Capítulo 5

SAVANNA (VERONICA)

— Uau! — Ethan encarou as soluções que eu acabara de fazer do décimo quebra-cabeça dele, que tinha trazido da escola. — V-você é t-tão l-legal, V-vero!

Um risinho baixo escapou de mim diante do entusiasmo dele.

Já tinham se passado alguns dias desde que tudo aconteceu. Embora eu ainda estivesse me adaptando às mudanças, o ambiente estava mais tranquilo. Bem, pelo menos comparado ao que eu estava acostumada no Abismo.

Nesses dias, Ethan começou a trazer para casa quebra-cabeças todos os dias. Adivinhas. Desafios de lógica. Problemas com palavras. E mais enigmas da escola.

Eram ridiculamente simples, mas eu respondia com uma facilidade controlada e paciência.

— V-vero… — O chamado dele quebrou o fio dos meus pensamentos, fazendo eu olhar para ele.

— Sim?

— Por que v-você n-não conseguia resolver isso a-antes?

— Eu não queria me exibir. — Dei de ombros.

A boca dele se abriu um pouco e, então, ele franziu a testa. Ele me estudou como se eu fosse uma estranha usando o rosto da irmã… o que eu era, honestamente.

— V-você tá diferente — murmurou depois de um tempo.

— Estou? — Ergui uma sobrancelha.

A testa franzida dele se aprofundou quando ele assentiu.

— Sim… Mas—

De repente, ele sorriu.

— —Você ia f-ficar bem m-mais bonita p-perdendo um pouco de peso.

O comentário poderia ter doído. Mas não havia maldade na voz dele. Só honestidade infantil. Muito pura e bem-intencionada.

— Eu sei — eu disse, acariciando de leve a cabeça dele.

Eu não contei a ninguém, mas eu já tinha um plano.

Por causa dos meus ferimentos, mamãe tinha pedido para eu ficar em casa nesses dias e descansar. A escola também tinha me dado alguns dias de folga, considerando isso.

Por isso, eu tinha feito um plano de emagrecimento bem detalhado e vinha seguindo com cuidado todos os dias, longe dos olhos deles.

Só que o corpo de Veronica era fraco demais. A resistência dela era ridícula. Depois de cinco minutos correndo, os pulmões queimavam e a visão embaçava. Eu me perguntava como ela tinha sobrevivido até então!?

Mas eu nunca aprendi a me render. Então eu insistia, aumentando a distância aos poucos e monitorando meu progresso mentalmente. Disciplina se mostrou a chave definitiva para sobreviver.

Exigia paciência, e eu estava disposta a aguentar — especialmente porque esse era o único método que me tinha sido dado…

Numa tarde, veio o primeiro golpe no meu tempo de paz.

Voltei para casa suada e sem fôlego da corrida do fim de tarde, só para encontrar Elena encostada na parede do corredor.

Na hora, meu humor foi por água abaixo. Ela não estava em casa desde que eu voltei do hospital, provavelmente por aí se prostituindo em algum lugar, e ninguém parecia se importar com isso também.

Os lábios dela se curvaram no instante em que me viu.

— Uau — ela arrastou. — Correndo de novo?

Eu a ignorei e estendi a mão para a maçaneta.

— Você acha que correr dá dinheiro? — ela continuou, preguiçosa, observando as unhas bem-feitas. — Porque, até onde eu sei, esta casa precisa de dinheiro, não do seu arco dramático de transformação.

Eu parei, o punho fechando com força em torno da maçaneta.

— Ah, qual é, Veronica. Você já come por três pessoas. — Ela riu, dando um passo à frente com as provocações.

— Correr só vai te deixar com mais fome. Talvez você devesse largar a escola e trabalhar em tempo integral, em vez de fingir que vai passar em alguma coisa.

O olhar dela deslizou até a muleta extra de Ethan, apoiada perto da porta.

— E talvez, se sua mãe tivesse genes melhores, seu irmão não seria aleijado e não gastaria tanto dinheiro com aqueles remédios idiotas.

— Além do mais, mesmo que você vá pra escola duas vezes por dia, só vai ganhar boletins mostrando que reprovou em todas as matérias. — Ela riu, como se tivesse contado uma piada.

— Tsc, tsc… diferente de mim, você é só um lixo inútil.

As palavras me queimaram por dentro. Eu conseguia sentir a dor pulsante delas, ali, latejando.

O cálculo frio se erguendo dentro de mim. A vontade de desmontar a confiança dela pedaço por pedaço.

Mas antes que eu pudesse falar, a porta se abriu atrás de nós…

Revelando mamãe, com os ombros caídos de exaustão.

— Por favor — ela disse baixinho. — Parem de brigar.

Os olhos dela alternaram entre nós, como alguém se preparando para o impacto. Então o olhar pousou em mim, quase me implorando para eu não jogar lenha na fogueira.

Eu engoli a raiva. Não — não porque eu tivesse medo de Elena; na verdade, eu poderia tê-la feito chorar lágrimas de sangue só com as minhas palavras, mas, ao olhar para mamãe, eu me contive.

Ela não merecia mais uma batalha.

Eu apenas encarei Elena — um olhar longo e firme. Um aviso para ela.

Talvez eu tivesse me segurado agora, mas, da próxima vez, ela não teria tanta sorte.

Então — sem dizer mais nada — eu fui para o meu quarto e fechei a porta…


Nos dias seguintes, eu não fiquei cara a cara com Elena. Bem, melhor para ela.

Mas eu comecei a notar uma coisa. A comida na mesa estava desaparecendo mais rápido. As porções ficando menores.

Mamãe saía antes do sol nascer e voltava muito depois de escurecer. As mãos dela estavam ficando mais ásperas. A tosse, mais persistente.

Parece que Elena não estava totalmente errada.

O dinheiro tinha virado um grilhão de ferro em volta do nosso pescoço, nos sufocando.

As dívidas de jogo e o hábito de beber do pai da Veronica engoliram tudo. Mesmo assim, ele não parava com essas merdas.

Mamãe trabalhava em vários empregos só para manter o locatário paciente.

Até hoje, eu vi a mamãe implorando ao locatário, que só deu mais um aviso. Ela negou completamente quando perguntei e pediu para eu não me preocupar. Mas como eu não me preocuparia?

Fiquei acordada na cama, encarando o teto rachado.

Será que eu devia largar a escola? — o pensamento veio. Mas logo descartei.

A mensalidade do semestre já tinha sido paga. A escola não devolveria o dinheiro, então não adiantava desistir.

E ainda tinha as provocações da Elena. Mesmo eu não tendo dito nada naquele dia, as palavras dela ainda queimavam dentro de mim.

Eu ia terminar o semestre. E eu ia superar qualquer aluno do topo. Não era nem uma tarefa difícil — não para Savanna...

Naquela noite, à mesa do jantar, todo mundo ficou calado; ninguém falou da meia-irmã inútil da Veronica nem do pai dela, presumindo que ele estivesse por aí jogando e bebendo, como sempre.

Bom, ainda bem que ele não tinha saído para desperdiçar dinheiro de novo. Ou ainda estava fugindo, ou já tinha levado uma bela surra dos cobradores.

Mas eu sabia que era temporário. Eu precisava de uma solução melhor e permanente.

Quando eu era Savanna — antes desta vida — eu nunca me preocupei com dinheiro. Cada missão concluída significava um depósito grande.

Eu também ganhava dinheiro com outros trabalhos. Nunca me faltou dinheiro.

Mas agora aquela identidade estava “morta”. Os fundos eram inacessíveis. O que significava que eu precisava de uma nova fonte de renda.

E isso precisava ser feito rápido...


Na manhã seguinte, minha vida escolar começou de novo...

Fiquei diante do espelho, me observando através das roupas largas. O guarda-roupa da Veronica só tinha moletons e calças pretos e cinzas. E poucos, ainda por cima. Por causa do peso e dos valentões, ela nunca se sentiu segura para vestir outra coisa. Não que eu me importasse; na verdade, eu preferia essas roupas — a única coisa em que a gente realmente combinava em gosto, aliás.

Eu tinha cortado o cabelo ondulado curto e tirado a franja da testa. Agora, o rosto da Veronica parecia muito mais bonito.

Na verdade, ela era bem bonita; só nunca foi valorizada.

— Bem, sem preocupação, Veronica. Daqui pra frente, ninguém nunca mais vai te subestimar. Vou cuidar bem deste corpo.

Murmurando a promessa, saí do quarto.

E, do mesmo jeito que a Veronica fazia, eu e o Ethan fomos para a escola juntos.

Ele andava com cuidado, arrastando a perna, mas recusando ajuda.

Na entrada, ele parou.

— O que foi?

Em vez de responder, ele me estendeu um doce. — M-meu p-professor m-me d-deu — disse, orgulhoso. — P-por eu ser c-corajoso.

Ele pressionou o doce na minha palma. — A-agora eu d-dou p-pra você. T-tenha um b-bom dia, V-vero.

Eu encarei o docinho. Uma coisa tão simples. Tão pura. E, ainda assim, aquecia mais do que qualquer luxo.

— Obrigada — eu disse baixinho. E então encontrei o olhar preocupado dele. — Não se preocupa, eu vou ficar bem.

Ele me abraçou, depois acenou e mancou em direção ao prédio do fundamental II. Eu o observei o máximo que meus olhos conseguiram, até não conseguir mais enxergá-lo.

Eu me virei para o campus do ensino médio...

— Certo, Savanna. Sua vez. — Puxando um fôlego fundo, entrei e fiquei paralisada.

Os alunos se aglomeravam em grupos, rindo alto... Alguém gritou do outro lado do pátio... Uma garota reclamou de uma prova... Um garoto fingiu pegar o caderno dela.

Eu pisquei. Parecia... estranho.

Na minha vida anterior, educação era transacional, controlada e eficiente.

Se o Abismo precisava de um conjunto de habilidades, eles contratavam um especialista para nos ensinar diretamente.

Então, alguns do nosso grupo de órfãos eram bons em medicina, outros eram bons em invasão de sistemas, e alguns eram bons em muitas áreas, e por aí vai. Diferente disso...

Nada de corredores cheios de fofoca. Nada de armários decorados com adesivos. Nada de política de refeitório. Só salas estéreis e objetivos.

Parei diante do meu armário. Quer dizer, do armário da Veronica. Estava entupido de papéis amassados e tarefas esquecidas.

A vida da Veronica tinha sido descaradamente caótica.

Peguei meu livro e fechei a porta com firmeza.

Quando eu caminhei em direção à sala, o falatório morreu. Todas as cabeças viraram na minha direção.

— Ela voltou.

— Ela não...?

— Ela tá bem?

Os sussurros se espalharam pelo corredor, e eu não liguei, segui em frente.

Só que eles não iam largar o osso tão fácil, iam?

Assim que me aproximei da sala e entrei, de repente meu pé enroscou em alguma coisa que eu não vi e, antes que eu percebesse, eu caí no chão, rápido e com força.

Droga! Filhos da puta! ...

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