Capítulo 4
SAVANNA (VERONICA)
“Você consegue andar?” A voz da mãe de Veronica me fez erguer os olhos quando fiquei de pé. Embora o corpo de Veronica não fosse algo com que eu estivesse acostumada, ainda era utilizável.
“Sim.” Murmurei devagar.
Felizmente, eu já tinha recebido alta. Mal podia esperar para sair deste lugar. Eu tinha muito trabalho a fazer.
“Ótimo.” Os lábios dela se curvaram suavemente.
Nas memórias de Veronica, a mãe era a própria personificação da fragilidade. No entanto, ela nunca odiou a mãe, porque havia noites em que ela se sentava ao lado de sua cama e pedia perdão por sua suposta fraqueza e vulnerabilidade diante do pai de Veronica.
Veronica fingia estar dormindo enquanto o travesseiro ficava encharcado de lágrimas.
De repente, algo cru e doloroso apertou minha alma — uma emoção com a qual eu nunca estivera familiarizada... arrependimento.
Veronica devia estar muito acostumada a essa emoção em particular. Ela nunca disse isso em voz alta, mas sempre sonhou em ser independente e tirar a mãe e o irmão daquele inferno para viverem felizes em algum outro lugar.
Ela deve ter se arrependido profundamente disso no momento da morte, e ainda assim não pôde fazer nada.
Engoli em seco, cerrando os punhos ao lado do corpo. ‘Não se preocupe, mãe. Talvez Veronica não tenha conseguido, mas eu vou garantir que o sonho dela se torne realidade.’
‘Mãe.’ A palavra parecia extremamente estranha na minha língua, mas havia um calor nela — algo que eu nunca tinha sentido antes.
“V-vero...” Ethan falou baixinho, aproximando-se de mim. “V-você... n-não vai nos de-deixar de novo.”
Embora as palavras fossem simples, o tom dele não conseguia esconder o medo contido nelas. A impotência diante da crueldade da perda.
Mais uma vez, algo que eu nunca tinha conhecido e, ainda assim, estranhamente parecia tão acolhedor.
Então ele segurou minha mão e acrescentou: “N-na próxima vez... eu vou te p-proteger.”
Me proteger? — encarei o garotinho.
Esse menino frágil, com as palavras trêmulas, queria me proteger?
Por mais ridículo que isso parecesse, não consegui evitar sentir um calor estranho dentro de mim.
Puxei-o para os meus braços. “Eu prometo que não vou embora de novo”, falei, pressionando de leve minha testa contra a dele.
E, por algum motivo, eu estava falando sério.
“Vamos, depressa.” Ela pegou a bolsa sobre a mesa. “Precisamos voltar para casa antes de seu pai chegar.”
O medo silencioso em seu tom deixava o significado bem claro. E isso despertou algumas memórias — memórias muito dolorosas —, o que só endureceu ainda mais o meu coração.
“Mãe, você e Ethan vão na frente. Eu alcanço vocês logo.” Embora a palavra “mãe” ainda fosse nova e estranha demais para mim, eu estava tentando me acostumar com ela.
“Aonde você vai?”
“Ao banheiro.” E me virei às pressas, sem deixar que ela percebesse o frio repuxar em meus lábios.
Era hora de vingança, não era? Então por que não começar de casa? ...
Naquela noite, voltamos para casa sem mais drama. E mamãe foi direto para a cozinha, preparando o jantar como se tentasse costurar nosso lar despedaçado de volta com comida gostosa.
A cozinha pequena cheirava a bolo de carne assando no forno, misturado ao aroma quente da manteiga derretendo no purê de batatas. Entre as bancadas estreitas, mamãe se movia depressa e nervosa, lançando olhares para a porta a cada poucos minutos.
— Comam rápido — ela insistiu quando serviu os pratos. — Seu pai pode voltar.
A voz dela tremeu só de mencionar “aquele homem”.
— Ele não vai — murmurei com calma, puxando o prato para perto.
Ela parou, depois piscou.
— Como você sabe?
Baixei os olhos para a comida.
“Porque, antes de sair do hospital, eu avisei os cobradores de dívida que ele finalmente tinha dinheiro para pagar.”
“Então, ele não vai voltar esta noite. Vai estar ocupado demais fugindo.”
— Só um pressentimento — murmurei, sem olhar para ela.
Mamãe não questionou. Talvez estivesse cansada demais.
Comemos em silêncio, mas, pela memória de Veronica, era um acontecimento raro.
A comida era simples — uma fatia grossa de bolo de carne caseiro, purê de batatas com um pouco de molho, e alguns legumes cozidos no vapor ao lado —, mas, naquele momento, parecia um banquete acolhedor...
Depois do jantar quieto e satisfatório, Ethan mancou até a pequena escrivaninha dobrável no canto e tirou um caderno de exercícios.
— V-vero — ele chamou, hesitante. — T-tem uma c-conta de m-matemática que eu n-não c-consigo fazer.
Fui até lá e dei uma olhada.
A questão era parte de uma folha de competição — baseada em lógica, um pouco traiçoeira para alguém da idade dele.
Para mim, porém, era coisa de nível elementar.
— Bom, olha isso aqui... — expliquei o padrão, guiando-o passo a passo. Ele acompanhou meu raciocínio com atenção, os olhos se arregalando à medida que a solução ficava clara para ele.
Quando terminou de escrever a resposta final, ele me encarou, maravilhado.
— I-isso é m-muito le-gal! Qu-quando você f-ficou t-tão i-inteligente?
Sorri de leve.
— Talvez... agora mesmo? — baguncei o cabelo dele, fazendo-o dar uma risadinha.
Enquanto conversávamos, pelo canto do olho, vi a mãe de Veronica nos observando. Os lábios dela se curvavam num sorriso cansado. Talvez estivesse aproveitando o vínculo de irmão e irmã sem nenhuma barreira.
“Não se preocupe, mãe da Veronica. Da próxima vez que você olhar para nós assim, vai ser numa casa maior. Mais segura. Onde essas coisas não vão ser ‘de vez em quando’ nunca mais. Eu vou tirar vocês dois desse lugar nojento...”
