Capítulo 2
A galera caiu na gargalhada. “Vic, desde quando você tá fazendo programa? Por que não avisou a gente antes?”
Meu celular tocou — o toque personalizado do Gabriel. O cara na minha frente leu o nome na tela em voz alta, com uma diversão bem na cara. “’Marido’?”
Eu ri e balancei o celular na direção dele. “Parece que ele já terminou de acalmar a amante e lembrou que tem uma esposa no papel.”
De repente, todo mundo ficou em silêncio. Gabriel apareceu do nada — como diabos ele tinha me encontrado? Ele agarrou minha mão, a voz gelada como gelo. “Já se divertiu o suficiente? Vamos pra casa.”
Todo mundo percebeu que a gente se conhecia e abriu caminho para a gente passar.
O tal do Vic sorriu. “Seu marido veio te buscar pessoalmente. Talvez você devesse se comportar.”
“Nem pensar! Ele ainda não me fez feliz. Eu paguei caro!” Eu tentei ficar, mas o Gabriel me jogou por cima do ombro.
“Me põe no chão...” Eu chutei e me debati contra ele. Ele não soltou um som.
Depois disso, eu apaguei. Só fui voltar de verdade na manhã seguinte.
Quarto desconhecido. Cama desconhecida. Eu tentei juntar os pedaços da noite anterior. Eu tinha mesmo dado em cima de um cara bonito qualquer? Respirei fundo e joguei o cobertor pro lado. Eu não estava vestindo nada além de um roupão.
Meu Deus, será que eu realmente... Peguei o celular e liguei, em pânico, para minha melhor amiga, Ceria Hart.
“Eu fui pra uma boate ontem à noite...”
“E eu acho que eu tô num hotel...”
Eu falei sem nexo, atropelando as palavras, tentando explicar a situação. No segundo seguinte, Gabriel entrou, com o rosto carregado como um temporal.
“Uma transa de uma noite?”
“Ember, caramba, menina...” Ceria, do outro lado, já estava doida pelos detalhes. Eu encarei Gabriel, sem graça.
“Tenho que desligar!”
“O que você tá fazendo aqui?” A irritação foi subindo na minha voz.
“E quem, exatamente, você esperava encontrar ao acordar do seu lado?”
Eu ajeitei o roupão, bem devagar, de propósito. “Aquele modelo de ontem, óbvio. Quer dizer, eu até paguei ele...” Meu tom saiu leve, como se eu não estivesse nem aí. Se o Gabriel podia ter uma amante, por que eu não podia me divertir?
A carranca dele se aprofundou, a expressão ficando ainda mais fria. “Que porra é essa, Ember? Saindo por aí em boate no meio da madrugada como se não tivesse reputação pra zelar. Se eu não tivesse aparecido e te trazido pra cá, você acha que estaria deitada aqui, segura e inteira?”
Que piada. Pra quem era esse teatrinho?
Mesmo assim, um alívio me atravessou ao saber que eu não tinha dormido com um desconhecido. Eu dei um sorriso debochado. “Por que você tá tão puto? Você não devia estar com a Isabelle agora? Ou o quê — ela não te dá, aí você vem descontar em mim?”
O rosto de Gabriel escureceu. “Ember, você devia ser uma mulher fina, de boa família. Do jeito que você tá agora, tá parecendo uma barraqueira.”
“Ah, obrigada. E quer saber? Eu não tô só sendo barraqueira — eu também tô sexualmente frustrada. Então, a não ser que você queira levar um chifre e virar manchete amanhã, eu sugiro que você me dê esse divórcio.”
Eu ri, sem a menor cerimônia. Três anos de casamento e Gabriel nunca tinha encostado em mim. Na minha vida passada, eu tinha me mantido digna e elegante, cedendo em tudo, até isso acabar me matando.
—Frustrada sexualmente, é? —Gabriel soltou uma risada fria e me puxou da cama, segurando meu queixo com força.
Quando ele se inclinou para me beijar, virei o rosto, enojada. —Sabe de uma coisa, Gabriel? Até os garotos de programa daquele clube sabem satisfazer uma mulher melhor do que você.
Empurrei ele com força. —Vamos nos divorciar. Vai ser melhor pra todo mundo, não vai? Você quer liberdade? Eu estou te dando.
Ele provavelmente nunca imaginou que a esposa obediente dele, depois de três anos, diria uma coisa dessas. A expressão dele oscilou, carregada de algo complicado. —Você tem ideia do que um divórcio significaria pra nós?
—O que significaria? —inclinei a cabeça, fingindo pensar. —Significa que eu posso passar todas as noites em boates, ficando com caras gostosos, e você não vai ter que aguentar uma esposa que trai.
A voz de Gabriel ficou glacial. —Ember, você enlouqueceu. Seja uma boa Sra. Sinclair. Eu vou fingir que não ouvi nada disso.
—Tá bom. Faça a Isabelle sair do meio artístico, e eu penso em continuar casada.
Eu já sabia a resposta. Gabriel nunca abriria mão da Isabelle por mim.
—De jeito nenhum. —Como eu esperava. Ele nem hesitou. —Peça qualquer outra coisa. Só isso, não.
Estendi a mão, agarrei a gravata dele e o puxei pra perto. —Se você é tão contra o divórcio, então por que me largou no nosso aniversário pra ficar com outra mulher?!
Minha voz falhou. Eu queria chorar, mas engoli.
A resposta de Gabriel foi gelada. —A família Sinclair e a família Blake têm interesses comerciais profundamente interligados. Um divórcio agora prejudicaria gravemente as duas famílias e daria uma brecha pros nossos concorrentes...
Mesmo assim, uma parte patética de mim ainda tinha esperança de que a recusa dele em me soltar tivesse alguma coisa —qualquer coisa— a ver com sentimentos de verdade por mim. Pelo visto, eu só estava me iludindo.
Gabriel me obrigou a entrar no carro. O caminho inteiro até em casa, ficamos em silêncio, como dois estranhos. O carro parou diante da nossa mansão na encosta.
Uma garota de vestido branco estava encolhida num canto, como um gatinho perdido. Isabelle.
—Que nem praga que sempre volta. —soltei uma risada fria.
No instante em que Gabriel desceu, Isabelle correu até ele. —Gab!
—Isabelle, eu e o Gabriel ainda não nos divorciamos. Qual é a pressa? Já querendo bancar a dona da casa? Sua mãe não te ensinou a não correr atrás de homem casado?
Mulher conhece mulher. Eu enxergava essa vadia falsa de longe.
—Ember! —a voz de Gabriel veio com um aviso.
—Ah, é. Esqueci. Você não tem mãe.
Encarei a Isabelle com calma, imaginando que desculpa “nobre” o Gabriel teria inventado na minha vida passada se soubesse que foi ela quem me matou. Será que ele, em algum momento, chegou a sentir a minha falta? A nossa? Do nosso filho que nem chegou a nascer?
—Ember, você entendeu tudo errado. Eu só fiquei sabendo que você saiu de casa ontem à noite e fiquei preocupada com você... —as lágrimas da Isabelle voltaram a cair.
—Tanto faz. Vocês dois coloquem o papo em dia. Aproveitem pra se consolar com calma. Eu vou entrar.
Eu não ia perder tempo assistindo a esse teatrinho. Fiz um gesto dispensando os dois e subi.
