Capítulo 3 -
Depois de bater o telefone com força, Nia soube que precisava escapar. Então pegou uma colher na cozinha e foi para a casa da melhor amiga, em busca de qualquer consolo que Isa pudesse oferecer. Ela tinha uma chave reserva do apartamento de Isa, assim como a melhor amiga tinha a dela. Embora não usassem, a não ser em caso de emergência ou com permissão da outra. Se dependesse de Nia, coração partido contava como emergência, porque ela estava naquele exato momento na sala aconchegante de Isa, tomada pelo cheiro quente de velas de baunilha.
Nia estava sentada no sofá de Isa em posição de lótus, com um pote de sorvete de chocolate rico e cremoso de Isa equilibrado sobre as pernas cruzadas. A amiga ainda não tinha chegado, mas, quando chegasse, se surpreenderia ao ver Nia passando a noite ali em vez de comemorar seu relacionamento de um ano — o mais longo que já tinha tido.
Um suspiro alto lhe escapou ao perceber como seus pensamentos, inconscientemente, voltavam a girar em torno de Alex. Apesar da necessidade de apagá-lo da memória, Nia não conseguia parar de revisitar um ano inteiro de nostalgia que ainda insistia em ficar. O som da porta da frente destrancando e trancando quebrou seu devaneio, avisando-a de que não estava mais sozinha. E, nem um minuto depois, Isa apareceu na sala, confusa.
— O que houve, Nia? — perguntou a amiga, com os olhos azuis bem abertos, avaliando-a.
Nia soltou outro suspiro antes de responder.
— Eu acabei de me despedir do meu relacionamento, estou solteira de novo. Eba! — tentou aliviar a situação, mas fracassou miseravelmente quando os lábios tremeram logo em seguida, segurando mais soluços.
— Ay, mi amor! — Isa praticamente correu até ela no sofá, envolvendo-a num abraço e dando tapinhas reconfortantes nas costas, como uma irmã mais velha.
As duas ficaram nos braços uma da outra, e o silêncio ao redor era pacífico e sereno. Nia tinha achado que ia desabafar e depois chorar, mas, com a melhor amiga ali e ela aconchegada no abraço de Isa, não sentia mais vontade. Permaneceram na mesma posição, com Nia repousando no conforto da amiga e se aquecendo com o calor dela. Ela sabia que a sessão de perguntas e respostas estava chegando. E, depois do que pareceu vários minutos, Isa se afastou para perguntar:
— O que levou vocês dois a terminarem?
— Ele estava me traindo há meses e resolveu contar hoje.
— O Alex? Te traindo? Eu mal vejo ele com mulher nenhuma.
Nia bufou com aquilo; se Isa soubesse que o ex-namorado era gay... mas duvidava que ele tivesse se assumido para alguém. E, por mais que odiasse a coragem dele por machucá-la e traí-la, ela não faria o mesmo com ele — pelo menos não numa situação tão delicada.
— Não me diga que ele levou aquelas interesseiras para um restaurante chique. — Então ela arfou. — Ou levou? Como ele teve a coragem de fazer isso com você? — Isa rosnou, inventando uma explicação possível para não ter visto nenhuma mulher com Alex no apartamento.
— Aquele desgraçado! Eu vou matar ele quando eu tiver a chance — a expressão da amiga mudou do choque para a fúria. Isa a puxou para outro abraço. — Não se preocupa com esse traste, você vai ficar aqui comigo.
Nia sorriu de leve, grata pela presença da amiga.
— Eu mandei ele embora — contou. — Mas você tem razão, não dá pra eu voltar lá por enquanto. Então vou dormir aqui hoje, com a minha pessoa favorita do mundo — elogiou a melhor amiga, que assentiu, feliz. — E amanhã eu lido com as consequências.
Isa prendeu o cabelo loiro, na altura dos ombros, num coque bagunçado enquanto perguntava:
— Jantar?
— Sim, por favor — respondeu Nia, animada, depois de já ter tomado sorvete o suficiente para se consolar.
— Vem — a melhor amiga a puxou de pé e a arrastou para a cozinha.
— Que tal a minha sopa de macarrão com frango, aquela assinatura, pra te animar? — Isa sugeriu, enquanto caminhavam lado a lado pelo apartamento.
Nia soltou um gemidinho; esse era um dos motivos de ter corrido para Isa, e a amiga sabia exatamente o que ela precisava para melhorar sem nem ter que perguntar.
— Você sabe que é um anjo, né? — disse Nia, assumindo sua posição de sempre no banquinho atrás da bancada da cozinha.
Isa apenas sorriu.
— É pra isso que servem as amigas — comentou, antes de bater palmas. — Agora, vamos preparar essa sopa e esquecer o Alex hoje à noite — disse, indo até a geladeira para pegar os legumes.
Nia observava a amiga de perto enquanto ela preparava o jantar das duas. Tentava prestar atenção no presente, mas a mente insistia em voltar para a ligação. Foi estranho — alguém daquele tipo perguntando onde Alex estava. O ex-namorado dela não andava com gente assim, do tipo que ameaça os outros pelo telefone. Nia não conseguia evitar se perguntar no que ele tinha se metido; se fosse ser bem objetiva, parecia coisa de agiota. A amiga deve ter percebido a distração, porque estalou os dedos na frente do rosto dela duas vezes. “Alô, Nia, tá tudo bem?”
Claro que não estava tudo bem; tinha tanta coisa passando pela cabeça dela, mas uma conversa recente estava no topo da lista. Nia não sabia se contava para Isa ou não, porém a incerteza roía por dentro, e ela cedeu ao medo.
“Depois que eu mandei aquele babaca embora, recebi uma ligação estranha de um cara procurando o Alex.”
Isso chamou a atenção de Isa, porque ela parou de cortar a cenoura que segurava. “O que ele disse?”, perguntou, com a preocupação pesando na voz. Nia contou tudo o que tinha acontecido entre ela e o homem para a melhor amiga, que ouviu com atenção e pareceu ficar chocada quando chegou na parte da ameaça.
“Dios mío!”, Isa arfou. “No que o Alex se meteu?”, perguntou, mais para si mesma, já que nenhuma das duas sabia a resposta.
As duas ficaram se encarando, as mentes girando em possíveis explicações para aquela ligação misteriosa.
“Seja lá o que for, eu não quero lidar com isso. Eu terminei com ele, e com tudo que tenha a ver com ele.” Nia sussurrou para si mesma, tentando acalmar os nervos ansiosos. Isa, de pé diante dela, assentiu em concordância.
“Exatamente! Você merece coisa melhor.” Nia não respondeu; só ficou sentada no banquinho, vendo a amiga fazer sua mágica. Os legumes já estavam fatiados; agora vinha a sopa de verdade. Isa remexia no armário de temperos quando sua voz exasperada encheu a cozinha. “Acabou a pimenta-do-reino. Você tem aí no seu apartamento?”
Nia se lembrou da sacola de compras que tinha trazido do mercado para preparar a lasanha especial do aniversário de um ano dela e do Alex. Tinha certeza de que havia um frasco de pimenta-do-reino na sacola.
“Espera aí, vou lá pegar”, avisou Isa, levantando do banquinho.
A amiga reapareceu na área do fogão. “Tem certeza de que tá tudo bem você voltar lá tão cedo?”
Nia sabia que a amiga só estava preocupada, mas não era algo que ela não desse conta. Mais cedo ou mais tarde, teria que voltar ao apartamento. E talvez fosse melhor se acostumar logo a não ver Alex ali; talvez assim se curasse mais rápido.
“Já volto”, garantiu, com um daqueles sorrisos falsos que Isa conhecia bem, mas decidiu não insistir.
Percorrendo o caminho familiar de volta ao apartamento, Nia já estava no corredor do prédio, com a porta de Isa bem para trás, quando percebeu um cheiro forte de colônia no ar. Era estranho, porque não havia ninguém naquele corredor estreito, e ainda assim o aroma persistia — um cheiro que ela nunca tinha sentido em nenhum dos vizinhos. Balançou a cabeça, achando ridículo o quanto parecia paranoica por causa de uma simples colônia que podia ser de qualquer um, provavelmente visita de algum vizinho. Diante da porta, enfiou a chave que tinha na mão na fechadura e girou duas vezes, até o trinco fazer um som indicando que estava aberto. Entrou em casa, se recusando a olhar para os sapatos de Alex no suporte ao lado da parede, nem para as fotos dos dois emolduradas perto da porta. Nia ignorou todos aqueles sinais malditos e foi mais para dentro, avistando de imediato a sacola de compras repousando no sofá da sala.
Então alguma coisa fisgou o olfato dela: aquela mesma colônia estava na sala. Mas agora, o dono também estava ali, em algum lugar atrás dela. A proximidade permitiu que ela sentisse bem o cheiro — couro e tabaco, com algo perturbador por baixo.
Havia um intruso na casa dela, e ele tinha pego Nia no momento mais vulnerável, sem faca nem nada que pudesse servir de arma na mão.
“Nia Wallace.”
