Capítulo 1
POV da Summer
Eu já estava deitada há três anos na poltrona de terapia de veludo cinza da dra. Martinez, e ainda não conseguia contar a verdade para ela sobre Walden Pond.
A máquina de ruído branco zumbia no canto do consultório, um chiado suave que deveria me acalmar. Do lado de fora das janelas do chão ao teto, o bairro de Back Bay, em Boston, ardia em cores de outono — bordos ficando dourados e carmesim, as folhas pegando o sol do fim da tarde. Era lindo daquele jeito cortante, doloroso, que fazia meu peito doer. Tudo que era bonito doía agora. Doía havia três anos, desde aquele dia de verão em que eu vi meu marido afundar sob a superfície de um lago e nunca mais voltar.
— Summer. — A voz da dra. Rebecca Martinez era gentil, mas firme, como sempre ficava quando ela percebia que eu estava prestes a fugir. — A gente dança essa mesma dança há três anos. Toda semana você vem aqui, senta nessa poltrona e me conta tudo, menos o que aconteceu em Walden Pond.
Eu torci o lenço de papel nas mãos até ele começar a se desfazer. Meus nós dos dedos tinham ficado brancos. Eu sentia meu rosto esquentando — meu Deus, como eu odiava corar com tanta facilidade, como minhas emoções sempre se estampavam na pele para todo mundo ver. Mesmo agora, aos vinte e sete, eu não conseguia controlar isso.
— Eu sei o que aconteceu — eu disse, e minha voz saiu menor do que eu queria. — Eu estava lá. Eu me lembro.
— Lembra mesmo? — Ela se inclinou um pouco para a frente, os olhos escuros vasculhando meu rosto. — Porque seus prontuários médicos dizem que você teve lacunas de memória significativas depois do incidente. Dissociação induzida por trauma. Seu cérebro te protegeu do pior.
O pior. Eu quase ri, só que não havia nada de engraçado nisso. O pior era eu ter sobrevivido e o Kieran não. O pior era eu ter passado dois anos de casamento achando que ele me odiava, que nosso casamento tinha sido algum plano elaborado de vingança, que cada olhar frio e cada toque contido eram calculados para me lembrar de como eu tinha sido cruel com ele no colégio. O pior era eu estar tão, tão errada.
— Eu não consigo dormir — eu me ouvi dizer. As palavras escaparam antes que eu conseguisse impedir. — Eu já tentei de tudo. Saí do nosso apartamento na cobertura — memórias demais. Fiquei no sobrado antigo da minha mãe — foi pior. Eu até passei um mês no Four Seasons, achando que talvez um hotel fosse neutro o bastante. Mas não importa onde eu esteja. Duas horas por noite, talvez três se eu tiver sorte. E quando eu durmo, eu sonho com ele.
— Me conte sobre os sonhos.
Eu fechei os olhos. Por trás das pálpebras, eu via o rosto de Kieran com tanta nitidez como se ele estivesse na minha frente. Aqueles olhos cinza-escuros que sempre me encararam como se eu fosse algo precioso e terrível ao mesmo tempo, como se ele estivesse dividido entre devoção e julgamento. Nos meus sonhos, ele nunca falava. Só me olhava com a mesma expressão intensa e indecifrável que tinha usado durante todo o nosso casamento, e eu acordava arfando, com o travesseiro encharcado de lágrimas que eu não lembrava de ter chorado.
— Ele me olha — eu sussurrei. — Só... olha. E eu nunca sei se ele ainda me ama ou se me odeia por eu ter sobrevivido.
— Summer. — A voz da dra. Martinez ficou suave, quase carinhosa. — Acho que está na hora de a gente falar sobre o seu relacionamento com o Kieran. Não sobre o acidente. Ainda não. Vamos começar por como vocês se conheceram.
— A gente não se conheceu. — As palavras saíram amargas. — A gente estudou no mesmo colégio. St. Jude’s Prep. Mas eu nunca realmente vi ele até... até ser tarde demais.
As lembranças vieram como uma enxurrada, afiadas e dolorosas como vidro quebrado.
Ensino médio. Meu Deus, eu tinha sido uma mimada insuportável. Eu conseguia admitir isso agora, sentada neste consultório de terapia, com três anos de luto servindo de professora. Naquela época, eu era Summer Hayes, a princesinha da St. Jude’s Preparatory Academy, filha de Victoria Hayes, CEO da Hayes & Co., uma das marcas independentes de moda mais bem-sucedidas de Boston. Eu dirigia um conversível branco que a minha mãe tinha me dado de presente de aniversário de dezesseis anos, usava Lululemon e MiuMiu como se fosse uniforme e passava o intervalo do almoço reinando no refeitório, cercada de garotas que riam de todas as minhas piadas e de garotos que se atrapalhavam para carregar meus livros.
Kieran tinha sido... ninguém. Pelo menos, era o que eu achava. Ele tinha se transferido no nosso penúltimo ano, um bolsista de South Boston que usava o mesmo moletom azul-marinho desbotado todo dia e sentava no canto do fundo de todas as salas, silencioso como um fantasma. Eu nunca tinha nem aprendido o nome dele. Por que eu aprenderia? A St. Jude’s estava cheia de gente como ele — os que entravam com bolsa, os que trabalhavam na biblioteca ou no refeitório para pagar os livros, os que não pertenciam ao nosso mundo e sabiam disso.
Eu estava ocupada demais correndo atrás do Evan Whitmore para notar qualquer outra pessoa. Evan com os cachos dourados e aquele sorriso fácil, que tocava piano na sociedade de música e remava na equipe no Rio Charles. Evan cuja família tinha uma casa de verão nos Hamptons e cuja mãe usava pérolas nas reuniões de pais e mestres. Eu tinha tanta certeza de que ele seria o meu futuro.
Eu tinha sido tão idiota.
— O que aconteceu depois do ensino médio? — perguntou o Dr. Martinez, me puxando de volta para o presente.
— Eu não vi ele de novo por anos. — Abri os olhos, encarando o teto. — A empresa da minha mãe faliu quando eu estava na faculdade. Fraude financeira. A minha tia Maya — irmã mais nova da minha mãe — estava usando contas no exterior para lavar dinheiro. Investigação federal, circo da mídia, tudo isso. A minha mãe levou a culpa. Ela foi presa.
Minha voz falhou nessa última palavra. Mesmo agora, três anos depois de ter perdido Kieran, a lembrança de perder a minha mãe parecia uma ferida aberta. Ela morreu na prisão — ataque cardíaco no meio da noite, sozinha numa cela — enquanto eu estava em algum baile de caridade tentando fingir que o meu mundo não estava desmoronando ao meu redor.
— E o Kieran?
— Ele apareceu num desses eventos. Três anos depois que a minha mãe morreu. Ele estava... diferente. — Eu ri, um som áspero que não parecia nem um pouco comigo. — Não era mais o bolsista. Ele estava com um terno Tom Ford que provavelmente custava mais do que a minha mensalidade da faculdade. A Forbes tinha acabado de colocar ele na lista dos principais empreendedores de tecnologia com menos de trinta anos. Cross Capital — era o fundo dele. Bilhões, doutor. Ele tinha feito bilhões.
— E ele te pediu em casamento.
— Ele mandou eu casar com ele — corrigi. — Não foi uma pergunta. A gente estava no saguão do MFA, cercados pela elite de Boston, e ele me olhou com aqueles olhos cinza gelados e disse: “Case comigo. Eu vou te dar tudo o que você perdeu.”
O Dr. Martinez ficou em silêncio por um instante.
— Por que você disse sim?
Porque eu não tinha mais nada. Porque a minha mãe estava morta, meu fundo de confiança tinha sumido, e a mídia ainda me chamava de “a herdeira desacreditada” sempre que lembrava de mencionar meu nome. Porque Kieran tinha me olhado como se soubesse cada pensamento vergonhoso e desesperado dentro da minha cabeça, e tivesse me oferecido uma saída.
Porque alguma parte pequena e idiota de mim achou que talvez ele tivesse me amado o tempo todo, que talvez aquele fosse o jeito dele de me salvar.
— Eu achei... — engoli em seco. — Eu achei que talvez ele se lembrasse de mim do ensino médio. Talvez ele tivesse tido uma quedinha por mim naquela época, e essa fosse a chance dele de finalmente me ter. Eu achei que ia ser como um conto de fadas. O garoto pobre vence na vida e volta para buscar a garota que nunca reparou nele.
— Mas não foi assim.
— Não. — A palavra saiu seca. — Não foi nada disso.
