Capítulo 3
Bellatrix pousou o telefone. Ela não queria mais esse casamento de jeito nenhum. Tinha certeza de que Regina ficaria mais do que feliz em ver tudo terminar.
Regina era a filha ilegítima que o pai delas teve depois de uma bebedeira e um erro. Quando Bellatrix confrontou o pai, furiosa, a mãe dela se colocou de pé e aceitou Regina.
Sua mãe, de coração bondoso, acreditava que uma criança era inocente. Ela ensinou Bellatrix que o ressentimento nunca levaria à felicidade. Mesmo quando Regina vivia roubando seus brinquedos, sua mãe ainda insistia para que ela perdoasse.
No dia em que a mãe morreu de forma inesperada, Regina nem sequer apareceu no velório. Ainda assim, Bellatrix se agarrou às palavras da mãe: não guarde ressentimento de Regina.
Mesmo quando Cillian declarou de repente que Regina era o amor da vida dele, Bellatrix nunca demonstrou por fora o quanto aquilo partiu seu coração. Mas agora Regina tinha voltado, agindo como se a família inteira tivesse feito algo terrível com ela — de novo. E, mais uma vez, Cillian não pensou: apenas ficou do lado dela.
Bellatrix se recusou a se curvar à autoridade de Cillian. E o pai dela jamais suportaria a notícia de que ela estava morrendo.
O celular continuou mudo, sem resposta de Regina. Bellatrix estava exausta demais. Queria descansar — quando, de repente, ele tocou.
Era Elise, a governanta-chefe da propriedade dos Lancaster — alguém que há muito tempo era como da família.
— Senhorita Lancaster! — Elise gritou, com a voz em pânico.
Bellatrix franziu a testa.
— O que foi, tia Elise?
— É o seu pai, senhorita — Elise começou, ficando mais nervosa a cada palavra. — Ele desmaiou de repente de madrugada, nas primeiras horas da manhã.
Por um instante, pareceu que o coração de Bellatrix tinha parado. A dor no peito voltou com força. Uma onda de fúria tomou conta dela — Cillian. Ele realmente fez isso.
Ela precisava ir para casa. Precisava ver o pai.
— Lancaster Tower — ela disse ao motorista do táxi, ao entrar.
Enquanto o carro andava, os pensamentos dela voltaram para o pai. Depois da morte da mãe, ele tinha sido a única família que lhe restara.
Elise e o médico da família já estavam esperando quando ela chegou. Bellatrix correu direto até eles.
— Doutor Horan, como está o meu pai? — ela perguntou, aflita.
— O senhor Lancaster sofreu um infarto hoje de manhã, mas, felizmente, não foi grave. Conseguimos estabilizá-lo e evitar maiores danos — disse o doutor Horan.
Bellatrix soltou um suspiro de alívio momentâneo — até ele continuar.
— Mas... — ele disse.
— Mas? — O coração dela apertou de novo.
— Fizemos alguns exames adicionais — explicou ele. — Descobri acúmulo de placas nas artérias dele. Se ele for submetido a mais estresse, isso pode desencadear um AVC.
Os olhos dela se arregalaram.
— Tem como impedir?
O doutor Horan balançou a cabeça e deu um tapinha de leve no ombro dela.
— A única coisa que posso recomendar agora é repouso. Ele precisa ficar calmo e evitar qualquer aborrecimento. Fora isso... só podemos torcer pelo melhor.
— Eu entendo — Bellatrix murmurou. Se o pai soubesse da condição dela, só pioraria tudo.
O doutor Horan assentiu, com simpatia. “Se precisar de qualquer coisa, me ligue imediatamente.”
Dito isso, ele saiu. Bellatrix não hesitou — subiu correndo e entrou no quarto do pai.
Lá dentro, tudo parecia exatamente como ela lembrava. Mas Joe Lancaster já não parecia o homem cheio de energia que sempre fora. O rosto dele estava pálido, e ele permanecia deitado, fraco, olhando pela janela.
— Pai.
Ele se virou para ela e esboçou um sorriso fraco. — Bella — disse. — Você veio.
O peito dela apertou. Os olhos arderam. Bellatrix se aproximou devagar da cama. Ver o pai tão frágil e debilitado partia o coração dela.
Durante todos aqueles anos, ela tinha focado só em Cillian, bancando a esposa obediente, tentando desesperadamente conquistar o afeto dele — enquanto negligenciava a única família que ainda lhe restava.
Agora, olhando para o pai naquele estado, a culpa a consumiu.
— Pai, o que aconteceu? Por que... por que você está assim? — ela se ajoelhou ao lado dele e segurou a mão dele.
Antes que ele pudesse responder, Elise entrou no quarto.
Ele fez um leve gesto com a cabeça, como quem pede silêncio, mas Bellatrix estendeu a mão e segurou a mão de Elise, ordenando:
— Me diga a verdade, tia Elise. Se a senhora realmente se importa com a saúde do meu pai.
Elise suspirou. — A empresa do seu pai vem enfrentando problemas financeiros ultimamente. Quase todos os investidores pularam fora. O conselho está um caos — ninguém sabe o que fazer. A gota d’água foi ontem. Um dos maiores investidores ligou e anunciou que vai sair. Se ele sair, o Grupo Lancaster quebra. Foi aí que seu pai desabou.
A fúria de Bellatrix voltou com tudo.
Tinha que ser Cillian.
E então — outra onda de vergonha a atingiu. Cillian tinha tratado o pai dela com tanta crueldade e, mesmo assim, ela ainda o amava.
Bellatrix cerrou o maxilar.
Como ela tinha sido tola.
— Desculpa, pai — sussurrou ela.
Ele a olhou com um sorriso suave. — Não peça desculpas. A culpa é toda minha. Eu não tomei as decisões certas. Não se preocupe... eu vou—
Ele começou a tossir violentamente antes de conseguir terminar.
— Pai! — Os olhos de Bellatrix se arregalaram, em pânico. O medo apertou o peito dela. — Por favor, deita de novo. Não se force. Vai ficar tudo bem. Vai dar tudo certo.
Ela o ajudou com cuidado a se recostar. Alguns segundos depois, Elise voltou com um copo d’água e entregou a ele.
Joe deu um gole. Aos poucos, a respiração se acalmou, a cor voltou ao rosto dele e a tensão nas mãos diminuiu.
— Me desculpa, Bella — ele disse, fraco.
— Não precisa, pai. Agora descansa — sussurrou ela, observando enquanto ele fechava os olhos e pegava no sono.
O celular dela vibrou. Uma mensagem de Regina.
Bellatrix abriu — era um endereço.
“Cillian está comigo. Eu sei que você está procurando por ele.”
A mensagem seguinte de Regina chegou segundos depois.
Bellatrix saiu da mansão sem hesitar e entrou num carro.
Mas, no instante em que chegou ao endereço que Regina tinha enviado, ela ouviu, do lado de fora da porta, as vozes íntimas de um homem e de uma mulher.
