Capítulo 2

VERONICA

Punhos batiam na porta, e o riso deles vinha do lado de fora, ecoando pelas paredes. Tapei os ouvidos com as mãos, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. “Por favor, por favor, Deus. Me ajuda.” Continuei rezando por dentro.

Eu não me atrevia a sair do lugar. Não conseguia.

Minhas roupas fediam, e eu estava coberta de sujeira. O espaço pequeno também estava começando a cheirar mal, embrulhando meu estômago. Mas eu ainda preferia aquilo a sair dali. Tinha que esperar até a escola ficar vazia. Se eu desse de cara com qualquer outra pessoa da escola, talvez não sobrevivesse dessa vez.

Não sei quanto tempo passou, mas, em algum momento, minhas lágrimas secaram. Encostei a cabeça na parede, revivendo os tormentos da minha vida.

Damon se mostrou tão vil quanto o resto dos amigos dele. Foi idiotice da minha parte sequer considerá-lo uma boa pessoa quando todos os amigos dele eram tão cruéis.

Eu queria chorar de novo, mas não saía mais lágrima nenhuma; em vez disso, meus olhos ardiam. Estava tão ruim que, aos poucos, minhas pálpebras ficaram pesadas, e eu nem percebi quando adormeci.

Acordei de um pesadelo em que me afogava em bolos podres. Meu coração disparou enquanto eu me sentava de repente.

Pisqei, confusa no começo, mas devagar percebi que estava no armário. Então a realidade foi se infiltrando, fazendo meu coração doer. Eu queria que tudo isso também fosse um pesadelo...

Felizmente, não havia nenhum som vindo de fora. Esperei mais um momento antes de sair com cautela.

No entanto, no instante em que saí, o pânico me atingiu. Estava escuro lá fora!

Quanto tempo eu fiquei naquele armário? Como consegui dormir por tanto tempo? Eu tinha esquecido completamente de preparar a comida do meu pai. Precisava voltar para casa o mais rápido possível!

Corri para o portão de saída, mas ele já estava trancado. Por sorte, a cerca não era tão alta, mas escalá-la com o meu peso ainda seria duas vezes mais difícil.

Mesmo assim, não havia tempo a perder. Eu precisava voltar para casa imediatamente. Só podia torcer para que papai tivesse ficado fora até mais tarde hoje. Isso me daria tempo suficiente para preparar a comida dele antes que voltasse.

Caso contrário, ia ser... “Não! Não! Não pensa besteira!”, lembrei a mim mesma. “Vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem.”

Agarrei o topo da cerca e me impulsionei para cima. Quando coloquei uma perna na borda, ela rangeu sob o meu peso, e eu rezei com todas as forças para que não cedesse. Eu definitivamente não precisava de mais problemas.

Joguei uma perna para o outro lado e, segurando firme, passei a outra também. Minha calça ficou presa na ponta e, enquanto eu tentava me soltar, ela rasgou e cortou minha perna.

— Agh! — soltei um gritinho quando caí com tudo no chão, ralando o cotovelo no processo. Eu não só estava suja e fedendo, como agora também estava machucada...

Me arrastei para casa pela noite. Eu estava nervosa pra caralho, porque sabia o que aquilo significava.

Deus, como eu pude ser tão burra?!

A luz da nossa varanda da frente estava acesa e não vinha som nenhum de dentro. Papai ainda devia estar fora. Normalmente, havia caos dentro de casa sempre que ele estava por perto.

A porta da frente estava aberta, e eu entrei. Mamãe e Ethan estavam sentados juntos quando cheguei.

— V-Vero... — Ethan chamou. Era difícil para ele falar por causa da sua deformidade.

Nascido aleijado e com um problema na fala, ele nunca recebeu nem tratamentos básicos nem terapia da fala. Papai desviou os olhos dele assim que percebeu que ele não podia ser o filho que queria. A atitude dele com mamãe também mudou. Ela era uma sombra do que já tinha sido, mas ainda amava papai e trabalhava duro para pagar as dívidas dele...

— O que aconteceu com você? — mamãe perguntou, me trazendo de volta à realidade. Os olhos dela iam de mim para a porta.

— Por que você chegou tarde em casa? Onde você foi? — minha meia-irmã mais velha, Elena, latiu, aparecendo de repente na escada.

— Eu não fui a lugar nenhum — murmurei.

— O que há de errado com você?! A gente teria um dia tranquilo se você tivesse chegado cedo em casa. — Ela estava com raiva. De mim, claro. Não se importava com a minha aparência nem com o ferimento que eu tinha.

— Onde diabos você estava? — ouvi a voz do meu pai, e congelei. Ele não devia ter voltado para casa!

Antes que eu pudesse responder, ele agarrou meu cabelo e me arrastou mais para dentro da casa.

— Eu não fui a lugar nenhum! — gritei, mas ele só apertou mais forte.

— Isso é mentira. Ela tentou seduzir um garoto na escola e foi embora com outro! — ouvi a voz de Elena.

— Não é verdade! — solucei, mas papai não deu a mínima.

Ele bateu meu rosto contra a parede repetidas vezes, até que tudo dentro de mim começou a ficar dormente.

— Eu não vou criar uma porra de uma vadia — ele cuspiu, soltando meu cabelo.

Ouvi o som da fivela dele se abrindo...

O primeiro estalo do cinto nas minhas costas foi como o inferno; quando me lembrei do que tinha acontecido na escola, a dor pareceu ainda pior. Quando o papai terminou o que ele chamava de “disciplina”, minhas costas ardiam como fogo.

“Volta para o buraco de onde você veio. Não quero você dentro de casa!”, ele rosnou.

“Para onde você quer que ela vá a essa hora?”, a voz da mamãe chegou aos meus ouvidos.

“Eu não me importo”, ele sibilou. “Ela pode ir pro inferno! Eu não dou a mínima para uma vadia!”

Eu estava soluçando no chão, destruída, em pedaços, e Elena só apareceu para jogar mais lenha na fogueira...

“Bem feito. Quem você pensa que é? Confessar seus sentimentos para o Damon. Quem é você para sequer sentir alguma coisa por alguém? Eu só queria que o papai tivesse te matado!”, ela zombou antes de me deixar ali.

“V-Vivi”, Ethan chamou, mas eu não estava ouvindo.

“Veronica”, minha mãe também tentou me chamar, mas com o último resto de força que ainda havia em mim, eu saí correndo de casa.

Enquanto corria, só conseguia pensar em como a minha vida era um inferno vivo.

“Por que o Senhor teve que me trazer a este mundo para sofrer? O que foi que eu fiz para fazer todo mundo me odiar tanto? Por que eu não sou perfeita como as outras pessoas?”

“Foda-se meu pai! Foda-se Elena! Foda-se a escola! Foda-se todo mundo que já zombou de mim!”, xinguei alto enquanto continuava correndo. Escalei a cerca da escola do mesmo jeito que tinha feito antes. Eu queria me esconder no armário de novo. Aquele era o melhor lugar para mim!

Corri escada acima, mas, no meio da corrida, pisei em falso. Tentei com todas as forças impedir a queda, mas falhei...

Minha cabeça bateu em alguma coisa dura, e meus movimentos foram ficando mais fracos.

Minha visão ficou turva. Eu conseguia ouvir gritos, mas eles estavam se apagando. O clarão da luz... estava escurecendo.

O rosto impotente da mamãe passou diante dos meus olhos. Todo o esforço dela. Toda a impotência.

O rosto furioso do papai tomou o lugar do dela... Se eu sobrevivesse àquilo, ele diria que a culpa era minha.

Diria que eu o envergonhei de novo.

O dia de ontem flutuou dentro de mim. Sobre reunir coragem. Sobre dizer “eu gosto de você”.

Eu sempre esperei. Esperei por gentileza. Esperei que alguém me escolhesse. Esperei que as coisas mudassem.

Mas elas nunca mudaram...

Meu peito doía tanto que achei que fosse explodir. Tudo escurecia diante dos meus olhos.

Tentei me mexer, mas não consegui.

Eu queria poder fazer tudo de novo. Se pudesse, eu não imploraria. Não teria esperança. Não esperaria por ninguém.

Eu seria forte. Nunca deixaria ninguém me empurrar desse jeito.

Se ao menos eu tivesse outra chance, não viveria como Veronica.

A escuridão se fechou ao meu redor. A dor foi desaparecendo, se afastando de mim, e o mundo ficou em silêncio...


Ponto de vista em terceira pessoa

(ABYSS) 2º MAIOR QUARTEL-GENERAL, ILHA BLUE HEAVEN – 21h30

“Todo mundo está seguro?”, Hunter perguntou enquanto passava por entre as pessoas que haviam sido retiradas do prédio.

“Savanna”, Lena chorou, em pânico. “Savanna não conseguiu sair.”

Hunter não podia acreditar no que estava ouvindo. Nada poderia ter sobrevivido àquela explosão. Se Savanna não tinha saído com os outros, então não havia como ela ter sobrevivido. E aquilo era um problema enorme.

Savanna era a melhor que eles tinham na Abyss.

“Encontramos um corpo!”, um dos homens gritou, e Hunter correu naquela direção. Lena veio logo atrás, querendo ver se o corpo realmente pertencia à sua melhor amiga.

O corpo estava queimado além de qualquer reconhecimento. Hunter esperava que fosse apenas outra pessoa e que Savanna tivesse conseguido sair a tempo.

Mas, quando Lena começou a soluçar de novo, a esperança dele despencou. “O colar...” Lena se aproximou mais, tirando-o do pescoço.

Ele reconheceu muito bem o colar. Pertencia a Savanna. Desde que a conhecia, ela sempre o usava no pescoço. Nunca o tirava.

“Minha amiga está morta!” Lena caiu de joelhos, tomada pelo luto, enquanto os outros observavam.

“Eu preciso ligar para o Mestre”, Hunter murmurou, afastando-se da cena.

O Mestre era o chefe da Abyss e estava fora quando a explosão aconteceu.

Ele precisava saber que Savanna estava morta. Ficaria furioso, sim, mas precisava saber.

Aquilo ia ser um problema enorme para a organização deles...


CLÍNICA DO CAMPUS, NORVALE (UMA PEQUENA CIDADE DO INTERIOR DE BELVAR) – 21h45...

O corpo imóvel de Veronica permanecia sobre a cama. A mãe dela ainda estava em choque, e o pai estava ausente.

Ela não esperava que Veronica sangrasse tanto e desmaiasse. As lágrimas não vinham, não importava por quanto tempo ela encarasse o cadáver da filha.

A culpa era dela. Devia ter feito alguma coisa, mas ficou vendo Veronica sofrer. E agora, ela as havia deixado para sempre.

Ethan soluçava ao lado do corpo inconsciente da irmã. Ele sabia o que tinha acontecido. Sabia que ela tinha partido e que nunca mais a veria.

Desejava ter impedido aquilo. Desejava poder fazer alguma coisa.

“M-Mãe...” Clara se virou ao ouvir o filho chamá-la. Mas ficou ainda mais surpresa quando viu Veronica se sentando na cama, com um olhar estranho nos olhos...

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