Capítulo 1

VERONICA

Caminhei até a porta, me sentindo nervosa pra caralho. O corredor do lado de fora da minha sala já estava lotado, como sempre, com os alunos reunidos em volta das fileiras de armários de metal azuis que se alinhavam pelo longo corredor.

Eu, no entanto, tinha medo de sair ali, sabendo o que aconteceria se tentasse chegar ao meu armário atravessando a multidão.

Eu costumava chegar mais cedo à escola para evitar essa situação, mas hoje me atrasei.

Metade de mim queria fugir, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Se eu não conseguisse chegar à aula, a secretaria da escola ligaria para o meu pai e avisaria que eu tinha faltado de novo.

E as punições do meu pai eram como uma amostra do inferno na Terra. Considerando minhas duas opções, eu preferia enfrentar a humilhação dos meus colegas de escola a apanhar do meu pai.

Fechei os olhos e inspirei fundo. “Aguenta firme, Veronica, não é a primeira vez...”

Apertei minha bolsa com força contra o peito e respirei fundo antes de entrar no meio da multidão. Os alunos esbarravam em mim enquanto falavam alto sobre aulas, treino esportivo e as fofocas mais recentes se espalhando pelo campus.

Eu estava tão concentrada em tentar passar em silêncio pelo corredor que não vi o pé que tinha sido esticado de propósito na minha frente.

Como resultado, meu sapato bateu nele.

Tropecei na mesma hora, meu corpo sendo lançado para a frente antes mesmo que eu pudesse reagir. Caí de cara no piso frio de cerâmica com um baque alto que ecoou pelo corredor.

Por um breve segundo, o corredor ficou em silêncio.

Então— o riso explodiu ao meu redor.

Os alunos caíram na gargalhada. Alguns puxaram o celular na mesma hora, ansiosos para gravar qualquer humilhação que estivesse acontecendo.

Permaneci no chão, me recusando a sair do lugar.

Eu odiava essa merda de vida.

Hoje era meu aniversário de dezoito anos, mas eu ainda tinha que passar por isso.

“Você não vai sair daí, baleia?” David, meu pior atormentador, zombou.

Ele ficou em pé sobre mim, usando sua jaqueta do time como se fosse o dono do lugar.

“Como você espera que ela se mexa?”, Anna debochou, jogando o cabelo para trás de forma dramática. “O peso dela é demais para ela aguentar. Pobre Veronica.”

“Quando ela caiu, a estrutura da escola inteira tremeu”, Michael acrescentou em voz alta, provocando outra onda de risadas dos alunos ao redor.

Os três eram meus nêmesis.

David era um dos jogadores mais populares do time de futebol americano, Anna era uma das líderes de torcida, e Michael andava atrás deles como um cachorro de guarda fiel.

Eu odiava os três com todas as minhas forças, mas não podia enfrentá-los, já que eles mandavam na escola.

“O que é essa roupa dela?”

“Será que ela ao menos tomou banho hoje de manhã?”

“As roupas dela estão tão sujas! Como é que ela consegue vestir isso?!”

“Eca. Eu me matava se fosse tão suja e gorda quanto ela!” — Essas eram palavras às quais eu já estava acostumada. Palavras que eu ouvia todos os dias.

Não só dos meus atormentadores, mas também da minha família.

Doía toda vez que eu ouvia aquilo. Mas não havia nada que eu pudesse fazer a respeito. Anos de bullying e abuso tinham, aos poucos, matado qualquer resquício de luta dentro de mim.

— Guardei isso só pra você — ouvi a voz de David.

Antes que eu pudesse perceber, um líquido gelado espirrou sobre mim.

O cheiro veio na hora. Era azedo e nojento, revirando meu estômago com violência.

O líquido encharcou meu cabelo e minhas roupas, escorrendo pelo meu rosto até o chão sob mim.

As risadas explodiram de novo, ainda mais altas dessa vez.

Eu ouvia o clique dos obturadores e via os flashes das câmeras dos celulares enquanto os alunos gravavam o momento, ansiosos.

Escondi o rosto o máximo que consegui, mas não adiantou muita coisa.

O sinal tocou de repente, ecoando alto pelo corredor e anunciando o começo da primeira aula.

Um por um, os alunos começaram a sair do corredor, correndo para as salas antes de levarem falta por atraso.

— Sua puta do caralho — David resmungou antes de me chutar na costela.

Uma fisgada de dor atravessou minhas costelas e eu gemi baixinho, ainda deitada no chão, na sujeira.

Não havia tempo para trocar de roupa e vestir as reservas que eu deixava no armário. Ignorando a dor na lateral, fui me arrastando devagar em direção à sala.

A professora já estava lá dentro quando eu cheguei.

Depois de me lançar apenas um olhar rápido, cheio de nojo, ela se virou de volta para o quadro branco e continuou a dar a aula como se nada de estranho tivesse acontecido.

Eu me arrastei até minha cadeira, lá no fundo da sala. Meu lugar de sempre.

— A gente é obrigada a ter aula com ela? Ela fede — Becky resmungou alto, da primeira fileira, onde estava sentada com seu grupinho de amigas.

Houve murmúrios de aprovação pelo restante da turma.

Becky era a líder das cheerleaders e uma das garotas mais populares da escola. O pai dela era um empresário rico e ocupava um bom cargo dentro do governo, além de doar dinheiro para os programas esportivos da escola, principalmente para o time de futebol americano.

Todo mundo ouvia o que ela dizia, e era isso que eu mais temia.

Rezei em silêncio para que a professora não desse ouvidos à Becky e não me mandasse sair por causa do cheiro ofensivo que vinha de mim.

— Deixem ela — disse Damon com calma, do outro lado da sala, e a classe ficou imediatamente em silêncio.

Eu olhei para ele e nossos olhos se encontraram por um instante; antes que eu pudesse agradecê-lo, ele desviou o olhar de novo.

Damon era o astro do futebol americano da escola.

Embora viesse de uma família rica e tivesse tudo com que a maioria dos alunos sonhava, ele não se comportava como os outros do círculo social dele.

A única pessoa que age com gentileza comigo.

Depois que ele me salvou dos valentões aquela vez atrás do ginásio, eu também me apaixonei por ele.

E eu sempre quis que ele soubesse.

Eu sabia que ele nunca corresponderia aos meus sentimentos. Não quando tinha alguém tão bonita quanto Becky.

Mas aquele era meu último ano no ensino médio. E, se eu nunca contasse a ele como eu me sentia, nunca teria outra chance.

Mal consegui prestar atenção na aula hoje. Minha mente estava totalmente ocupada com Damon e com a forma como eu diria a ele o que sentia.

O dia inteiro, não consegui ficar a sós com ele. Ele estava sempre cercado pelos companheiros de time ou amigos, rindo e falando sobre o treino de futebol mais tarde naquela tarde.

Eu me mantive afastada. Mas, depois que as aulas finalmente terminaram, encontrei minha chance.

A maioria dos alunos já tinha saído do campus, e o corredor perto dos vestiários estava bem mais silencioso do que o normal.

O time de futebol ia treinar em breve.

Entrei no vestiário com cuidado; Damon era o único lá.

Ele acabara de terminar de se trocar e estava vestindo a camisa.

Congelei na porta por um momento, o coração disparado enquanto eu observava seu corpo atlético, resultado de anos de treino e prática intensos.

— Veronica? — A voz repentina dele me trouxe de volta à realidade.

— Damon... — eu ofeguei.

— Você... precisa de alguma coisa?

— Sim. E-eu... — As palavras entalaram na minha garganta.

— Veronica? — ele perguntou de novo, com gentileza.

A bondade na voz dele me deu a coragem de que eu precisava.

— E-eu gosto de você — soltei, sem pensar.

Damon me encarou por um instante. Por uma fração de segundo, achei que vi algo amolecer em seus olhos.

— Você... gosta de mim? — ele perguntou devagar.

— Sim! — respondi, sem fôlego. Meu coração começou a bater mais rápido, uma esperança florescendo dolorosamente dentro do meu peito. — Você é uma pessoa boa e é o único que já foi gentil comigo e...

Os lábios dele se curvaram num sorriso. E então, de repente, ele começou a rir, me interrompendo.

Eu congelei, piscando.

— T-tem alguma coisa errada? — perguntei, fraca, com a voz mal acima de um sussurro.

Mas ele só riu mais alto, segurando a barriga.

— Eu nunca poderia gostar de alguém tão nojenta quanto você! — disse, por fim, limpando o canto do olho. — Você é tão feia, é gorda e, sinceramente... só de olhar pra você já me dá vontade de vomitar.

As palavras me atingiram como um soco no estômago. Minha mente ficou completamente em branco... Não era isso que eu esperava.

— Você achou que eu te salvei porque eu gostava de você? — A voz dele agora pingava deboche. — Aquele dia foi uma puta cagada. Fiquei enjoado por dias depois!

Eu encarei ele, em choque. O Damon que eu achava que conhecia — o garoto gentil que uma vez me ajudou quando ninguém mais ajudaria — tinha desaparecido completamente.

No lugar dele, estava alguém frio e cruel, alguém que me olhava como se eu não fosse nada além de lixo.

— Você achou mesmo que eu ia gostar de você de volta? — ele disse, balançando a cabeça e rindo.

Mais risadas ecoaram de repente pelo vestiário.

E meu coração despencou.

Eu me virei devagar, só para ver os amigos dele entrando pela segunda porta do vestiário.

— Você gravou isso? — Damon perguntou.

— Claro que gravei — David disse, orgulhoso, erguendo o celular. — Cada segundo.

Minha cabeça girou. Eles não tinham ido embora mais cedo? Por que estavam aqui?

— Eu tinha a sensação de que você ia fazer uma coisa tão idiota assim — disse David.

— A culpa é dele por ser legal com ela — disse Becky secamente, cruzando os braços sobre o peito.

— Belo plano, Becky — David riu. — Isso ficou ainda melhor do que eu imaginei.

— Os alunos vão surtar com esse vídeo — acrescentou Anna, animada, atrás deles.

— Parece que o cérebro defeituoso dela ainda não entendeu o que está acontecendo — Anna debochou.

Becky se aproximou de mim devagar, inclinando levemente a cabeça. — Deixa eu simplificar isso bem direitinho para os seus neurônios patéticos... Damon não gosta de você.

Os lábios dela se curvaram em desgosto. — Ele sente nojo de você.

Balancei a cabeça fracamente.

— N-Não. Não... não... isso não podia ser real.

Por que eu acreditei que Damon era diferente?

Por que pensei que ele era uma pessoa boa, quando passava todos os dias com gente como eles?

— Sua vadia idiota. — Antes que eu pudesse reagir, David agarrou um punhado do meu cabelo e puxou minha cabeça para trás.

Uma dor aguda atravessou meu couro cabeludo quando ele bateu minha cabeça contra o armário de metal atrás de mim, com um estrondo alto.

Minha visão embaçou na mesma hora.

— Não vamos esquecer o presente de aniversário dela — ouvi a voz de Damon antes que algo frio e pesado se espatifasse no meu rosto.

O cheiro veio na hora. Um bolo estragado.

O vestiário explodiu em gargalhadas outra vez. Os celulares piscavam sem parar enquanto gravavam tudo.

— Feliz aniversário, baleia! — alguém gritou.

Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia pensar. Às cegas, corri para fora do vestiário e para o corredor. Desesperada para me afastar de tudo aquilo.

Ainda havia alunos espalhados pelo prédio, esperando o treino esportivo ou uma carona para casa. No instante em que me viram, as risadas começaram.

Celulares apareceram por toda parte. Alguém já devia ter postado o vídeo.

— Ei, não é aquela garota do vídeo?

— É ela!

— Cara, ela realmente achou que o Damon gostava dela!

— Puta merda, olha a cara dela!

Corri mais rápido, com a visão borrada pelas lágrimas. Meu peito doía tanto que eu mal conseguia respirar.

Eu queria desaparecer. Queria que o chão se abrisse e me engolisse inteira.

Qualquer coisa seria melhor do que passar por aquele momento. A humilhação parecia não ter fim.

Corri sem rumo por tudo e, por fim, tropecei em um armário de depósito estreito perto da sala do zelador e bati a porta atrás de mim.

A escuridão me envolveu instantaneamente. O barulho do corredor foi desaparecendo, e minhas pernas finalmente cederam.

Escorreguei pela parede, até o chão, com as costas batendo na superfície gelada, enquanto meu corpo inteiro tremia.

O cheiro de bolo estragado ainda estava grudado nas minhas roupas.

Lágrimas escorriam incontrolavelmente pelo meu rosto. Enterrei o rosto nos braços e chorei... chorei até minha garganta doer e meu peito arder.

Ninguém me amava. Talvez eles estivessem certos, porque alguém como eu não merecia ser amado de jeito nenhum...

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