Capítulo 6 -

“Sou Rosa, a governanta-chefe da mansão DeSanto”, apresentou-se a mulher, impassível. Nia não conseguiu decidir se devia ou não se apresentar e permaneceu em silêncio. “O patrão me pediu que mostrasse onde você vai ficar pelo resto do tempo em que estiver aqui. Por favor, me siga.”

Nia hesitou por um instante, lançando um olhar para as portas de vidro e, depois, para as menores, por onde o homem careca tinha desaparecido. Pesou suas opções, que pareciam poucas naquele momento. Fugir só faria com que ela fosse morta pelos homens armados lá fora, e seguir o careca a levaria a um destino muito pior. Seus olhos voltaram aos azuis de Rosa e ela decidiu que aquela era a melhor opção… por enquanto.

Com um suspiro derrotado, Nia assentiu em rendição e seguiu a mulher, cuidadosa em cada passo. As duas subiram uma escadaria de mármore; os degraus brancos e lisos brilhavam de leve sob a luz suave vinda de cima. O olhar de Nia vagou, absorvendo as obras de arte imensas que alinhavam as paredes no caminho, tudo ali gritando status e poder. Rosa parou no topo da escada, virou-se para conferir se ela a acompanhava e, ao vê-la logo atrás, continuou. Percorreram um corredor longo, com várias portas do mesmo design requintado, em vez de quadros decorando as paredes.

Nia achou estranho. Normalmente havia um quadro, um vaso bonito ou algum artefato em cada cantinho da mansão que ela tinha visto. Exceto aquela parte, que parecia despojada. Mais à frente, Rosa parou de novo, desta vez diante da última porta do corredor, esperando por ela. “Este será o seu quarto”, anunciou, abrindo a porta e saindo para o lado para que Nia entrasse. Mas Nia ainda não entrou; se aquilo era uma prisão, ela queria ter certeza.

“Você sabe por quanto tempo eu vou ficar aqui?” Nia perguntou, finalmente quebrando o silêncio. Rosa fez uma pausa na porta com a pergunta — ou talvez se perguntando por que Nia não estava entrando. A pergunta não era difícil; bastava uma data. Em vez disso, veio uma resposta oposta ao que ela queria.

“Não sei a resposta para essa pergunta”, disse a mulher, com sinceridade nos olhos verde-água. Nia desviou o olhar, encarando a extensão do corredor e o que parecia ser sua nova realidade, quando a voz de Rosa soou mais uma vez. “O que eu sei é que sua estadia aqui pode ser breve se você cumprir o propósito pelo qual foi trazida.”

Aí estava o problema: ela não sabia por que estava ali, só que o homem misterioso procurava Alex e, se perguntasse a Rosa, duvidava que a mulher soubesse alguma coisa sobre isso também. Nia voltou a fitar Rosa para fazer outra pergunta, uma que escapou antes que ela pensasse direito. “E se eu não cumprir o meu propósito aqui?”

Rosa ficou imóvel, com uma expressão indecifrável marcando seus traços. Quando falou, seu tom vinha com uma ponta cortante. “Eu não recomendo testar a paciência do patrão. Ele não é conhecido por ter misericórdia.”

O aviso na voz dela não passou despercebido por Nia; se é que havia algo, ela sabia em primeira mão que Rosa estava certa, depois de ter sentido uma arma apontada para o rosto. Embora ele tivesse decidido poupá-la naquele momento, Nia não tinha certeza de que aquela sorte duraria muito.

Nia decidiu entrar no quarto com cautela, os olhos se arregalando diante do luxo. O cômodo era enorme — do tamanho do apartamento dela, praticamente. Havia uma cama king size coberta com lençóis de aparência caríssima, e um lustre menor, tão deslumbrante quanto o do hall de entrada, pendia do teto alto.

Ela se virou para Rosa. “É aqui que vocês vão me manter? Não parece extravagante demais para uma prisioneira?” A expressão de Rosa mudou para algo parecido com um sorrisinho, quase inexistente. “O Sr. DeSanto pediu que eu lhe dissesse para se preparar para o jantar enquanto isso.”

DeSanto. Então esse era o nome do homem de olhos cinzentos — e ele também era dono da mansão. Nia guardou a informação. Porque, se queria sair daquele lugar ilesa, precisava não só cooperar, mas também entender como as coisas funcionavam ali. Um pensamento lhe ocorreu, um nome que tinha sido mencionado sem que ela fizesse muito esforço para lembrar.

— Quem é o Executor? — ela perguntou, anotando mentalmente alguma coisa, porque Rosa franziu a testa; o nome, por algum motivo, a afetou profundamente.

— Para o seu bem, espero que não o encontre — disse a mulher, simplesmente. Suas palavras enigmáticas atiçaram as chamas do medo que Nia de algum jeito tinha deixado de lado.

— E se alguém o encontrasse? — ela perguntou, com a voz carregada de curiosidade e pavor, porque o homem careca tinha dado a entender que ela ia encontrar o Executor. Em vez de Rosa se aprofundar no assunto, ela endireitou a postura, deixando o olhar afiado ainda mais cortante.

— Não cometa o erro de tentar sair deste quarto a menos que seja escoltada para o jantar — disse, seca, evitando a pergunta de Nia por completo. E, dito isso, girou nos calcanhares para sair.

— Eu não devia te dizer isso, mas é pela sua segurança — disse Rosa, parando na porta, de costas para Nia. — Tem câmeras por toda parte, e os guardas nestas dependências não são tão tolerantes quanto eu. Obedeça às ordens, comporte-se direito, e este lugar vai virar uma lembrança.

Nia ficou em silêncio, ouvindo aquela mulher que, de certa forma, tinha amolecido com ela — aquelas palavras de conselho ou de aviso. O jeito como Rosa falou, como se já tivesse visto gente vir para cá, se comportar mal e não sair daquela mansão.

Nia não sabia que lugar era aquele, nem por que estava ali; a única coisa que importava era ir embora. O clique suave de uma porta se fechando avisou Nia da ausência de Rosa, deixando-a com a mente inquieta e pensamentos embaralhados.

Lá fora, além das janelas enormes que davam para os terrenos vastos, já estava escuro. E, mesmo no primeiro andar, ela estava tão alta que o chão parecia pequeno demais. Era evidente que não havia como fugir pelas janelas, porque seria morte certa. Nem pela porta da frente, porque o careca talvez não hesitasse em meter uma bala nela, como o chefe dele fez. Então ela descartou a opção de fugir.

Por pura curiosidade, e nada mais, Nia foi até as duas portas do quarto, abriu uma que dava para um banheiro privativo reluzente, com mármore e ferragens pretas. Depois foi à segunda, que escondia atrás de si um closet vazio. Ótimo! Ia ficar de moletom e regata para sempre. Nia suspirou pela enésima vez no dia e fechou a porta do closet, encostando no batente por um instante.

Ela tentava processar tudo. O que deveria ter sido uma noite simples de comemoração de um ano de namoro tinha virado uma sequência de acontecimentos horríveis. E doía aceitar que talvez nem houvesse uma busca por ela, já que não tinha mais família — exceto Isadora, que ela considerava uma irmã de outra mãe.

— Maldito seja, Alex! — resmungou para si mesma.

A mente dela juntou as informações que tinha arrancado de pessoas diferentes e montou um quebra-cabeça completo, e ficou claro que sua ligação com Alex era o motivo de ela estar trancada numa gaiola dourada. Entre avisos enigmáticos e ameaças que pairavam sobre sua vida, Nia sabia que precisava formular um plano próprio — mas não agora, porque o estômago roncou. Um lembrete de que ela não tinha provado nem um pouco da sopa de frango com macarrão da Isa; só tomou sorvete de chocolate o dia inteiro.

O fato de ele querer que ela se juntasse a ele para jantar trouxe pouco conforto; pelo menos ia ter comida, se não liberdade por enquanto — nem uma troca de roupa. Desencostando da porta do closet, Nia caminhou até a cama king size no meio do quarto luxuoso e se sentou na beirada, esperando a escolta. À parte a comida, a ideia de jantar com o Sr. DeSanto — o enigma que tinha poupado sua vida, mas podia voltar atrás a qualquer momento — a apavorava. Mesmo sem querer dar a eles a satisfação de incutir nela aquele tipo de medo, Nia concordou com Rosa. Ela obedeceria às ordens, se comportaria direito, jogaria o jogo deles — e faria as coisas do seu jeito.

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