Capítulo 7 -
Quando Rosa voltou, Nia estava largada na cama, com a fome mordendo por dentro. A única coisa que servia de distração era o lustre acima, como se fosse uma forma de entretenimento. Os olhos de Rosa percorreram seu corpo por um instante e ela balançou a cabeça, desapontada.
— Venha comigo.
Nia não disse nada enquanto seguia a mulher por uma grande escadaria. Seus olhos passeavam pelo lugar, avaliando uma obra de arte ou outra como se estivesse numa galeria.
Tinha que admitir: o Sr. DeSanto tinha bom gosto para artes. Vozes vindo de trás de um par de portas enormes no fim do corredor fizeram sua coluna se endireitar. Nia estava prestes a encontrar o estranho de novo, mas, desta vez, parecia que ele estava acompanhado, o que só fez sua ansiedade disparar.
Rosa parou diante das portas fechadas e abriu uma delas, revelando um salão de jantar luxuoso, iluminado por mais um lustre. Com as portas se abrindo, as vozes cessaram e, embora ela ainda não conseguisse ver os ocupantes, Nia já não sentia fome. A mulher que ela via como uma possível aliada a instigou a entrar na boca do lobo com um leve gesto de cabeça na direção da sala de jantar. Mas Nia hesitou.
Rosa deve ter percebido seu desconforto, porque entrou, parando para olhar por cima do ombro e ver se ela vinha. Nia se deu conta de que Rosa estava ajudando, e não queria dar à mulher um motivo para odiá-la, então saiu do lugar junto à porta e entrou. A sala de jantar era grande, maior do que uma sala de jantar deveria ser, com uma mesa polida se estendendo por todo o comprimento do cômodo; a superfície estava posta com pratos brancos impecáveis, talheres e taças de cristal.
Rosa avançou pelo salão, os saltos baixos estalando no piso de lajota. Nia foi logo atrás, avaliando o espaço e seus ocupantes. Na cabeceira da mesa estava o homem que ela agora sabia ser o Sr. DeSanto. Os olhos cinzentos e marcantes se fixaram nela no instante em que entrou, e aquela intensidade perfurante lhe arrancou um arrepio na espinha. Ele vestia um terno preto sob medida como o que vinha usando o dia todo, só que este parecia diferente dos outros. Nia se perguntou que tipo de homem usa terno dentro da própria casa — ainda mais um terno para jantar —, embora aquilo não parecesse um jantar comum.
À direita dele, seus olhos encontraram um homem loiro, o único que não a encarava; ele olhava para a mulher ruiva à sua frente, que lançava punhais na direção de Nia. Algo aguçou seu interesse: havia uma semelhança inquietante entre o Sr. DeSanto e o loiro ao lado dele. Talvez fosse a distância pregando peças, mas, de longe, poderiam passar facilmente por gêmeos com cores de cabelo diferentes.
Ao lado da ruiva havia outro homem e, para seu máximo horror, era o careca — que a encarava de um jeito que fazia sua pele rastejar. Nia desviou o olhar dele, mantendo a vista na nuca de Rosa até chegarem à mesa comprida.
— Boa noite, chefe — cumprimentou Rosa, com uma reverência profunda, e então passou por Nia de lado para sair da sala. Antes de ir embora, lançou um rápido olhar para ela, e Nia entendeu o recado. Era como quando tinha dado seu conselho mais cedo, no quarto: obedecer às ordens e se comportar direito.
Um silêncio constrangedor se instalou — ainda mais constrangedor pelo jeito como ela ficou parada na ponta da mesa enquanto os outros a encaravam como se fosse um espetáculo exposto para apreciação. Nia se deu conta de si mesma, olhando as roupas distintas que todos vestiam, enquanto ela usava algo que parecia um pijama.
“Nia Wallace”, a voz grave do Sr. DeSanto preencheu o recinto. “Sente-se”, ordenou, gesticulando para o espaço vazio ao lado do homem loiro.
Nia hesitou antes de caminhar até a cadeira à sua frente. Todos, inclusive os seguranças posicionados em vários pontos da sala, observavam cada movimento dela com uma presença imponente. O homem ao lado de quem ela deveria se sentar exalava poder e controle, do tipo que parecia segurar o destino dos outros nas mãos. Ela evitou o olhar dele, sentou-se com as costas eretas e as mãos repousando no colo para esconder o tremor.
A tensão na sala era espessa o bastante para uma faca atravessar, e o ambiente estava carregado de expectativa. Por mais que quisesse parecer calma e composta na presença daquelas pessoas, por dentro ela estava praticamente tremendo. Uma atuação que comprometia sua fachada. Um movimento repentino no ambiente chamou sua atenção. Era DeSanto, servindo-se de uma taça de vinho. Ele não disse nada, deixando o silêncio se estender como se a estivesse testando e medindo até onde a determinação dela iria antes de se partir.
Quando terminou, ele se recostou na cadeira à cabeceira, girando o vinho na taça. “Suas acomodações estão do seu agrado?”, perguntou, num tom enganosamente educado.
O olho de Nia tremeu; ela tentava se recompor naquela situação em que ele a havia enfiado, e tudo o que ele tinha a dizer era sobre as acomodações dela? Ela queria tanto soltar uma risada de desprezo, mas mordeu a língua, lembrando das palavras de Rosa. Talvez fosse isso que a mulher quis dizer. Que o chefe dela testaria seus limites — e que ela só precisava manter a calma e se comportar direito.
Então, em vez de xingá-lo, respondeu com neutralidade:
— Estão boas.
DeSanto esboçou um sorriso de canto, claramente divertido com a contenção dela.
— Ótimo — disse, seco, e ela assentiu com amargura.
Os olhos dela cometeram o erro de encontrar a ruiva ao lado dele, arrependendo-se imediatamente.
Quando Nia se sentira insegura mais cedo, tinha muito a ver com a linda mulher de pele pálida sentada do outro lado. Com maçãs do rosto altas, um corpo pequeno, lábios levemente carnudos e aqueles olhos âmbar de sereia, Nia se sentia sem graça e pouco refinada perto dela. E, como se não pudesse piorar, a mulher a pegou encarando antes que ela conseguisse desviar.
— Quer uma foto? — perguntou, rude, encarando Nia.
Nia queria responder com sarcasmo, algo como “Não vale a pena”. Mas alguém a antecipou e estalou a língua; o som de desaprovação veio do homem ao lado dela, que também encarava a ruiva. O rosto da mulher se retorceu de fúria na direção do loiro; os dois pareciam travar um duelo silencioso. Nia deduziu que havia, com certeza, algo entre eles — ou algum tipo de passado — que devia ter azedado por motivos que só os dois conheciam. E ela se perguntou quem eles eram para DeSanto.
— Quando o Don chega? — a mulher perguntou ao homem de cabelo escuro na cabeceira, já tendo se cansado do confronto de olhares com o loiro.
Pela primeira vez, Nia ouviu a voz do homem ao seu lado — e ela estava carregada de raiva.
— Onde diabos está meu filho, Lucia? — perguntou à ruiva, cujo nome Nia agora sabia: Lucia.
Quase instantaneamente, os traços delicados dela se endureceram, e seus olhos âmbar se estreitaram quando respondeu às palavras do loiro.
— Se você esqueceu, ele também é meu filho — ela retrucou, encarando a fúria dele de frente.
— Eu não me importo com o que você acha que é melhor pra ele. Traga meu filho de volta pra cá, senão...
Ela o interrompeu.
— Senão o quê, Christian? — disse, gélida, com o tom pingando desprezo.
Nia teve de admirar a coragem daquela mulher; ela a lembrava muito sua melhor amiga, Isa, e de como ela enfrentava qualquer testosterona.
