode sempre contar com a gente para qualquer coisa, não sabe? Se algum dia você quiser se separar ou ele fizer algo...
