Capítulo Quatro

Trinta dias depois da chegada do frio extremo.

A temperatura lá fora havia se estabilizado por completo num número capaz de levar qualquer vida baseada em carbono ao desespero — menos setenta e cinco graus Celsius. A cidade inteira de Chicago, fazia tempo, tinha virado um túmulo silencioso sob uma camada de gelo com vários metros de espessura.

Mas o meu Acampamento da Guarda de Ferro era, naquele momento, a única utopia no meio do deserto.

Eu estava sentado num amplo sofá de couro na área central, com um copo de vodca com gelo na mão. Usando a enorme quantidade de materiais de isolamento de padrão aeroespacial e combustível militar recuperados da [Fortaleza Dimensional], eu já havia transformado essa área central do prédio numa fortaleza com controle absoluto de temperatura.

A temperatura interna agora estava em espantosos vinte e cinco graus Celsius.

No salão, o gerador a diesel de modelo antigo, escavado dos escombros, funcionava de forma estável, ligado a uma jukebox vintage que tocava melodias de jazz de Louis Armstrong. Um grupo de veteranos SEAL, que um dia tinham lambido a lâmina da morte, agora vestia coletes confortáveis de mangas curtas e se reunia em torno de uma fogueira crepitante, devorando suculentos tomahawk steaks ainda chiando.

Os ferimentos de Brad, tratados com antibióticos e nutrição abundante, já tinham se curado havia tempo. Ele se aproximou de mim com uma taça de vinho e fez uma reverência respeitosa:

— Chefe, a blindagem de liga metálica nas muralhas externas já está toda soldada, e as posições de metralhadora pesada estão de prontidão vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.

Assenti de leve, mas meu olhar passou por ele e caiu sobre uma grande estação militar de escuta de rádio em cima da mesa, com a luz verde piscando rápido.

Era o dispositivo de invasão de frequência do mais alto nível que eu havia tirado do arsenal da Guarda Nacional. Apenas meia hora antes, ele tinha conseguido interceptar e decifrar o canal de comunicação de mais alta autoridade dentro do Bunker do Éden.

— Shh. — Levantei um dedo, sinalizando para Brad ficar quieto.

O show finalmente ia começar.

Eu conhecia aquele roteiro bem demais da minha vida passada. Trinta dias — esse era o limite fisiológico para o bunker do conglomerado esgotar completamente o combustível de reserva regular. Nos níveis inferiores do Bunker do Éden, onde os vampiros viviam, as mortes em massa por congelamento sem dúvida já tinham começado.

E aquele “Ladrão do Fogo” idiota finalmente estava diante do acerto de contas.

Um estalo agudo e chiado saiu do alto-falante do monitor; em seguida, ouviu-se a pancadaria violenta de uma porta sendo arrombada no quarto de veludo, antes luxuoso, de Luke.

— O que vocês estão fazendo?! Eu sou VIP do presidente Howard! Eu trouxe o grande Fogo Seráfico para o bunker! Seus cães miseráveis, tirem as mãos de mim! — a voz aterrorizada e estridente de Luke explodiu no rádio.

— VIP?

Uma voz fria, arrogante, envelhecida — carregando a crueldade típica de quem está no topo de um conglomerado — soou. Era Howard, o presidente do Conglomerado do Éden.

— Sr. Luke, seu idiota ganancioso, você realmente achou que uma pedra brilhante ia permitir que você desfrutasse de vinho e mulheres no Éden pelo resto da vida? — Howard arrancou a máscara hipócrita; seu tom era gelado. — O combustível de reserva do bunker acabou. Já que você trouxe o fogo, agora, por favor, dedique a sua vida para aquecer o bunker inteiro.

— Não! Você não pode fazer isso! Eu sou um herói! Ah—!

O grito agudo de Luke atravessou o rádio, seguido por baques abafados de objetos pesados sendo arremessados e o choque de aço contra aço.

Eu me sentei numa sala aquecida a vinte e cinco graus, cortei um pedaço de bife ao ponto e levei à boca, com um sorriso demoníaco nos lábios.

Fechei os olhos e, só de ouvir, consegui reconstruir perfeitamente a cena no fundo do Bunker do Éden naquele instante — porque aquele era o inferno na terra que eu tinha vivido ali na minha vida anterior.

Um grupo de engenheiros do conglomerado, totalmente armados, devia estar segurando Luke na cama de ferro gelada da sala das caldeiras. Eles usariam grossas correntes de aço, da espessura de um polegar, para atravessar sua clavícula com um “tump”, suspendendo-o no ar como um cachorro morto, carne apodrecida.

— Dói! Me matem! Por favor, me matem! — os gritos de Luke ecoaram pelos alto-falantes, tão agudos que até os mercenários comendo carne no salão pararam o que estavam fazendo, o rosto tomado de horror.

— Não deixem que ele morra. Entubem. Acelerem a Chama Seráfica — ordenou Howard, decretando a sentença da Morte.

Com quatro baques surdos de instrumentos afiados perfurando carne, quatro grossos tubos de aço condutores de calor foram enfiados à força nas artérias de Luke, sem anestesia alguma.

A Chama Seráfica foi ativada. Como um parasita ganancioso, ela drenou freneticamente o sangue, a gordura e a força vital de Luke pelos canos. Uma torrente de calor, como ar morno, correu pelos tubos até os níveis superiores do bunker, enquanto Luke, naquela dor lancinante, soltava uivos de gelar o sangue.

— Saúde, velho amigo. — Ergui meu copo e brindei ao alto-falante.

A sensação inebriante de ver o karma explodir e a causa e efeito serem ajustados era mais intoxicante do que qualquer bebida forte no mundo. A dor excruciante de ter meus ossos quebrados e minha medula extraída na vida passada agora recaía sobre esse traidor, sem exceção.

Mas ainda não tinha acabado.

Na frequência de monitoramento, ouvi a conversa abafada de vários guardas de baixa patente.

— Você ouviu? Aquele resto do “Acampamento da Guarda de Ferro” na superfície ainda não congelou até a morte. Sob a liderança do velho líder deles, Brad, e de um novo chefe de guerra chamado Ryan, eles estão vivendo melhor do que nós, soldados comuns aqui no bunker!

— Pois é! Ouvi dizer que esse tal de Ryan botou as mãos em montanhas de rações militares, comida enlatada e até incontáveis casacos de inverno e combustível, sabe-se lá de onde! Eles comem carne assada perto do aquecedor, com vinte graus de calor, todo dia!

Luke, cuja clavícula estava atravessada por correntes e que vinha sendo torturado até ficar esquelético, por acaso ouviu aquela conversa.

Naquela fraqueza e agonia, o nome “Raine” era como um espinho venenoso em brasa, cravando fundo na alma ciumenta e distorcida de Luke.

Como ele podia?!

Eu já tinha tido as veias cortadas e sido usado como uma bateria humana, enquanto aquele maldito Raine, liso, estava aproveitando uma brisa morna e assando carne na superfície?!

O ciúme extremo e a dor levaram Luke a enlouquecer de vez. Com o último fiapo de força, ele soltou um rugido venenoso, demoníaco, na direção de Howard, que inspecionava a sala da caldeira.

— Presidente... Presidente Howard!! Eu sei! Eu sei onde fica esse acampamento!

A voz de Luke saía com dificuldade, como um fole quebrado, carregada de uma fúria insana, suicida:

— Aquele desgraçado chamado Ryan! Ele já foi meu colega de quarto! É um maluco acumulador de recursos! Tem montanhas de equipamento militar no Acampamento da Guarda de Ferro! Um estoque interminável de enlatados premium e combustível! Eu sei a localização deles! Mande homens... mande homens para matar todos! Drenem o sangue dele!!!

Um breve silêncio caiu do outro lado do alto-falante.

Então foi possível ouvir a respiração pesada do Presidente Howard. Para um grupo de magnatas capitalistas que estava quase morrendo de fome e só conseguia manter a temperatura básica do corpo drenando sangue humano, a frase “dezenas de toneladas de suprimentos militares e frutos prontos” era tão devastadora quanto uma bomba nuclear. A ganância devorou instantaneamente a racionalidade da liderança do Bunker Éden.

— Transmita minhas ordens. — A voz de Howard vinha impregnada de um desejo predatório nu e cru. — Reúnam o Esquadrão de Elite da Primeira Companhia Blindada do bunker. Rompam o gelo em três horas. Alvo: Acampamento da Guarda de Ferro, na superfície. Massacrem aquela ovelha gorda.

Clique. A comunicação foi cortada.

No salão, os veteranos que estavam se banqueteando até instantes atrás se puseram de pé. A expressão do Brad, Cara-de-Cicatriz, ficou imediatamente extremamente séria; no único olho dele, relampejou um traço de medo do exército regular do conglomerado.

— Chefe, é a companhia blindada do Conglomerado Éden. Esses bastardos estão tentando roubar as nossas coisas. Precisamos montar defesas e detonar as minas imediatamente, ou... pedir uma retirada estratégica.

— Retirada?

Balancei a cabeça, sentado no sofá, e coloquei casualmente o copo de vinho vazio sobre a mesa com um estalo seco.

Levantei-me, alonguei os punhos — ainda transbordando de um poder explosivo — e uma fenda perigosa já havia se aberto no corredor da minha [Fortaleza Dimensional], abarrotada de mísseis antitanque Javelin e munições termobáricas.

— Depois de comer bife por dezenas de dias, meus ossos estão praticamente enferrujando. — Caminhei até o vidro à prova de balas do acampamento, olhando para o abismo escuro de menos setenta e cinco graus Celsius, com um sorriso assustadoramente sanguinário no rosto.

— Vão abrir o portão e deixar um caminho para os convidados — eu disse baixo.

— Os veículos blindados de alta tecnologia do conglomerado são mercadoria rara. Se o entregador se ofereceu para trazer, por que a gente não assinaria o recebimento?

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