Capítulo 1

—Câncer no coração, estágio II. Menos de três meses de vida.

Bellatrix saiu do hospital, com as palavras do médico ecoando na cabeça. Desabou, sem forças, nos degraus da entrada. A semana inteira ela vinha lutando contra enjoos, achando que talvez estivesse grávida — por isso tinha faltado ao trabalho para ir à consulta.

As lágrimas caíram sem aviso. Por que o destino era tão cruel com ela? Quis ligar para o marido, mas não teve coragem de discar. Não estava pronta para encarar aquela indiferença fria de sempre.

Não havia dúvida: quem mais a odiava era o próprio marido — Cillian Alexander Laurente.

Bellatrix Laurente, aos vinte e quatro anos, era apaixonada por Cillian desde criança. Ele sempre fora indecifrável, misterioso. Depois que os pais dele morreram, ele passou a ter febres recorrentes. Ela ficou ao lado dele, cuidando, ajudando-o a se recuperar, acreditando que a bondade dela acabaria fazendo com que ele a amasse.

Mas tudo mudou quando ele melhorou. Cillian, de repente, declarou que Regina era a escolhida — o amor da vida dele. Quando Regina sumiu pouco depois, Bellatrix foi obrigada a se casar com Cillian para selar a fusão entre as famílias poderosas. Ele não se opôs.

Ela tinha sido ingênua o bastante para achar que, finalmente, o coração dele poderia se voltar para ela. Que um dia ele corresponderia — que o casamento deles poderia ser como os romances arrebatadores das novelas e séries de que ela gostava.

Em vez disso, os últimos quatro anos foram um gelo solitário. Tirando as vezes em que ele, bêbado, dormia com ela, mal se falavam. Ele nem sequer comia à mesa com ela. Para ele, Bellatrix era só uma peça de negociação. O coração dele nunca deixou de desejar Regina.

E agora? Câncer no coração. Três meses. Se Cillian soubesse, provavelmente ficaria feliz.

“A cirurgia exige o consentimento do seu marido.” As palavras do médico voltaram a ecoar. Ela precisava falar com ele. Ligou três vezes, e as três caíram direto na caixa postal. Deve estar em reunião, disse a si mesma. Ela era só uma das assistentes dele — conhecia apenas pedaços da agenda.

Ela precisava ir para casa. Cada passo parecia uma luta quando ela se forçou a ficar de pé, com o corpo ameaçando ceder. Ao estender a mão para se apoiar no corrimão, uma agitação na entrada chamou sua atenção.

Ela parou, congelada.

Um homem saiu de um sedã de luxo parado diante das portas do hospital — alto, de porte forte, envolto num terno de grife que exalava dinheiro antigo. O marido dela. Cillian.

O... o que ele está fazendo aqui? Ele sabia que ela estava doente? Ele veio... por ela?

Bellatrix deu um passo trêmulo à frente, mas Cillian se virou na mesma hora e se inclinou para dentro do carro — tomando uma mulher nos braços.

A respiração de Bellatrix falhou. O olhar dela se fixou na mulher que ele carregava. Quanto mais ela encarava, mais um medo gelado se espalhava pelas veias. Ela reconheceu aquele rosto na mesma hora.

Cabelo castanho quente. Traços delicados. Olhos cor de mel. E aquela aura inconfundível de inocência ferida que ela sempre usava para conseguir o que queria.

Regina Lancaster. A meia-irmã dela.

Como esquecer? A sombra sobre o casamento dela. A mulher que envenenava a vida dela. O verdadeiro amor de Cillian.

Ela não deveria sentir essa fisgada de dor. Ela sabia que Regina estava gravada no coração do marido. Mas ver aquilo... o corpo inteiro dela tremeu. Não — aquilo não era dor. Era raiva.

Ele era o marido dela. Esse casamento não tinha sido um favor que ela implorou. Então por que ele podia pisar na dignidade dela assim? Ela tinha todo o direito de se impor. Bellatrix foi direto na direção deles.

—Bella? —Regina chamou primeiro, mas Bellatrix não deixou passar o brilho triunfante nos olhos dela. Ofuscante, naquele rosto frágil.

O olhar de Cillian enfim saiu de Regina e pousou em Bellatrix. A ternura sumiu, substituída por aquele olhar gelado que ela conhecia bem demais.

—Bellatrix —ele disse, franzindo a testa. —Por que você está aqui?

—Eu… —Bella começou a explicar sobre o diagnóstico, mas Regina a interrompeu.

Virando os olhos cheios de lágrimas para Cillian, Regina sussurrou:

—O rim dela é compatível. Por isso eu voltei. Mas eu nunca conseguiria pedir que ela fizesse isso… mesmo depois de ela ter tomado o meu lugar e se casado com você.

—O quê?! Não, eu não vou… —Bella recusou. Ela estava com câncer. Outra cirurgia era impossível.

A voz de Cillian cortou a dela como geada.

—Você vai.

Ela lançou um olhar fulminante.

—Por quê? Pra vocês dois, eu sou só alguma vilã manipuladora. Não! —Ela se virou para ir embora antes que as lágrimas caíssem.

A mão dele prendeu o pulso dela com força.

—Você fez isso com a Gina. Você deve isso a ela —Cillian rosnou. —Você vai consertar o que quebrou.

—Eu? —Ela encarou ele, atônita. —Do que… do que você está falando?

—Para com esse teatro de santa. Você expulsou a Regina. Fez ela ir embora de Miami, afastou ela de mim, empurrou ela praquela vida. Você deve a ela. E você vai pagar cada centímetro disso —ou eu acabo com a empresa do seu pai.

Raiva e ressentimento escorriam de cada palavra.

Nada daquilo era verdade.

Mas, naquele momento, ela só precisava de uma resposta. Ela forçou as palavras para fora, uma por uma, frágeis.

—E se… e se eu estiver doente? E se eu estiver morrendo?

Uma pergunta inútil, mas ela precisava ouvir.

O silêncio de Cillian foi mais frio que vento de inverno. Quando ele finalmente falou, foi como uma lâmina.

—Não me importo. Doente, morrendo… não muda nada. Você vai dar esse rim pra Gina. —A voz dele endureceu. —Nem que eu tenha que arrancar do seu cadáver.

Não deveria doer, mas um buraco se abriu dentro dela. Bellatrix abriu a boca para falar —mas, em vez disso, foi tomada por uma crise de tosse violenta. Um fio de sangue manchou os lábios dela.

Regina arfou, recuando para os braços de Cillian.

—Meu Deus! Eu não posso ficar doente agora! Cillian, me tira daqui! Esse ar é nojento.

Malditos. Eles iam embora. Doente ou não, Bellatrix queria jogar alguma coisa nas costas deles, enquanto se afastavam.

Mas Cillian parou.

—Se cuida.

As duas olharam para ele. Ele sustentou o olhar de Bellatrix, frio.

—Um rim saudável serve melhor à Regina.

Bellatrix sentiu como se o chão sumisse.

Regina fez um biquinho falso.

—Cillian, isso foi pesado demais. Ela ainda é sua esposa.

—Eu só me importo com você, Regina —ele murmurou, suave, enquanto se afastavam.

Bellatrix observou os dois irem embora. Os punhos dela se fecharam com tanta força que as unhas cravaram nas palmas. As lágrimas que ela segurava finalmente transbordaram.

Mesmo agora. Ele não se importava. Nunca tinha se importado.

Mas, tola —talvez porque a morte parecesse tão perto—, ela tinha esperança de que hoje fosse diferente. Como marido, ele não deveria demonstrar alguma preocupação?

Em vez disso, ele tinha escolhido a meia-irmã dela em vez da própria esposa, que estava morrendo.

Outra onda de dor atravessou o corpo dela. A tosse voltou, mais forte desta vez. Ela não podia deixar que continuassem pisando na dignidade dela. Ela ia pedir o divórcio.

De repente, a visão dela turvou. Antes que conseguisse se firmar, os joelhos cederam. Ela desabou no chão. A escuridão engoliu tudo.

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