Capítulo 4 4
Clara e eu vamos até o bar e eu peço os drinks. Ela começa a se afastar na direção de um cara gostoso, com um black power bem chamativo, e eu tenho que puxar a Clara de volta pro meu lado, porque ela está com a minha carteira e meu celular na bolsa.
A gente volta pra pista, e o cara vem atrás, fazendo uns passinhos ridículos, tipo algum ritual de acasalamento pra ganhar a aprovação da Clara. Funciona. Num segundo eu estou rebolando com a minha melhor amiga; no seguinte, estou ali do lado, tomando meu drink enquanto ela e o bonitão aleatório se agarram como adolescentes.
Eu varro o clube com o olhar, e meu vodka com cranberry vai ficando cada vez mais amargo a cada gole. Eu nem percebo o que estou procurando até ver ele — o cara gato com quem eu talvez tenha trocado olhares mais cedo. Ele está encostado na parede perto da área VIP, rolando a tela do celular.
Eu não entendo esse cara. Ele não parece pertencer a esse lugar. Sério demais, com cara de entediado demais. Está de terno preto bem ajustado, camisa preta e gravata vermelha. É chamativo, mas ele não está pagando de pavão. Ele só... existe.
Como se sentisse meu olhar, o homem ergue a cabeça do celular. O olhar dele me atravessa do outro lado do salão. Uma luz azul estoura no meu rosto, e eu não tenho dúvida de que, dessa vez, ele está olhando pra mim. Tudo à minha volta parece desacelerar e meu coração dispara. A boca dele se levanta só um pouquinho, num meio sorriso de canto. Minha boca fica seca, e eu viro o resto do drink num gole só. Quando eu olho de novo, ele já está subindo as escadas pra área VIP.
Eu volto pra Clara e faço uma careta. Ela e o novo amigo parecem que estão tentando se devorar, mas pelo menos ela está se divertindo, eu acho.
Clara se desgruda dele e sussurra alguma coisa no ouvido do cara, depois vem falar comigo.
— Eu e o Hunter vamos dar o fora daqui — ela diz. — Você consegue ir pra casa numa boa, né?
Eu concordo com a cabeça, forçando um sorriso.
— Claro.
Ela dá um beijo estalado na minha bochecha e pega a mão do Hunter. Os dois somem em segundos. É quase impressionante — ou seria, se não fosse tão irritante.
Eu solto um suspiro e olho pro meu copo vazio. Vou pegar mais um pra saideira. Tem uma garrafa de vinho me esperando em casa e, se eu estiver lembrando direito, eu tenho um pacotão de Doritos em algum armário.
Eu me espremo até o bar e peço mais um drink, balançando no ritmo da música. A bartender, uma ruiva linda coberta de tatuagens, me entrega o copo, e eu dou um gole distraída enquanto ela registra no caixa.
Só então eu percebo que a minha carteira desapareceu do clube ao mesmo tempo que a Clara.
2
Gabriel
O grave vibra pelo chão, mas aqui em cima é bem mais silencioso do que no clube lá embaixo. Eu estou sentado no meu camarote de sempre no Fiamma, meu clube favorito entre todos os bares que a minha família tem na cidade. É um bom lugar pra conduzir negócios. A chance de alguém ouvir é pequena, e meu pai nunca pisaria aqui, preferindo os botecos antigos onde ele e os amigos passaram a juventude, envoltos numa nuvem de fumaça de charuto.
À minha esquerda está Vito Gambaro, meu melhor amigo desde a época da escola. Ele vai ser meu consigliere, meu braço direito, quando eu assumir o controle do sindicato. Por enquanto, ele é meu confidente mais confiável e a única pessoa na organização de quem eu sei, sem sombra de dúvida, que é leal a mim — e só a mim.
Do outro lado estão Dom Rozzi e Diego Berdini. Dom é um bom capo, mas encontra prazer nas coisas simples da vida, sem ligar muito pra política ou estratégia. Ele pensa com os músculos e com o pau, e não gosta de problema que não dê pra resolver na porrada. Como sempre, Dom está encarando com malícia um par de pernas compridas que passa rebolando. Diego solta uma risada.
Eu me inclino na direção do Vito. “A reunião tá marcada?”
Vito lança um olhar pro Diego, mas o mais velho tá distraído demais com o Dom babando pra notar nossa conversa à parte. “Tá. Eles vão se encontrar com a gente no cais amanhã.”
Dou um gole no meu uísque. “Ótimo.”
“Você tem certeza de que isso é uma boa ideia?”, pergunta Vito.
Eu mando pra ele um olhar carregado.
Vito é imune ao poder dos meus olhares e se aproxima mais, baixando a voz. “Seu pai vai ficar uma fera se descobrir.”
Meu pai é o don da família criminosa Belluci, e Vito tem razão — ele vai ficar absolutamente furioso se souber que eu tô mexendo os pauzinhos pelas costas dele. Infelizmente, é um mal necessário. Se meu pai fizer do jeito dele, vai arruinar a família e acabar com uma dinastia de poder que vem de gerações. Ele sempre foi um homem ganancioso, mas, de uns tempos pra cá, a ganância começou a consumir ele. Eu pretendo impedir que isso destrua todos nós.
“Ele vai acabar entendendo que é o melhor pro negócio”, eu afirmo. “Ele pode até agir como tal, mas meu pai não é burro.”
Eu espero que isso seja verdade. Ultimamente, as atitudes dele têm mostrado o contrário.
Nós, Bellucis, mandamos na maior parte dos cais, um pedaço de território vital pra qualquer organização criminosa. A máfia irlandesa, comandada pela família Walsh, controla uma parte pequena pra eles. Meu pai vem se preparando pra arrancar deles o controle total dos cais, mas não consegue enxergar por que isso é uma péssima ideia. Os Walsh são fortes, e eu suspeito que eles tenham algum outro poder por trás, porque tiveram um aumento recente de recursos e capacidade. O don não enxerga isso. Ele se recusa a pensar nos Walsh como qualquer coisa além do carrapato nas nossas costas que eles têm sido nas últimas duas décadas.
“Do que vocês dois tão cochichando?”, Diego interrompe.
Eu olho pro mais velho. O cabelo tingido de preto tá penteado pra trás, longe da testa, e linhas finas marcam o rosto dele. Por baixo do terno, os braços e o peito são cobertos de tatuagens desbotadas, um mapa da vida turbulenta que ele levou por tantos anos.
Diego é como um tio pra mim, e eu queria poder confiar nele, porque seria um aliado valioso. Infelizmente, ele é amigo próximo do meu pai desde a adolescência.
“O Vito só tava me lembrando da vez em que eu e ele entramos escondidos aqui quando a gente era moleque”, eu respondo.
Diego ri, mostrando os dentes amarelados por décadas de cigarro. “Eu lembro disso. Eu tive que descer e expulsar vocês dois na base do chute, porque os seguranças tavam com medo demais de lidar com vocês.”
“Todo mundo tava”, Vito entra na conversa. “Ninguém queria ser o cara que ia dar cerveja pra dois moleques de doze anos, mas o Gabe já sabia impor respeito, mesmo naquela época.”
“Vocês dois sempre se metiam em confusão.” Diego se recosta, sorrindo. Ele faz um gesto com a cabeça pra mim. “Você já era o rei do castelo antes mesmo de alguém te entregar as chaves.”
Eu dou uma risada baixa. Pelo visto, nada mudou.
A garçonete passa trazendo a próxima rodada, e logo a conversa vai pro próximo combate de boxe. Isso divide a mesa: Vito banca o russo, um veterano brutamontes, enquanto Diego e Dom insistem que o novato criado no Bronx vai tirar o cinturão do campeão do Vito com facilidade.
Eu não ligo muito pra boxe — nem pra esportes, no geral. São só distrações. Homem distraído é homem fácil de enganar.
Eu olho por cima da varanda pro mar de gente pulsando na pista de dança lá embaixo. Meu olhar para numa morena com um vestido prateado cheio de brilho, que estilhaça as luzes do estrobo. Eu tinha visto o rosto dela mais cedo no meio da multidão, quando eu cortei caminho pela pista, e lembro de ter pensado que ela era deslumbrante.
