Capítulo 4

Ela começou a gravar na mesma hora — mas não tinha o menor interesse em assistir àquela cena íntima. Simplesmente enviou o vídeo para o celular de Cillian.

Quando voltou para a mansão que dividia com ele, Cillian chegou menos de cinco minutos depois.

Ironicamente, agora que estavam prestes a se divorciar, o marido aparecia em casa com mais frequência do que em qualquer momento dos últimos quatro anos.

— Para com esses joguinhos. Essa gravação escondida não serve como prova na Justiça — Cillian rosnou assim que entrou. — Além disso, eu não transei com a Regina. Eu não vou deixar a reputação dela ser manchada.

— A Regina é pura — não é venenosa que nem você — acrescentou, frio.

Bellatrix sentiu como se o coração tivesse sido atravessado de novo. Mas se manteve ereta, se recusando a desmaiar, e rebateu:

— Chega, Cillian. Eu não ligo mais pra você e pra Regina. Eu te mandei a gravação porque quero falar da empresa do meu pai. Por que você está tentando destruí-lo?

As pupilas de Cillian se contraíram. Ele deu um passo para mais perto.

— E se eu te dissesse que isso não foi coisa minha... você acreditaria?

Bellatrix encarou-o, de olhos arregalados. Balançou a cabeça.

— Só você poderia ter feito isso.

— Então você veio aqui pra se render? — Cillian zombou.

Bellatrix fechou os olhos. Não tinha escolha. Abriu a boca para falar:

— Eu concordo—

— Mudei de ideia — Cillian a interrompeu, com um gesto displicente. — Amanhã, você vai comigo encontrar um cliente. Se você me ajudar a fechar o negócio, eu concordo em investir no seu pai.

— Por quê? — Bellatrix perguntou, confusa. — Você não queria justamente o meu rim?

— O médico disse que o corpo da Regina é frágil demais pra cirurgia — por enquanto — Cillian respondeu, impaciente. — Não tire conclusões. É só temporário.

Bellatrix tossiu de novo.

Cillian franziu a testa.

— Some da minha frente. Amanhã você não precisa ir pra empresa. Esteja neste clube às sete da noite.

Ele jogou um cartão de visitas nela e foi embora.

Naquela noite, Bellatrix virou de um lado para o outro, incapaz de dormir. Antes de ir ao clube, decidiu se encontrar com Regina.

Na manhã seguinte, fez o possível para esconder as olheiras com maquiagem.

Não queria dar a Regina esse gostinho.

Assim que chegou ao café onde Regina a esperava, a voz estridente de Regina ecoou, carregada de sarcasmo.

— Olha só, irmãzona, você está um trapo. Foi porque eu e o Cillian fizemos amor ontem à noite e isso te doeu tanto?

Bellatrix cortou na hora:

— O Cillian me explicou tudo — ele não dormiu com você. Quer que eu ligue pra ele agora? Aí a gente vê quem está falando a verdade.

— Você...! — Regina guinchou. — O Cillian só estava preocupado com o meu corpo frágil. Foi por isso que a gente não fez!

Bellatrix revirou os olhos.

— Vai direto ao ponto. Eu estou ocupada. Não tenho tempo pra perder com você.

Regina largou o teatrinho. Mexeu o café e então levantou o olhar, com um sorriso malicioso.

— Irmãzona, eu vou ficar com o seu rim. E quero que você deixe o Cillian.

— Regina... você nem está doente, está? — Bellatrix disse, encarando as bochechas coradas e aquela postura mandona. Doente de verdade era ela.

Regina não admitiu. Mas o sorriso presunçoso se alargou ainda mais.

— Regina, todos esses anos e seus truques não mudaram nadinha.

Bellatrix ainda se lembrava de como Regina, quando era criança, havia destruído os quadros queridos do pai para ganhar simpatia — e depois jogado a culpa nela.

Pior ainda: uma vez, Regina cortou o próprio dedo com um apontador e acusou Bellatrix de tê-la machucado.

E esses episódios não tinham fim.

Naquela época, Regina tinha só sete anos. Sete anos — e já era craque em mentir e manipular.

Bellatrix tinha sentido pena dela por ser uma criança nascida fora do casamento, rejeitada pelos outros.

Mas toda aquela doçura frágil obviamente era uma máscara.

Agora, o sorriso de Regina se desfez. — Bellatrix, eu estando doente ou não, é isso que você me deve — o que a família Lancaster inteira me deve.

— A gente te deve? — Bellatrix soltou uma risada de deboche. — Você sumiu sem dizer uma palavra quatro anos atrás.

PÁ!

Regina bateu a xícara de café na mesa. A expressão dela se contorceu de raiva. Ela encarou Bellatrix, cerrando os dentes.

— Se aquele velho desgraçado não tivesse se metido, me obrigado a ir embora, como você teria virado a Sra. Laurente? Era eu quem tinha que casar com o Cillian — não você, Bellatrix!

Bellatrix franziu a testa. O pai dela obrigou Regina a ir embora?

Não fazia sentido.

Ela não queria mais discutir. Levantou-se, pronta para sair.

— Bellatrix — disse Regina, com a voz fria e cortante —, o Cillian pode ter te amado um dia. Mas a verdade é que agora ele me ama. Não me culpe por eu ser implacável — culpe você mesma por ser fraca.

As palavras fizeram Bellatrix hesitar por um instante.

Por que todo mundo dizia que Cillian já tinha amado ela?

Então por que — quando ela finalmente tentou amá-lo — ele começou a odiá-la?

As palavras de Avery ecoaram na mente dela.

Não. Ela não queria mais ficar remoendo o passado.

Ela só queria garantir o investimento para a empresa do pai.

— Regina, pega meu rim, pega meu lugar como Sra. Laurente — o Cillian pode ficar com você. Mas ele se recusou a me dar o divórcio. Talvez você consiga me ajudar com isso.

Os olhos de Regina se arregalaram — claramente, Cillian não tinha contado.

Bellatrix não insistiu no assunto.

— Foi por isso que eu vim hoje. Me ajuda a convencer ele a se divorciar de mim.

Ela não esperou resposta. Foi embora e seguiu direto para uma boutique.

Ela precisava estar impecável. Precisava ajudar Cillian a ganhar aquele contrato — pelo bem da saúde do pai.

E ela confiava o suficiente em Cillian. Se ele disse que o rim dela não era necessário por enquanto, então Regina não tinha como forçar isso.

Às sete da noite, Bellatrix chegou ao clube que Cillian tinha indicado — Mystique.

O Mystique era o clube de prazer mais infame de Miami. Para entrar, era preciso ser membro.

E os membros tinham que ter um patrimônio de mais de um bilhão de dólares. Sem exceções, não importava o quanto você fosse famoso ou poderoso.

Bellatrix caminhou pelos corredores, lançando olhares para casais entregues, sem pudor, a atos sexuais. O estômago dela se revirou de tensão.

Ela sabia o que significava entrar naquele lugar.

Ela empurrou a porta da sala VIP — e viu Cillian e um homem, cada um com uma mulher quase nua nos braços.

Mas, no mesmo instante, todos na sala se viraram para olhar para ela.

O desconhecido olhou para Cillian e abriu um sorriso.

— Então é essa a mulher que você trouxe pra mim? — perguntou ele, começando a caminhar na direção de Bellatrix.

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