O cérebro nas sombras
“O Depósito Frigorífico Três cai mais dois graus, e esse lote inteiro de plasma vai pro lixo hoje à noite.”
A guarda noturna ainda estava do lado de fora, xingando o quadro de disjuntores como se aquilo fosse sucata. Eu já estava agachado diante do quadro principal de distribuição, arrancando um relé chamuscado.
Seis meses depois, o pessoal dessa base-cidade ainda achava que eu não servia pra nada além de carregar caixas e fechar planilhas. Ótimo pra mim. Eu não queria que soubessem que, toda vez que a energia caía, era eu quem de fato trazia o sistema de volta.
Deslizei um chip velho de volta na porta. O compressor da refrigeração enfim pegou, com um zumbido baixo. O depósito estava abarrotado de injeções anti-infecção, filtros de água, sacos de sal e caixotes de munição. Se qualquer uma dessas coisas desse errado, alguém estaria morto de manhã.
Duas câmeras ao longo da parede estavam fora. As baterias de backup estavam com quatro barras. A base tinha seis conjuntos de baterias velhas de lítio — quarenta e oito horas no papel, mas com o depósito frigorífico, as bombas de purificação e os holofotes do perímetro rodando ao mesmo tempo, a gente teria trinta e seis na melhor das hipóteses. O diesel tinha caído para duzentos e setenta galões. Com a carga atual do gerador, isso comprava mais oito dias.
Atrás do meu carrinho de ferramentas, apaguei as marcas da fiação que eu tinha deixado e, em seguida, deslizei em silêncio o lote que realmente salvava vidas — as ampolas de injetor — para o meu bolso espacial. O bolso ainda era só uma fenda do tamanho da palma da mão, mas dava para guardar quatro injeções anti-infecção quase vencidas e dois chips sobressalentes da placa principal. O preço veio na hora — as têmporas pulsando, sangue subindo no fundo da garganta.
Engoli aquilo e continuei trabalhando, jogando a embalagem externa arruinada no reciclável como um bom funcionário de manutenção, obediente.
Quando Alice empurrou a porta e entrou, ela trazia duas latas aquecidas. Deixou uma ao meu lado. O joelho dela roçou no meu ombro quando se mexeu — perto demais, como se estivesse deliberadamente tirando o meu espaço para eu me levantar.
— Você pulou o jantar de novo.
— Depois que eu terminar — respondi, sem erguer os olhos.
Mesmo assim, ela fechou a porta do depósito, cortando a visão de fora. Então se abaixou, beliscou meu queixo e me obrigou a encará-la.
— Noah. Você pode comer primeiro. Depois você volta a fingir que é algum santo.
Ela estava perto o bastante para eu sentir cheiro de óleo de arma e fumaça na jaqueta, e aquele calor seco que fica quando o vento noturno bate em você tempo demais. Ela não era como a Serena — rosto mais suave, olhos com calor só o suficiente para as pessoas entenderem errado. Em seis meses, ela vinha cruzando a linha cada vez mais.
Guardando comida quente só pra mim. Me chamando para o escritório dela tarde da noite. Se encostando em mim depois de beber e se recusando a sair. Uma vez, ela me prendeu contra os armários de arquivos, os lábios roçando minha orelha enquanto perguntava — se eu concordasse com a cabeça, ela me guardaria a cama mais quente de toda a base.
Peguei a lata e me afastei da mão dela. — As baterias da base não vão durar oito dias. Você devia estar vigiando o muro norte, não eu.
Alice sustentou meu olhar por dois segundos e então sorriu. Não recuou. Passou o dorso da mão sobre a cicatriz antiga no meu pescoço.
— É exatamente por isso que eu devia estar de olho em você. Você é mais útil do que aquele muro.
Uma pancada pesada acertou alguma coisa do lado de fora.
Não uma vez. Três vezes seguidas.
Aí o alarme uivou. Alguém no corredor gritou:
— Portão do depósito! Infectados atingiram a cerca externa!
Alice puxou a pistola e se moveu. Eu agarrei minha bolsa de ferramentas e fui atrás dela.
A passagem externa estava mergulhada em breu. As luzes de emergência não tinham acendido. Só os fachos acoplados às armas tremeluziam sobre o metal. Três infectados já tinham arrebentado a primeira camada de tela de arame. Atrás deles, mais sete ou oito se amontoavam, empurrando. À noite, eles se moviam mais rápido — ouvir o metal ranger fazia com que avançassem como se tivessem virado feras.
“A trava elétrica da porta lateral pifou!”, alguém gritou.
Lancei um olhar para o esquema elétrico pregado na parede. A trava não tinha pifado. A linha de desvio é que tinha. Mais vinte segundos e eles se espremeriam pela passagem de manutenção até a zona principal de armazenamento.
Não expliquei. Disparei para a sala de equipamentos, encaixei uma bateria de alta densidade que eu tinha escondido ali mais cedo e a conectei ao terminal temporário. Então desci a chave inglesa com força, arrebentando a placa do relé que tinha travado.
No instante em que a corrente voltou, a porta lateral abriu com um clique seco.
Alice latiu a ordem: “Canalizem eles pro gargalo!”
A guarda noturna recuou. Chutei uma fileira inteira de caixas metálicas de armazenamento para fora da prateleira, erguendo uma barreira que forçava uma passagem estreita — só um corpo podia avançar por vez. Quando os infectados entraram, tiveram que formar fila. Os tiros se estabilizaram na hora.
A M4 de Alice estalou duas vezes — ela acertou os dois da frente nos joelhos. Os que vinham atrás tropeçaram, caíram uns sobre os outros e ficaram presos. Isso deu à guarda controle suficiente para manter o ritmo.
Três minutos depois, a passagem fedia a podridão. Cadáveres por toda parte. Cápsulas deflagradas ainda fumegando no chão.
Alguém soltou uma risada ofegante. “O sistema voltou sozinho. Porra, demos sorte esta noite.”
Arranquei a bateria temporária e a enfiei de volta na parte mais funda da minha bolsa de ferramentas. “É. Já estava na hora de o sistema de plantão acertar alguma coisa.”
Ninguém desconfiou de mim. Ou talvez preferissem acreditar que tinha sido sorte.
Enquanto arrastávamos os corpos para fora, minhas mãos pararam sobre um cadáver na borda externa. Jaqueta tática. Não era dos nossos. O peito estava dilacerado por mordidas, e na cintura pendia uma plaqueta metálica de coleta. O símbolo de uma lâmpada, riscado por uma linha diagonal.
Blacklight.
Virei a plaqueta. Havia uma sequência de números e a abreviação de uma coordenada no verso — como uma identificação de um batedor de campo externo.
Alice se aproximou ao meu lado, franzindo a testa. “Um forasteiro?”
“Parece um cara de reconhecimento.” Entreguei a plaqueta a ela.
Ela ia falar alguma coisa quando um motor rugiu no portão da frente. Holofotes varreram o muro e iluminaram três caminhões blindados cobertos com tinta retardante de chamas. Um emblema em chamas estava estampado sobre os capôs.
A voz do guarda do portão estalou no rádio. “Alice, é um esquadrão da Flame Cleansing. Dizem que trouxeram suprimentos e apoio.”
Alice fechou a mão em torno da plaqueta de coleta. Algo mudou em seus olhos. Ela marchou em direção ao portão da frente. Quando cheguei à beira do pátio, a porta do primeiro caminhão já estava se abrindo.
Um homem alto saltou para o chão. O calor ainda emanava de suas luvas. Ele ergueu os olhos, viu Alice e sorriu ao abrir os braços.
“Ainda viva, Ali.”
Alice realmente foi até ele.
Quando Jack a abraçou, ela não se esquivou — mas antes seus olhos passaram por cima do ombro dele, direto para mim, como se estivesse checando se eu mostraria alguma reação.
No segundo seguinte, Jack seguiu a linha do olhar dela e também olhou para mim.
“Então esse é o garoto do armazém que você mencionou na sua carta?” Ele soltou Alice. Estava sorrindo, mas sua voz era fria. “Você deixou ele perto demais.”
