Capítulo 2

Quando Bellatrix recobrou a consciência, a primeira coisa que ouviu foi o bipe ritmado das máquinas do hospital.

Em seguida vieram o teto branco acima da sua cabeça, o cheiro forte de desinfetante e antisséptico, e a fisgada da agulha do soro no antebraço — mas nada se comparava à dor no peito.

A ilusão de felicidade dela tinha sido despedaçada, sem piedade, pela crueldade de Cillian.

Ela ia se divorciar dele — se recusava a passar os últimos três meses de vida vivendo por causa de um canalha.

De repente, a porta do quarto se abriu com força. A amiga dela, Avery, entrou. Avery era uma cardiologista de ponta, com várias tecnologias patenteadas. Bellatrix tinha achado que podia estar grávida, e foi por isso que não tinha procurado Avery antes.

— Graças a Deus você acordou — Avery soltou um suspiro aliviado e correu até a cama. — Como você está se sentindo? Está doendo em algum lugar?

Bellatrix se sentiu acolhida. Conseguiu esboçar um sorriso fraco e balançou a cabeça.

— Eu… eu estou bem.

— O que aconteceu? — Avery franziu a testa. — Você desmaiou do lado de fora do hospital. Se uma enfermeira não tivesse te visto e te trazido de volta, seus três meses podiam ter virado três dias. Você entende?!

O tom dela carregava um traço de raiva.

— Cadê seu marido? Como uma coisa séria dessas acontece, e ele nem aparece?

Bellatrix ficou em silêncio. Avery já tinha dito muitas vezes que obediência nunca conquistava amor, mas Bellatrix tinha insistido em acreditar que podia derreter o coração congelado de Cillian.

— A Regina voltou — Bellatrix explicou por fim.

— Sua meia-irmã que sumiu do nada? — a expressão de Avery ficou dura no instante em que ouviu o nome de Regina. — Aquela desgraçada.

— Eu sempre soube que ele era cruel, mas isso… Ele perdeu até o mínimo de decência humana. Eu juro que dá vontade de abrir o peito dele com o meu bisturi e ver do que o coração dele é feito. Como ele consegue ser tão sem coração?!

— Não precisa. — Bellatrix ergueu o olhar, com a voz firme. — Eu decidi. Vou me divorciar.

Os olhos de Avery se arregalaram. Ela não disse nada. Em vez disso, puxou Bellatrix com cuidado para um abraço apertado.

— Ah, Bella — ela sussurrou, com a palma da mão fazendo um carinho leve nas costas de Bellatrix. — Talvez não seja a decisão mais feliz, mas é a certa. Eu vou estar sempre do seu lado. Mas, Bella… — ela fez uma pausa, e o tom ficou sério — você não quer saber por que a Regina desapareceu? E por que o Cillian se apaixonou por ela de repente? Eu vi no começo… o Cillian te amava, mesmo que você nunca tenha tido coragem de admitir.

— Não importa mais. — Bellatrix assentiu, apoiando o queixo no ombro da amiga. A voz dela não vacilou. — Mesmo que a Regina tenha enfeitiçado o Cillian, isso não apaga o mal que ele me fez.

Bellatrix piscou e sorriu.

— Avery, eu tenho sorte de ter você.

Avery apertou o abraço.

— É pra isso que servem as amigas — disse ela, ajeitando o casaco. — E pode confiar: eu vou fazer tudo o que eu puder pra te ajudar a se recuperar.

Bellatrix assentiu, se preparando para se levantar — mas Avery a impediu.

— Eu preciso falar com o Cillian sobre o divórcio. E quanto antes, melhor.

— Se eu notar qualquer mudança no meu estado, eu te aviso na hora — garantiu Bellatrix, percebendo a preocupação nos olhos de Avery. Depois que Avery assentiu, ela saiu do hospital.

Naquela noite — Mansão Laurente

Bellatrix voltou para a mansão onde eles moravam. Ela puxou da gaveta um acordo de divórcio. Na verdade, ela tinha preparado aquilo havia muito tempo. Só estava esperando o momento em que finalmente teria coragem.

Ela cogitou ligar para Cillian de novo. Em quatro anos de casamento, ele mal tinha voltado àquela casa. As colunas de fofoca de Miami viviam abarrotadas, dia após dia, com as últimas escapadas dele.

Pior ainda: como assistente dele na empresa, ela tinha de separar as roupas e levá-las ao hotel todas as noites, vendo com os próprios olhos o quanto ele conseguia ser carinhoso com outras mulheres.

Que crueldade com ela.

Bellatrix tinha aguentado, esperado, alimentando a esperança de que um dia ele olhasse para trás e enxergasse a devoção dela.

Mas...

Hoje, ela finalmente entendeu — não era que ela não tivesse feito o suficiente. Ele simplesmente não a amava.

Se alguém não te ama, esforço nenhum faz diferença.

Ela precisava sair daquela gaiola.

Exausta, foi até o quarto para arrumar as coisas. Quando terminou, arrastou a mala escada abaixo.

Mas, assim que chegou à escadaria, deu de cara com Cillian, que tinha acabado de chegar em casa.

“Você voltou?”, Bellatrix perguntou, surpresa.

“E por que eu não voltaria? Você está escondendo um amante aqui dentro?”, Cillian disparou, frio.

Bellatrix engoliu a raiva. Não adiantava.

Ela puxou os papéis do divórcio da bolsa e entregou a ele. “Pede pro seu advogado dar uma olhada. Assim que estiver tudo certo, a gente vai ao cartório e oficializa o divórcio.”

Sem esperar a resposta dele, seguiu em frente, puxando a mala.

Mais uma vez, o pulso dela foi agarrado pela mão grande dele. Cillian soltou uma risada gelada. “Você faz qualquer coisa pra chamar minha atenção, não é? Se você quisesse mesmo se divorciar, teria esperado até agora?”

Fazer qualquer coisa pela atenção dele?

Sim. Era isso que ela tinha feito por quatro anos.

Bellatrix não explicou. Em vez disso, devolveu na mesma moeda: “Não é óbvio? Sua amante voltou. É a hora perfeita.”

Ela tentou passar por ele de novo, mas ele apertou o pulso dela com mais força.

“Para! Eu disse que você podia sair?”

Bellatrix encarou Cillian, atônita. “Casar com a Regina não é exatamente o que você sempre quis? Então por que você está com raiva agora?”

Cillian não respondeu. Em vez disso, pegou os papéis do divórcio e rasgou com força. Ele se aproximou, impondo-se sobre ela.

“Pra ficar bem claro”, ele disse, gelado. “Na minha frente, Bellatrix, quem dá as ordens aqui não é você.”

Desgraçado.

Sem hesitar, Bellatrix estapeou o rosto dele. “Você é inacreditável!”

Os olhos dele ficaram injetados. Ele a jogou na cama e segurou o queixo dela com força.

“No dia em que você decidiu destruir a minha felicidade”, ele rosnou, “era melhor ter se preparado pra encarar as consequências.”

“O que a Regina te contou?”, Bellatrix exigiu, com o olhar frio. Ela nunca tinha entendido por que Cillian a odiava tanto. Ela tinha sido a primeira pessoa a ajudá-lo depois que os pais dele morreram. E o pai dela também.

“Isso não tem nada a ver com a Regina”, ele disse. “Mas deixa eu deixar uma coisa bem clara — se você continuar se recusando a dar o seu rim pra ela, eu faço essa ligação e destruo a empresa do seu pai.”

Os olhos de Bellatrix se arregalaram.

“Você está livre pra ir. A segurança não vai te impedir”, Cillian disse, recuando. O olhar dele era distante e gelado. “Se você conseguir lidar com as consequências da minha ira.”

Com isso, ele saiu feito um furacão, deixando-a desabada no chão.

Bellatrix acreditou que Cillian só estava com raiva porque ela tinha tentado virar o jogo. Mas ela também acreditava — a Regina não tinha voltado só por causa de um rim.

Ela tinha voltado para tomar o lugar dela como esposa do Cillian.

Bellatrix mandou uma mensagem para Regina imediatamente:

“Se você quer o que está procurando, me encontra no café amanhã.”

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