Um desafio da justiça
Na reunião no abrigo, dezenas de refugiados estavam de pé, tremendo, dos dois lados do salão.
Eu me sentava no centro do sofá de couro, com o corpo inteiro submerso nas sombras.
Avery estava bem ao meu lado, a cabeça ligeiramente baixa. O inchaço em suas bochechas havia diminuído, substituído por uma palidez sem sangue.
Sua mão direita repousava casualmente sobre o braço do meu sofá, e as pontas dos dedos às vezes roçavam minha manga, como se quisessem confirmar minha presença.
Julian estava bem à frente do grupo de civis.
Seu braço direito estava preso ao pescoço por uma bandagem, mas em seu rosto havia uma expressão de pena, como se a vitória já estivesse ao seu alcance.
Nos últimos dias, ele vinha reunindo secretamente os refugiados.
Aos olhos desses parasitas idiotas, eu era quem os privava do direito de sobreviver, enquanto Julian era o único Messias capaz de conduzi-los a uma saída.
Mesmo eu protegendo a todos com a minha própria casa e os meus próprios suprimentos, bastava Julian mencionar Avery para a multidão se encher de justa indignação.
Talvez, na visão dele, tivesse conseguido incitar um descontentamento extremo dos civis contra mim dentro do abrigo.
E eu logo seria completamente marginalizado.
Mas nada disso importava.
Desde que eu pudesse concluir as missões do sistema — onde quer que eu esteja, aquele lugar é a zona segura.
— Todos, considerando o ritmo atual de consumo dos recursos, decidi fazer grandes ajustes nas regras do abrigo.
Soltei um sorriso de escárnio e bati minha adaga com força sobre a mesa, produzindo um baque seco e agudo.
— A partir de hoje, aqueles que não tiverem utilidade não receberão mais as cotas centrais de suprimentos. Especialmente você, Avery. Nosso noivado termina aqui. Você não está qualificada para ser minha noiva. Vou me casar com a jovem senhorita da “Gangue do Escorpião Vermelho”, que controla os recursos armamentistas do Distrito Norte.
No instante em que essas palavras foram ditas, o salão explodiu em caos.
Os rosnados baixos e furiosos e os arquejos desesperados dos refugiados se misturaram, e vários membros da equipe de busca que haviam passado por situações de vida ou morte com Avery chegaram até mesmo a pôr a mão no cabo de suas armas.
Um lampejo de êxtase selvagem atravessou os olhos de Julian. Ele esperava por essa oportunidade havia tempo demais.
Ele imediatamente deu um passo à frente, bloqueando Avery, que estava sem expressão, e me encarou diretamente com um ar de severa retidão:
—Cole, você está flertando com a morte! Já que você não tem coração, não nos culpe por sermos injustos. Avery, fique do lado da justiça! Pare de perder tempo com esse jovem mestre egoísta e vilanesco. Acabei de receber informações de que o depósito subterrâneo do campo de golfe contém três caminhões cheios de suprimentos médicos de primeira linha e água não contaminada. Se você trouxer seu pessoal e vier comigo, não precisamos depender desse pedaço de lixo! De qualquer forma, um covarde inútil como Cole, que só se enfurna no abrigo, não vai ter coragem de sair.
Captei com nitidez o lampejo de malícia sinistra no fundo dos olhos de Julian.
Ele não parecia estar tentando salvar ninguém; nesses últimos dias, embora saísse todos os dias com a equipe de exploração, suas roupas não tinham sequer um único amassado.
Aquilo definitivamente não parecia alguém que tivesse estado em combate.
Sentado na cabeceira da mesa, olhei para ele de cima.
—Tudo bem, Julian. —Arranquei a adaga da mesa e a girei entre os dedos.— Já que você tem tanta coragem, então eu também vou participar da operação de busca de amanhã. Vamos ver quem consegue trazer aquele lote de volta.
Julian soltou vários risinhos de escárnio:
—Se o jovem mestre quer ir ao encontro da morte, não poderíamos pedir coisa melhor.
Tarde da noite, na véspera da partida.
Parado em um canto escuro do abrigo, vi Avery sentada sozinha na escadaria.
Ela apertava com força nas mãos um pote de sorvete de baunilha derretido, coberto de manchas; as unhas afundavam tanto no papelão da embalagem que chegavam a tirar sangue.
—Cole... Cole...
Com a voz rouca, ela murmurava meu nome sem parar. As pontas dos dedos, manchadas com o próprio sangue, traçavam de forma neurótica aqueles dois caracteres, pincelada por pincelada, sobre a pele da coxa.
—Cachorrinhos desobedientes... foram feitos para serem trancados.
Ela riu baixinho, e o sorriso pareceu excepcionalmente frenético na escuridão.
—Se eu congelar até despedaçar cada osso do seu corpo... você nunca mais vai conseguir fugir, não é?
De pé nas sombras, observei sua aparência quase doentia, enquanto um brilho gelado cruzava meus olhos.
Aquele campo de golfe era a maior área de concentração de zumbis no estágio inicial do livro original.
Os tais “suprimentos médicos” de Julian não passavam de uma armadilha mortal feita sob medida para mim.
Mas o que ele não sabia era que eu também estava esperando exatamente por essa oportunidade.
A oportunidade de abater o inimigo.
