Capítulo 5 -

A voz da amiga dela rasgou o saguão: “Tô chegando.” Mas Nia já estava nas sombras, duvidando se a amiga a veria ou apenas um saco de batatas jogado sobre o ombro de um homem. A luta por liberdade abandonou seu corpo quando o homem parou de andar e a largou no chão, fazendo com que ela ficasse cara a cara com um brutamontes de aparência muito irritada. Ele passou por ela de lado e abriu a porta de um carro preto que ela não conseguiu reconhecer direito, de tão bem que se misturava às sombras.

— Entra, ou eu vou usar outros métodos pra te enfiar nesse carro — cuspiu o homem corpulento, com a voz áspera.

— Onde você tá, Nia? — a voz da melhor amiga ecoou na rua. Ela lançou um olhar por cima do ombro para procurar Isa, mas um terno escuro bloqueava sua linha de visão, e a colônia denunciava a presença dele. Quando ergueu os olhos para o rosto do homem, viu os olhos cinzentos semicerrados, como se ele a desafiasse a dizer mais uma palavra.

Nia engoliu em seco, percebendo que não tinha muita escolha, e entrou no banco de trás. A porta se fechou com força depois que ela entrou.

No banco do motorista havia um homem loiro cujo rosto ela ainda não conseguia ver, mas, fosse como fosse, ele tinha a mesma energia dos outros dois. A porta do outro lado se abriu ao mesmo tempo que a da frente, e os dois homens entraram no carro: o de cabelo escuro sentou ao lado dela no banco de trás, e o careca ao lado do motorista. Nia ficou em silêncio, o coração disparado diante do desconhecido.

Ela estava cercada por homens de aparência perigosa que a tinham tirado do prédio do seu apartamento sem qualquer aviso ou respeito por direitos humanos. O loiro deu vida ao motor, saiu da guia e navegou pelas ruas com facilidade, entrando na rodovia com precisão. Sentado à direita dele, o homem corpulento mantinha os olhos fixos na estrada, e de vez em quando olhava para ela pelo retrovisor. Nia decidiu que já o odiava. E seu captor principal, cujos olhos cinzentos e penetrantes pareciam sempre atravessar a alma dela, não estava nem olhando para Nia. O olhar dele estava focado na estrada à frente, maxilar travado, expressão dura.

Nia se virou para a janela; a cidade borrava do lado de fora enquanto o carro corria pela via. Os pensamentos dela se embaralhavam em perguntas sem resposta. Como: com o que Alex tinha se envolvido para esse pessoal vir atrás dela como dano colateral? E por que não ouviam o que ela tinha a dizer? Então a pergunta mais importante: quem eram essas pessoas? A última era praticamente óbvia, com a cena de sequestro e a arma apontada para ela, mas parecia que havia mais neles do que apenas serem homens perigosos.

O medo roía por dentro, mas ela decidiu manter as emoções sob controle, especialmente perto desses incômodos. Isso só durou um minuto, porque ela quebrou o silêncio para perguntar:

— Pra onde vocês estão me levando? — A voz saiu controlada, apesar de por dentro ela sentir o oposto. O estranho ao lado dela se mexeu, encontrou o olhar dela por um instante antes de responder, e sua voz grave encheu o carro:

— Você vai saber em breve.

Como se isso fosse diferente de não saber nada, ela decidiu perguntar de novo, para arrancar alguma coisa daquela boca arrogante.

— O que eu tenho a ver com isso tudo?

Depois da segunda pergunta, houve um silêncio considerável no carro, sem uma palavra para satisfazer a curiosidade dela. Nia estreitou os olhos para o homem ao lado, enquanto a expressão dele permanecia impassível e ele mantinha a atenção na estrada à frente. Estava claro que ele não ia lhe dar uma resposta; nem o careca, que lançava olhares rápidos para ela, nem o motorista, que não demonstrara o menor interesse nela nos poucos minutos desde que entrara no carro. A frustração cresceu dentro dela, a vontade de explodir com eles aumentando a cada segundo, mas Nia tentou segurar as rédeas das próprias emoções, engolindo as perguntas seguintes que poderiam provocar a fúria deles.

A viagem de carro durou mais ou menos uma hora e alguns minutos, mas pareceu que nunca ia acabar. Só que acabou. Depois de passarem pela paisagem urbana, que deu lugar a colinas onduladas e florestas densas, o carro desacelerou, entrando numa estrada de cascalho que levava a uma mansão isolada, erguendo-se diante deles de forma quase assombrosa. Nia arregalou os olhos para o edifício inteiro, maravilhada; ela nem sabia que existiam mansões assim nos arredores da cidade, muito menos com tamanha grandiosidade e estilo neoclássico. Os grandes portões pretos se abriram automaticamente, e o homem loiro entrou na garagem, onde vários homens de terno preto, armados, espalhavam-se pela propriedade, seus olhos vigilantes acompanhando cada movimento do carro.

A mente de Nia fervilhava enquanto seus olhos iam dos homens armados à mansão iluminada pelas luzes no chão. Ela se perguntava que tipo de lugar era aquele e, mais importante, por que tinha sido levada até ali. Assim que o carro parou, sinalizado pelo motor sendo desligado, o homem ao lado dela puxou a porta do carro do seu lado e desceu sem lhe dirigir sequer uma palavra. Em seguida, o brutamontes fez o mesmo, restando apenas ela e o motorista loiro, cujo rosto ela ainda não tinha visto. Nia se remexeu no banco, tentando achar um ângulo melhor para ver o rosto do loiro. Mas mal teve tempo de olhar antes que o ar frio da noite, vindo da porta aberta ao seu lado, atingisse seu rosto.

— Sai! — latiu o brutamontes, fazendo-a se encolher com o volume da voz dele. Ela não sabia por que o homem a tratava com tanto desprezo, embora o sentimento fosse mútuo. Só para irritá-lo, Nia saiu do veículo devagar e viu a figura do homem estranho recuar para dentro da mansão sem sequer olhar para ela ou para o carro uma segunda vez.

— Que lugar é esse? — ela perguntou, observando toda a propriedade. Nia não esperava uma resposta, mas ela veio, surpreendentemente, do careca.

— Esta será sua residência temporária. Até você nos dar a informação de que precisamos.

Pelo menos ele estava lhe dando alguma coisa, então ela insistiu.

— E que informação vocês precisam de mim?

O homem a observou, seus olhos descendo preguiçosamente da cabeça pelo corpo dela e depois voltando para o rosto. Nia odiava estar sob o escrutínio do olhar daquele imbecil, ou a forma como os olhos dele se demoravam em seus seios. Mas não disse nada, porque ele era quem podia lhe dar as respostas de que precisava.

— Isso você deve perguntar ao Executor — ele disse simplesmente, como se aquilo explicasse o suficiente.

As mãos enormes dele, que estavam ao lado do corpo, de repente agarraram o braço dela, puxando-a para a entrada da mansão. Nia tentou arrancar o braço de sua mão, mas o homem apenas apertou mais o aperto, arrastando-a em direção à mansão imponente, pintada em tons profundos de cinza e branco, com os gramados e jardins ao redor perfeitamente aparados.

Alguns homens na entrada lançaram olhares duros para ela, com aquelas armas assustadoras nas mãos, diante das quais ela talvez devesse ter se acovardado. Em vez disso, retribuiu o olhar com um igualmente mortal. Ela e o monte de músculos se aproximaram das grandes portas duplas de vidro, ainda maiores que o homem que a tratava com brutalidade, e entraram na fortaleza. A visão diante dela a fez parar; o ar lhe fugiu dos pulmões quando ficou boquiaberta para o lustre de cristal pendurado no teto alto. Nia ficou hipnotizada pela opulência do cômodo, tomado por móveis luxuosos e várias obras de arte sofisticadas adornando as paredes. Ela parou completamente, sobrecarregada por tudo o que via. Embora quisesse saborear cada detalhe do lugar com os olhos, foi trazida de volta à realidade quando o aperto do careca em seu braço se intensificou.

— Anda — ele rosnou, empurrando-a para a frente com brutalidade.

Os olhos de Nia deixaram a decoração e se voltaram para o homem ao seu lado, que parecia irritado com a forma como ela encarava tudo. Pelo canto do olho, ela viu outra pessoa se aproximando da grande escadaria curva até onde eles estavam. Era uma mulher de meia-idade, com cabelos grisalhos na altura dos ombros e pequenas rugas nos cantos dos olhos. Ela parecia confiante e exalava autoridade, mesmo usando um vestido branco simples que lembrava o uniforme de uma lanchonete.

— O chefe mandou que você a entregasse a mim — a mulher disse ao careca ao lado dela, cujas mãos se afastaram imediatamente, como se tivessem tocado algo quente.

— Comporte-se — ele advertiu, como palavras de despedida, e saiu andando para um canto do saguão, antes de desaparecer por outra porta de vidro menor.

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