Capítulo 2 -
— Há quanto tempo isso está acontecendo? — ela apontou para o espaço entre Alex e o homem na cama dela, que não conseguia encará-la.
— Faz alguns meses — Alex revelou, com os olhos em Jordan e aquele sorriso idiota estampado no rosto. — A gente só não conseguiu achar o momento certo de te contar.
Aquela última frase fez todas as engrenagens na cabeça dela baterem em frenesi, como uma máquina de escrever enlouquecida. Ela praticamente gritou com os dois, a emoção na voz crua e incontrolável:
— Então vocês decidiram me contar sobre as suas mentiras no nosso aniversário de um ano? É isso, Alex?
— Nia, não era assim que a gente queria te contar... a gente não queria te machucar — Alex dizia, atropelando as palavras, mas ela sabia que nada do que ele falasse acalmaria a fúria que crescia nos ossos dela. Então ela fez a única coisa razoável que conseguiu, contra o primeiro impulso de torcer o pescoço dos dois: puxou um longo fôlego e falou num tom mais tranquilo.
— Acabou, Alex. Agora, cai fora. Os dois. E nunca mais apareçam na minha frente.
Nia tentava se manter inteira, mas atacou de novo quando os dois homens continuaram na mesma posição, nenhum dos dois se mexendo.
— Estão esperando o quê? — ela gritou, fazendo Jordan se encolher visivelmente, como se ela fosse o lobo mau. Enquanto o verdadeiro causador da dor dela apenas a encarava, como se ela não tivesse dito uma palavra.
— Olha, Nia, eu nunca quis que as coisas terminassem assim. Por favor, tenta entender...
— Entender? — ela o cortou, a raiva fervilhando logo abaixo da superfície. — Você me machucou, Alex, e não existe entendimento nenhum que conserte isso — declarou, com frieza, mal conseguindo conter tudo o que se chocava dentro dela.
— Me faz um favor e me deixa em paz.
Alex a fitou por um longo momento, daquele jeito que antes a faria derreter, não fosse a traição absurda. Ele suspirou, vencido, e fez um gesto para Jordan; os dois saíram do quarto e da vida dela. Só quando ouviu o clique da porta da frente se fechando foi que Nia chorou. Ela foi escorregando devagar até o chão, e tudo o que vinha segurando finalmente emergiu, enquanto lágrimas de angústia desciam pelo rosto. Pouco antes, ela imaginava Alex fazendo o pedido e ela finalmente dizendo sim a um para sempre com ele. Sem saber que ele a traía, iludindo-a com um felizes para sempre que não existia.
Um grito horrível, vindo do fundo da alma, encheu o quarto enquanto ela se sentava, desfeita, no chão do próprio quarto — o mesmo quarto que dividira com ele por quase um ano. Agora, ela teria de lembrar Alex mais do que de fato o conhecia, por causa daquele maldito espaço com memórias dele gravadas em cada canto. Mas não era justo. Por que ela tinha de sofrer aquela dor enquanto ele seguia em frente para um novo relacionamento? Não fazia sentido nenhum.
Ela se levantou do chão e seguiu para o apartamento de Isa, duas portas depois do dela. Só a sopa de galinha com macarrão da melhor amiga era capaz de curar seu coração em frangalhos — e talvez um pouco de desabafo também. Nia estava passando pela sala de estar quando ouviu o celular tocar de dentro da carteira. Não era o melhor momento para atender uma ligação, mas temeu que pudesse ser algo importante; então foi até a bolsa, pegou o objeto e puxou o celular para atender.
— Alô? — A voz saiu estranha aos próprios ouvidos, rouca depois dos gritos e soluços intensos.
— Nia, namorada do Alex Navarro — disse uma voz grave do outro lado da linha, sobressaltando-a. Ela percebeu que havia atendido sem olhar o identificador; agora, ao ver a tela, encontrou apenas um número ominoso encarando-a de volta. A ligação ficou em silêncio por um tempo, até a voz grave falar de novo: — Estou ouvindo você respirar.
Aquele comentário não soou nada bom, porque Nia sabia que não era do tipo que respirava alto.
— Você é a Nia Wallace, namorada do Alex? — perguntou ele. Ela ainda não queria dizer nada ao desconhecido, mas ser chamada de namorada daquele babaca a fez se encolher, com nojo visível.
Já estava na hora de fazer todo mundo saber que tinham acabado e, ironicamente, seria um estranho o primeiro a ouvir a notícia. — Sim, eu sou a Nia — revelou. — E, para responder à sua pergunta, Alex não é mais meu namorado.
Pronto, ela disse. Embora, um dia, Nia tivesse imaginado pronunciar aquelas palavras como introdução para “ele é meu noivo agora”. Mas ali estava ela, encarando a realidade dura: solteira, e longe de ser noiva. — Onde está o Alex Navarro? — a voz veio de novo, arrancando-a dos pensamentos.
— Você não ouviu uma palavra do que eu acabei de dizer? A gente terminou. Eu não sei onde o Alex está e, sinceramente, eu não tô nem aí. — Do outro lado não veio nada, só um silêncio inquietante que apertou os nós nos músculos dela.
Nia pensou que talvez o homem tivesse entendido o recado e decidido deixá-la em paz. Mas a voz — muito mais profunda e muito mais áspera do que antes — saiu do telefone na mão dela, fazendo arrepios subirem por sua espinha.
— Controle o seu tom comigo, mocinha — ele disse, e ela captou com facilidade a ameaça na voz curta e cortante.
O instinto dela gritava em alerta; ainda assim, ela perguntou: — Quem é você?
Antes de mais nada, queria saber por que alguém assim estava procurando Alex e por que estava perguntando a ela, quando podia simplesmente ir atrás do babaca. O homem levou seus minutos preciosos antes de falar de novo:
— Eu sou alguém que precisa encontrar o Alex. E é melhor pra você cooperar.
O que era aquilo? ela se perguntou, incrédula.
Nia tinha deixado bem claro que ela e Alex tinham acabado, mas aquele homem parecia ainda mais decidido a enfiá-la no que quer que estivesse acontecendo entre ele e o ex-namorado dela. E falando em Alex, ela não queria ter nada a ver com ele — começando por tirar todas as coisas dele do seu espaço e terminando com aquela maldita ligação. A mão dela apertou o celular quando ela gritou para a pessoa do outro lado:
— Eu não sei onde o Alex está, e mesmo que soubesse, eu não me importo o suficiente pra te dizer.
Então encerrou a chamada, e a linha morreu na hora.
