Capítulo 5
POV da Summer
Eu vi Kieran voltar para o púlpito, com o coração martelando contra as costelas. A srta. Thompson bateu na mesa com uma unha bem feita. “Ops, eu esqueci de deixar você se apresentar. Você se importaria de voltar aqui?”
Kieran parou no meio do passo. A mão dele se fechou num punho antes de ele se virar devagar, com um movimento controlado, quase mecânico. Ele voltou com uma precisão cuidadosa, o rosto completamente vazio, e eu reconheci aquele olhar agora — dez anos tarde demais. Era a expressão de alguém que aprendeu a não esperar gentileza.
“Ele parece tão… frio”, Mia sussurrou ao meu lado.
Eu não consegui responder. Eu estava encarando o contorno do maxilar dele, o jeito como o cabelo escuro caía na testa. Aquele era o Kieran antes do MIT, antes dos bilhões, antes de ele transformar frieza em arma e fazer disso uma coisa assustadora. Ali, ele era só um garoto de dezessete anos arrastado para a frente de uma sala cheia de filhos de gente rica que já odiavam ele.
Ele chegou ao púlpito e ficou ali, com os olhos cinzentos varrendo a sala como se estivesse catalogando ameaças. Quando falou, a voz saiu baixa, sem nenhuma entonação. “Kieran Cross. De South Boston.”
Seis palavras. Sem sorriso, sem charme, sem nem reconhecer os cochichos. Ao meu redor, eu ouvi respirações presas. “Ele é tão alto”, alguém murmurou. “E esses olhos…” Mas havia incerteza também — uma tensão nervosa de encontrar algo bonito e vagamente perigoso.
A mão de Mia encontrou a minha por baixo da carteira. “Ele é muito bonito, mas meio assustador.”
Assustador. A palavra ficou presa atrás das minhas costelas porque ela tinha razão, e porque eu sabia melhor agora. O perigo não era violência — era o jeito como ele aprendeu a sobreviver sem precisar de ninguém, o jeito como ele transformou solidão em armadura.
“Obrigada, Kieran”, disse a srta. Thompson. “Você pode se sentar agora.”
Antes que Kieran conseguisse se mexer, a voz de Tyler Ashford atravessou a sala. “South Boston? Tá explicado.”
A sala ficou em silêncio. Eu me virei para olhar Tyler — cabelo cor de areia, um sorrisinho de canto, recostado com uma confiança fácil — e senti a raiva florescer no meu peito.
“Olha esses Converse”, Tyler continuou. “Tá literalmente se desfazendo. Ele pesca no lixo todo dia de manhã? E essa mochila… o zíper já tá quase desistindo. Pelo jeito bolsista não tem grana pra JanSport.”
Eu observei o rosto de Kieran, procurando alguma reação, mas não havia nada. Ele só ficou ali, com a expressão lisa como vidro, como se as palavras de Tyler estivessem acontecendo com outra pessoa. Aquilo foi a pior coisa que eu podia ter visto, porque significava que ele já tinha ouvido aquilo antes.
Tyler se inclinou para a frente, baixando a voz num sussurro teatral. “Eu ouvi dizer que ele tem passagem. Aluno problema. O St. Jude’s deve estar bem desesperado por pontos de diversidade este ano.”
Os cochichos se espalharam como veneno. “Pera, passagem? Tipo… foi preso?” “Ele tem uma cara meio intensa.” Mia ficou tensa ao meu lado, mas eu estava olhando para Kieran, vendo o maxilar dele enrijecer imperceptivelmente e depois relaxar de novo, vendo a mão direita machucada se fechar num punho e então, de propósito, se soltar.
Ele não ia se defender. Ele só ia aguentar.
A injustiça me atingiu com tudo. Aquele garoto — aquele garoto brilhante e quebrado que um dia salvaria a minha vida e morreria com o meu nome nos lábios — estava ali diante de pessoas que enxergavam nele nada além de uma cota de diversidade. E eu tinha sido uma delas.
A srta. Thompson pigarreou, seca. “Chega. Todo mundo se aquieta.” Ela se virou para Kieran. “Você pode se sentar agora. Só tem dois lugares vazios — um ao lado da srta. Hayes, perto da janela, e um na última fileira, ao lado das lixeiras.”
A sala ficou em silêncio, carregada de expectativa. Todo mundo esperava pra ver o que eu ia fazer — se a princesa de St. Jude’s ia deixar o bolsista sentar ao lado dela.
Eu pensei no homem em Walden Pond, no jeito que ele tinha sorrido mesmo enquanto se afogava, e me levantei tão rápido que a cadeira raspou no chão.
Todos os olhares se viraram pra mim. Kieran parou no meio do passo, a expressão oscilando com confusão. Minha voz saiu trêmula, mas firme. “Professora Thompson, aquele lugar lá no fundo… tá imundo. Tem uma lixeira bem do lado, e o balde do mop vive vazando. Não é um lugar decente pra ninguém.”
O silêncio pareceu pesar. Eu sabia que o Tyler me encarava, incrédulo, e que os olhos cinzentos do Kieran estavam presos no meu rosto com uma intensidade ardida.
“Bom”, disse a professora Thompson devagar, “se você está se oferecendo, srta. Hayes… Por enquanto, Kieran, você pode sentar ao lado da Summer.”
O maxilar do Kieran se contraiu. Por um longo momento, ele não se mexeu; só ficou ali, me olhando como se eu fosse um enigma que ele não conseguia resolver. Aí, sem dizer nada, ele se virou e começou a caminhar pro fundo da sala.
O pânico explodiu no meu peito. Eu me esgueirei pra fora de trás da carteira e estendi a mão pra pegar a manga dele antes mesmo de pensar. Meus dedos fecharam no tecido do blazer, e ele parou na mesma hora, ficando completamente imóvel.
“Por favor”, eu disse, a voz urgente demais. “Aquele lugar… é horrível. Você não pode sentar lá.”
Kieran se virou pra me encarar. De perto eu vi as sombras fracas sob os olhos, a tensão no maxilar, o jeito como a mão direita se fechava pra dentro, num gesto protetor. Os olhos dele, cor de tempestade, vasculharam meu rosto à procura de deboche ou pena.
“Eu vou ficar bem”, ele disse baixo, tentando se soltar.
Eu apertei mais, o coração martelando. A luz do outono prendeu no cabelo escuro dele e deixou os olhos quase prateados. A gente estava perto demais agora, perto o bastante pra eu sentir cheiro de amaciante e de alguma coisa fria, como ar de inverno. “Não vai. Por favor, só… senta comigo.”
O olhar dele desceu até a minha mão segurando a manga e depois voltou pro meu rosto. “Por que você se importa?”
Como eu ia explicar? Eu me importava porque tinha visto ele morrer, porque tinha passado dois anos casada com ele sem enxergar ele de verdade, porque eu sabia como era perceber que tinha amado alguém só depois que a pessoa tinha ido embora. Então eu menti. “Porque… porque eu não quero que ninguém sente do lado do lixo. Só isso.”
Era óbvio, nada convincente. Mas alguma coisa no meu rosto deve ter mostrado que eu não estava tirando sarro dele. Depois de um longo momento, algo mudou na expressão dele — não foi que amoleceu, mas surgiu uma curiosidade cautelosa. Ele me olhou por mais um instante, os olhos cinzentos buscando os meus, e então, tão baixo que eu quase não ouvi, ele disse: “Tá.”
A palavra ficou no ar entre nós, frágil e insegura. Ele olhou por cima de mim na direção da carteira vazia perto da janela, depois voltou pro meu rosto, e eu vi o exato momento em que ele decidiu. Não era confiança, ainda — mas era alguma coisa.
Eu soltei a manga dele, de repente consciente de que minha palma estava suada e de que meus dedos tinham deixado o tecido amassado. Ele não olhou pra mim de novo; só caminhou até a carteira ao lado da minha e se sentou com uma precisão cuidadosa, colocando a mochila gasta no chão.
Eu me joguei na minha cadeira, o coração ainda disparado, hiperconsciente de cada cochicho ao nosso redor, do jeito como o Tyler me encarava como se eu tivesse cometido traição contra a nossa classe inteira.
A Mia se inclinou, os olhos arregalados. “Summer, o que foi aquilo?”
Eu olhei pro Kieran, pra linha rígida dos ombros dele e pro jeito como ele fazia questão de não olhar pra mim. “Eu não sei”, eu disse pra Mia, de verdade. “Eu só… eu não consegui deixar ele sentar lá no fundo.”
