Capítulo 1
—Ember, eu não fazia ideia de que ontem era o seu aniversário de casamento com o Gab. Se eu soubesse, eu teria insistido pra ele não ir comigo ao hospital. Se você precisa ficar com raiva de alguém, culpa eu.
Quem é que tá fazendo esse barulho todo...
Irritada, ergui o olhar e encontrei uma garota de traços delicados, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Tinha alguma coisa nela que parecia familiar. Fiquei imóvel por um segundo, o cérebro tentando encaixar aquela imagem. Então um gelo desceu pela minha espinha.
Isabelle Pryce? Aquelas atrizinha de terceira que vivia rodeando meu marido como um urubu?
Lembrei do dia em que apareci, grávida, pra visitar o Gabriel no set. Isabelle, toda melosa, se ofereceu pra me levar até ele. Gabriel não estava em lugar nenhum, mas as mãos da Isabelle acharam minhas costas — bem antes de ela me empurrar daquele penhasco. Duas vidas acabaram num empurrão brutal.
Então... eu tinha renascido?
A raiva me inundou como fogo em mato seco.
PLÁ!
Minha palma acertou com força a bochecha de porcelana da Isabelle. A sala inteira ficou muda. Em seguida, todas as câmeras e microfones da festa de encerramento viraram pra mim, como se eu fosse a atração principal.
Gabriel, que tinha me tratado como se eu fosse um móvel a noite toda, se levantou num pulo e veio na minha direção, marchando, com a fúria saindo dele em ondas.
—Ember Blake, você perdeu a porra do juízo?
—Gab, não fica bravo com a Ember. Ela só tá chateada porque ontem você foi pro hospital comigo em vez de passar o aniversário de casamento com ela. A culpa é toda minha. —Isabelle segurou a bochecha que já começava a ficar vermelha, a própria imagem da inocência ferida, enquanto puxava de leve a manga do Gabriel.
—Que machucado gravíssimo. —Deixei meu olhar cair sobre o band-aid na mão da Isabelle, com a voz pingando sarcasmo. —Uma emergência nível band-aid. Super valeu a pena arrastar ele pro hospital.
Um arranhãozinho e ela transformou aquilo numa cena de donzela em perigo. Impressionante, até.
—Eu não sei que joguinho você tá fazendo, mas agora você vai pedir desculpas pra Belle. —A voz do Gabriel veio cortante, e os olhos dele me atravessaram com uma raiva mal contida.
Claro. Gabriel nunca soube resistir a mulher chorando. Pedir desculpas? Só nos sonhos dele. O único jeito de eu pedir desculpas pra aquela cobra seria se ela fosse diagnosticada com câncer em estágio quatro — e, mesmo assim, eu ainda ia pensar.
—Gabriel. Divórcio. —Encarei o olhar dele sem desviar, a voz lisa e gelada.
A exigência pegou ele de surpresa. A expressão dele passou por choque, incredulidade e irritação, antes de a voz descer, perigosa.
—Na frente de todos esses repórteres? Na minha festa de encerramento? Que porra você tá tentando aprontar, Ember?
Ha. Pra ele, tudo que eu fazia era “aprontar”.
Virei nos calcanhares e saí sem dizer mais nada. As manchetes de amanhã praticamente se escreviam sozinhas: “Esposa de Gabriel Sinclair agride nova atriz em ascensão e exige divórcio em evento público”. Que falassem. Em pouco tempo, todo mundo ia saber que eu não estava blefando.
Na garagem, meu motorista me olhou pelo retrovisor.
—Dona Sinclair, voltamos pra casa?
Eu tinha esse ritual. Depois de cada festa de encerramento do Gabriel, eu voltava cedo pra casa e fazia sopa pra ressaca do zero, cronometrando direitinho pra ficar pronta quando ele chegasse cambaleando, bêbado. Três anos. Eu nunca falhei uma vez.
Agora? Gabriel podia ir direto pro inferno. Eu não ia fazer porra nenhuma pra ele. Eu só queria desabar e não pensar em nada disso. Além do mais, ele nem ia voltar pra casa hoje. A Isabelle provavelmente precisava de uma hora ou duas chorando no peito dele.
Ela tinha trabalhado tanto pra me destruir, sem perceber que o verdadeiro objetivo do Gabriel também não incluía ela. Na minha vida passada, daqui a um ano, Gabriel conheceria o amor verdadeiro dele. Pra protegê-la, ele me usaria como escudo humano — provocando de propósito o ciúme da Isabelle até ela perder a cabeça e me matar, junto com meu bebê.
Patético. A esposa legal dele não passava de um degrau conveniente pro romance de verdade.
O som de um motor cortou o silêncio, ficando mais alto. O Gabriel tinha chegado?
—Ember! Hoje você passou dos limites! —Ele entrou batendo a porta, praticamente tremendo de raiva. —Entra no carro. Você vai pedir desculpas pra Belle. Agora.
Sempre essas desculpas. Eu tinha ouvido aquela ordem tantas vezes na minha vida passada que dava pra eu repetir dormindo.
Girei a aliança no dedo — ela realmente tinha ficado folgada. —Sabe de uma coisa? Faz tempo que isso aqui não serve direito. —Assim como essa piada de casamento e esse desperdício de homem. Os dois pertenciam ao lixo.
Minha indiferença só deixou ele mais furioso. Gabriel agarrou meu queixo com brutalidade, me obrigando a encará-lo.
— Fazendo charme agora? Ou esqueceu como foi que você tramou pra acabar na minha cama, lá no começo?
Um riso amargo escapou de mim. Ele sempre usou o meu amor por ele como licença pra me tratar como lixo. Mas é o seguinte, Gabriel — eu não te amo mais. E agora, vai fazer o quê?
O toque do celular da Isabelle cortou a tensão. Gabriel largou minha cara como se eu tivesse queimado a mão dele e atendeu, e a postura inteira dele amoleceu.
A voz melosa dela escorreu pelo viva-voz.
— Gab, eu tô tão preocupada… E se a Ember estiver com raiva de você por minha causa? Você tá se matando de trabalhar. Por que ela não consegue ser mais compreensiva?
Uma pausa, e então:
— Pelo seu bem, pra você finalmente conseguir descansar… eu deixava ela me dar outro tapa se isso significasse que vocês dois iam fazer as pazes.
Cada palavra era veneno calculado. Ela me colocou como a vilã, fez questão de lembrar que eu tinha batido nela e se pintou de mártir, disposta a sofrer pela felicidade dele. Se ela colocasse esse esforço todo em atuar de verdade, em vez de manipular, talvez tivesse ganhado um Oscar.
Como se fosse combinado, a expressão de Gabriel endureceu.
— A Ember não merece desculpa nenhuma sua. Ela é que tá errada. Relaxa — eu não vou deixar você sofrer à toa.
Por causa da Isabelle, eu já tinha sido arrastada pela lama dos sites de fofoca mais vezes do que eu conseguia contar. Gabriel nunca me defendeu uma única vez. Mas bastava ela derramar meia dúzia de lágrimas de crocodilo e ele fazia a própria esposa se humilhar pra amante.
Eu não podia ficar ali essa noite. Casar com Gabriel Sinclair tinha sido a pior decisão da minha vida. Ganhar uma segunda chance e ainda ter que lidar com a palhaçada dele logo no primeiro dia? Sorte a minha.
Peguei uma jaqueta e lancei a ele um olhar pingando desprezo.
— Não deixa eu atrapalhar seu papinho. A casa é toda sua. Só um aviso: eu tenho padrão. Não traz lixo pra dentro de casa.
O “lixo” era a Isabelle, óbvio. Eu nem precisava olhar pro Gabriel pra saber que a cara dele tinha virado uma bomba. Eles eram tão obcecados um pelo outro? Ótimo. Eu só esperava que engasgassem com isso.
Acabei num boteco de esquina, com o grave tão alto que parecia sacudir minhas costelas. Agora, eu não queria nada além de afogar meus pensamentos em álcool e esquecer esse desastre de noite.
— Algo forte. Valeu. — Eu deslizei algumas notas pelo balcão até o barman. Ele me serviu um copo sem dizer nada.
A bebida desceu queimando, o calor invadindo meu corpo depois de um único gole. Virei o segundo. Depois o terceiro. As bordas do ambiente começaram a ficar embaçadas.
No meio daquela névoa agradável, reparei num homem de camisa social preta passando. Mesmo com a visão turva, eu dava pra ver que ele era lindo.
— Tá sozinho? — estiquei a mão e puxei a manga dele.
Ele virou, uma sobrancelha erguida, divertido. Maxilar marcado. Nariz reto. Olhos cinza de tempestade. Puta que pariu. Mais bonito que o Gabriel…
Eu puxei a camisa dele, chegando bem perto.
— Você é modelo? Quanto é a noite?
Ele não respondeu, só me examinou com aqueles olhos intensos. Quando ele continuou calado, eu remexi na bolsa e enfiei todas as notas que eu tinha no peito dele.
— Eu tenho dinheiro. Senta e bebe comigo…
Um sorriso lento curvou a boca dele quando ele soltou uma baforada de fumaça na minha direção.
— Querida, tem certeza de que devia estar num lugar desses vestida assim?
Eu olhei pra baixo. Blusa branca toda fechada. Jaquetinha curta, bem comportada. Eu parecia que tinha entrado ali por engano depois de uma reunião de pais na escola. Dei de ombros e tirei a jaqueta, o movimento mostrando curvas que eu geralmente escondia. Meu corpo era bom pra caramba — eu só me vestia como freira na maioria dos dias. Agarrei a gola dele, puxando-o mais pra perto.
— E agora?
Algo escuro cintilou nos olhos dele. Ele levantou a mão e, devagar, desabotoou os dois primeiros botões da minha blusa, os dedos roçando minha clavícula. Os lábios dele passaram de leve pela minha orelha quando ele murmurou:
— Agora você parece que pertence a esse lugar.
Eu fiquei na ponta dos pés e prendi o lóbulo da orelha dele entre os dentes.
— Você pode se garantir sendo bonito por um tempo. Me faz feliz. Mas tem um monte de rostinho bonito nessa cidade, e se você me entediar… — deixei a ameaça no ar. — Eu te troco por um modelo mais novo.
Se o Gabriel podia trair e manter uma amante, por que diabos eu não podia?
— Vic, bora. — alguém chamou por ele.
Eu envolvi a cintura dele com os braços.
— Ele é meu hoje. Paguei e tudo. Ele não vai a lugar nenhum — a não ser pra onde eu mandar.
