Uma chama mais brilhante
No segundo dia de Jack na base, ele transformou o cruzamento ao sul numa parede de fogo.
Eu estava debaixo da torre de vigia e o vi estalar o braço. Um jorro rubro de chamas chicoteou o ar e engoliu uma dúzia de infectados que se amontoavam na cerca.
Uma onda de comemoração explodiu ao longo da muralha. Até alguns guardas que vinham reclamando da falta de combustível estavam gritando o nome dele.
Fogo fica bonito à noite. Como se você estivesse enfiando mais um fôlego dentro de uma base que está prestes a morrer.
Mas tudo o que eu via era o próximo problema.
“A assinatura térmica tá alta demais.”
Abaixeis os binóculos e disse para Alice: “Corredores noturnos vão ser atraídos de quilômetros de distância. A partir de amanhã à noite, as patrulhas do anel externo cortam o barulho. Os geradores, só manutenção a frio. E não deixa ele—”
Jack estava bem ali. Ouviu tudo e riu.
Ele ergueu a mão. A última linguinha de fogo dançou ao vento na palma dele. “Então qual é o seu plano? Se esconder no escuro e esperar eles roerem o portão?”
“Meu plano é parar de transformar a cidade inteira num farol”, eu disse.
“Só covardes têm medo da luz.” Ele se virou para o pessoal na muralha. “A gente precisa das ruas limpas, não de uma planilha de depósito.”
Alguém riu.
Nem todo mundo. Mas gente o bastante.
O caminhão de suprimentos que Jack trouxe tinha combustível, munição — e o tipo de coisa que deixava as pessoas chapadas mais rápido do que qualquer outra: poder, um poder que elas podiam ver.
Comparado a isso, o meu jeito — minimizar perdas, reduzir o barulho, tapar um buraco roubando de outro — era quieto demais.
Tão quieto que ninguém queria ouvir quando o sangue estava quente.
E Jack ainda tinha outra camada. Amigo de infância da Alice. Tinham até estudado na mesma academia militar. Isso facilitava tudo: quem confiava na Alice naturalmente confiava ainda mais no Jack.
Pra piorar, naquela tarde rolou um “mal-entendido” no pátio de armazenamento.
Uma caixa de chips sobressalentes sumiu da prateleira de conferência — e depois foi “encontrada” debaixo da minha cama.
Eram chips que eu tinha mantido a salvo na noite anterior usando meu bolso espacial. Eu planejava só tirar quando a câmara fria realmente desabasse.
Jack só precisou de uma frase — “o cara do depósito tá escondendo peças” — e, de repente, era eu quem precisava ser interrogado.
Eu podia explicar por que os chips não tinham passado pelo registro normal. Mas, no segundo em que eu abrisse a boca, minha habilidade viria à tona junto.
Então eu não disse nada.
Jack se escorou na porta do depósito, girando um isqueiro entre os dedos, sorrindo como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo. “Tá vendo? Não falei que tinha alguma coisa errada. Pra mim, tanto faz se ele roubou ou não. O que importa é que, quando for pra valer, essa base não pode colocar nossas vidas nas mãos de alguém que esconde coisas.”
Alice não me condenou na hora. Só pegou os chips, com a voz dura. “Noah. Da próxima vez, me reporte primeiro.”
Ela não olhou pra mim.
Aquela foi a resposta dela.
Naquela noite, Jack ganhou o comando em campo.
Ele decidiu tirar o comboio no dia seguinte pra “retomar” a velha usina. Lógica simples: eletricidade significava vida.
Eu disse que as linhas estavam podres, que o tanque de combustível reserva da usina podia ter evaporado, e que a gente tinha que mandar duas pessoas na frente, leves, pra reconhecer — e depois cortar toda fonte de calor alto na área.
Jack bateu os esquemas de manutenção em cima da mesa.
“Quando você terminar de reconhecer, a gente vai estar sem energia e sem água potável.” Ele me encarou. “Você é ótimo pra consertar prateleira. Deixa a usina com quem realmente se mexe.”
Alice ficou do lado dele.
Não discuti de novo. Peguei minha planilha de perdas e voltei ao depósito para inventariar o que ainda tínhamos — baterias, chips de purificação e os remédios na câmara fria.
Eu sabia que aquilo ia matar gente. A única pergunta era quantos.
A resposta veio mais rápido do que eu esperava.
Ao anoitecer, quando o primeiro veículo foi rebocado de volta, a dianteira já estava queimada, preta.
Dois homens tinham sumido da carroceria. Os tambores de combustível tinham baixado para a metade. O rosto dos pilotos estava cinzento de fuligem. Um sujeito desceu e vomitou na hora.
“Retorno de chama na linha”, um guarda arranhou, rouco. “O Jack usou fogo pra cortar a porta. O calor incendiou a névoa de combustível. E mais alguma coisa foi puxada pra dentro… não era infectado normal. Eles correm que nem cachorro. Rápido.”
O segundo veículo estava pior. O pneu do lado direito tinha sido mastigado até virar pedaços. Pra conseguir se soltar, eles despejaram quatro barris de diesel. O eixo principal do gerador que trouxeram de volta tinha entortado com a queda — não dava pra montar de jeito nenhum.
A parte mais mortal foi o chip de purificação perdendo energia. O sistema principal de filtragem caiu para o modo de emergência. A clínica começou a racionar eletricidade na mesma hora. A temperatura da câmara fria disparou sem parar. Dois pacientes críticos pioraram e entraram numa febre alta da noite para o dia.
A base finalmente ficou em silêncio.
Pela primeira vez, todo mundo entendeu: perder energia não era “inconveniente”. Ia cortando as pessoas aos pedaços.
Não perdi tempo ouvindo o Jack se explicar. Peguei um quadro branco e escrevi tudo — perdas de veículos, déficit de combustível, watt-horas restantes.
As poucas pessoas no depósito que realmente trabalhavam ficaram por perto, o rosto mais pálido do que os mortos.
“Por quanto tempo dá pra segurar a água?”, um deles — Evan — me perguntou.
“Vinte e seis horas. Isso se a cozinha e a torre de vigia cortarem metade das luzes hoje à noite”, eu disse.
“E a câmara fria?”
“Oito horas.”
Evan ficou em silêncio por alguns segundos e então baixou a voz. “Você precisa voltar e trancar o depósito principal. Você é o único que sabe como manter esses pedaços quebrados funcionando.”
Uma mulher da distribuição de energia também se meteu. “Noah, não leva pro lado pessoal. Não briga com eles por pirraça. Vai morrer gente.”
Tampei o marcador. “Eu não estou brigando por pirraça. Estou esperando alguém admitir que esse problema não se resolve com fogo.”
Depois da meia-noite, enfim ficou quieto do lado de fora do bloco de armazenamento.
Eu não dormi. Eu estava atrás da parede, lá embaixo num velho poço de tubulações, conferindo a fiação.
Foi ali que eu ouvi vozes vindas do escritório da Alice.
Primeiro, a do Jack.
“…A Fortaleza Blacklight está oferecendo baterias de alta potência, chips de purificação e acesso médico na camada de quarentena.”
Depois a Alice, quase num sussurro. “Por que eles querem ele?”
“Energia em troca de uma pessoa. Não faça perguntas que não importam.” Jack fez uma pausa; o tom dele era meio persuasão, meio pressão. “Um cara da logística que não é de combate, em troca de um mês de cota pra base inteira. Você sabe se esse acordo vale a pena.”
Silêncio do outro lado da parede por alguns segundos.
Prendi a respiração, as unhas cravando na palma da mão.
Quando a Alice finalmente falou, a voz dela estava áspera. “…Se a gente mandar ele, a Blacklight tem que garantir que as baterias sejam liberadas no momento em que a entrega estiver concluída.”
Jack riu.
“Claro. A quarentena vai ficar com ele. Um homem, pra uma base continuar viva. Um consertador de prateleira não é precificado tão alto todo dia.”
Aos poucos, descravei a mão. Minha palma estava lisa de sangue.
Eles não estavam discutindo um plano.
Já tinham decidido quanto eu valia.
