Capítulo 4 -
“Nia Wallace”, a voz grave e masculina arrastou o nome dela, fazendo-a enrijecer com a familiaridade. Tinha sido só uma vez e não tinha durado tanto, mas aquela voz ela reconheceria em qualquer lugar, mesmo que viesse do outro lado de uma ligação.
Seus passos foram lentos, mas ela conseguiu dar uma volta completa e, quando ficou cara a cara com ele, um suspiro ofegante escapou de seus lábios.
Ele apontava uma arma direto para a cabeça dela, a mão enluvada em couro fechada em torno de uma arma de verdade, mirando entre suas sobrancelhas. Ela estava sob a mira de uma arma; pela primeira vez na vida, estava sob a mira de uma arma. A noção da situação foi se assentando devagar, enquanto seu coração disparava.
Nia não sabia o que fazer; nunca, em toda a sua existência, pensou que morreria com um tiro, e ainda tinha que ser justamente quando estava de coração partido.
Seus olhos deixaram o objeto de seu medo para encarar seu potencial assassino. Um homem dolorosamente bonito, que parecia estar no começo dos trinta, com cabelo escuro, porte musculoso e olhos cinzentos intensos, que prendiam os castanhos dela num olhar penetrante. Sua mandíbula forte estava travada; sem dúvida ele cerrava os dentes de pura irritação. E a pequena cicatriz que ia da bochecha esquerda até o lábio inferior contrastava com o terno preto formal que usava. Era como se ele estivesse em uma reunião e tivesse descido correndo até ali só para apagá-la da face da Terra. Nia reuniu a pouca coragem que conseguiu encontrar naquela situação de vida ou morte e fez a mesma pergunta de antes.
“Quem é você?” Então acrescentou, para garantir: “E o que você quer de mim?”
A mandíbula do homem se contraiu uma vez após a pergunta dela. O espaço ao redor deles estava silencioso, exceto pelo tique-taque ocasional do relógio de parede da sala. Minutos se passaram, e parecia que os dois estavam travando uma disputa de olhares, enquanto o homem, em sua maior parte, a avaliava. Então ele baixou os braços, especificamente o que segurava a arma apontada para sua cabeça, e naquele momento Nia soltou uma respiração trêmula que nem percebeu que estava prendendo todo esse tempo.
“Vamos descer até o meu carro, e você vai agir naturalmente. Aja de outro jeito, e eu não vou hesitar em estourar seus miolos.”
Inconscientemente, ela imaginou a cena grotesca: seu cérebro espalhado pelo chão do corredor depois que gritasse o nome de Isa. A imagem mental a fez estremecer enquanto encarava a figura imensa se afastando, o homem que a estava sequestrando, mas fazendo parecer que ela tinha escolha.
Ela queria detê-lo, talvez perguntar o que quer que ele precisasse saber sobre Alex, e eles poderiam discutir aquilo ali, sem que ela entrasse no carro dele e fosse Deus sabe para onde. Mas ele tinha lhe dado essa opção na ligação, e ela tinha estragado tudo feio. Embora nada daquilo fosse culpa dela, porque quem iria querer falar sobre o ex com um estranho? Exatamente, ninguém.
O homem de cabelo escuro esperava na entrada da sala, com um lampejo de irritação nos olhos e aquela colônia maldita envolvendo a atmosfera tensa. Se não fosse pela arma ainda em sua mão, ela teria corrido para Isa, ou para qualquer lugar longe dele. Mas a arma deixava pouco ou nenhum espaço para esse tipo de coisa. Então ela fez o mais sensato e andou, cada passo parecendo que estava escalando uma colina. Nia passou por ele na porta, parando por um breve momento para ver se talvez ele mudasse de ideia. Mas aconteceu o oposto, já que ele a observava com olhos cinzentos e frios.
Vendo que não havia nada a ser feito, ela seguiu em frente, vestindo sua calça de moletom preta e uma regata azul, e pegou as escadas que não iam na direção da porta do apartamento de Isa. Durante todo o caminho, sentiu a presença ameaçadora atrás de si, o cheiro dele invadindo suas narinas. Eles estavam em um espaço aberto, e ela sabia que ele não podia fazer nada ali, então Nia decidiu tentar a sorte de novo.
“Você disse que estava procurando Alex”, murmurou ela, a voz baixa, mas alta o bastante para que ele ouvisse, embora ele não desse sinal algum de que realmente estivesse escutando. “A última vez que o vi foi há duas horas, ou mais, não tenho certeza...” Ela se interrompeu antes de começar a divagar, respirando fundo antes de tentar outra vez. “Hoje deveria ser o nosso aniversário de um ano. Íamos comemorar a data especial em casa, com a comida favorita dele: lasanha. Mas ele abriu o jogo comigo, contou que vinha me traindo no nosso relacionamento.”
Não havia necessidade de revelar tanta coisa, a não ser pelo fato de que ela precisava que aquele homem soubesse que Alex agora era passado — e que ela não fazia ideia de onde ele podia estar. Então, continuou, tentando apelar para a simpatia:
— Alex despedaçou meu coração, me deixou com os cacos do que sobrou. Eu não sei pra onde ele foi; só sei que saiu da minha vida de vez pra ir ficar com o amante dele.
Se o homem estava ouvindo, não demonstrava. Não houve mudança no passo, nem qualquer coisa que ela pudesse deduzir daquele jeito de andar logo atrás dela. Gemendo por dentro, Nia entendeu que, independentemente do que dissesse, ele ainda assim continuaria levando-a. Eles estavam agora na escada do primeiro andar, descendo para o térreo. Ela torceu para que, aonde quer que aquele homem arrogantemente bonito e perigoso estivesse levando-a, fosse um lugar de onde ela saísse ilesa. Chegaram ao saguão do prédio, ocupado por apenas uma pessoa, parada ali sem fazer nada. A dita pessoa era desconhecida, o que confirmava que não havia escapatória. Nia se perguntou se Isa já estava procurando por ela, depois de ela demorar demais para pegar a pimenta-do-reino para a canja de galinha com macarrão que estava desejando, mas que não ia conseguir comer.
O vento frio a atingiu como um trem quando ela saiu do prédio e entrou na noite. Os olhos de alguns passantes se voltaram para algo atrás dela — ou melhor, para o homem que exalava uma energia ameaçadora a poucos passos. Nia parou no fim da escada, esperando que ele a conduzisse até o carro de que tinha falado antes. O estranho parou ao lado dela, observando-a pelo canto dos olhos. Em qualquer outro cenário, ela teria derretido com a intensidade daquele olhar. Mas aquilo era um sequestro; ele estava prestes a ser o seu carcereiro. Portanto, não podia baixar a guarda nem na presença de um estranho bonito. Os dois esperaram em silêncio: os olhos dele nela, e os dela em qualquer coisa que não fosse aquele cinza.
De repente, as sombras num canto da rua se deformaram e delas surgiu um homem corpulento, de cabeça raspada e barba grossa — típico de segurança de boate de luxo. Ele se aproximava de onde ela estava, andando com um passo deliberado, decidido, irradiando uma aura de violência contida que acionou alguma coisa no cérebro dela. Medo. Medo puro.
Não havia dúvida de que ele e o homem ao lado dela eram companheiros, e isso a empurrou a pelo menos pedir ajuda ou algo do tipo. Porque aqueles homens não eram homens comuns — ela já sabia disso desde que tinha visto o estranho bonito com uma arma, mais cedo. Mas aquele brutamontes reforçou a ideia de que eram homens capazes de quebrá-la do jeito que quisessem. E ela não estava disposta a passar por aquilo por causa daquele idiota do Alex.
— Chefe. — O homem cumprimentou o que estava ao lado dela com uma reverência respeitosa.
Ele era o chefe deles. Um chefe da máfia? Ou só um chefe de escritório? A primeira opção parecia mais provável. Os olhos castanho-opacos do brutamontes pousaram nela por um segundo, antes de voltar para o chefe — o homem ao lado dela —, aguardando novas instruções. O único gesto que recebeu foi um aceno de cabeça; então o corpulento se virou, recuando para onde tinha vindo.
— Nia… Nia, é você? — a voz de Isa veio de algum lugar no saguão, mas Nia ainda não conseguia vê-la; embora a amiga devesse tê-la visto.
Com toda a força dos pulmões, ignorando o pensamento de que poderia ter o cérebro estourado dentro do crânio, Nia gritou:
— Isa, Isa, sou euuu—
A última palavra saiu abafada, porque uma luva de couro se prensou com força sobre a boca dela, silenciando-a. Antes que pudesse correr na direção da amiga, Nia se sentiu erguida do chão e jogada por cima de ombros enormes. Em vez do estranho bonito, era o brutamontes que a carregava, enquanto o chefe vinha logo atrás, fulminando-a com o olhar. Felizmente, ninguém tapava sua boca agora, então ela continuou berrando, com o sangue subindo à cabeça por estar de ponta-cabeça.
— Isa, socorro!
