Capítulo 1 O diagnóstico
Sentei ao lado da Camila na sala do médico, segurando sua mão com força. Eu podia sentir cada tremor seu, cada respiração curta. O cardiologista entrou, com uma pasta cheia de exames nas mãos, e nos cumprimentou com um aceno sério.
— Elisabeth, Camila — começou ele, com a voz calma, mas firme —, analisamos todos os exames e precisamos ser sinceros: o quadro da Camila é grave. Ela tem cardiomiopatia dilatada, uma condição que enfraquece o músculo do coração e prejudica a circulação. Se não fizermos a cirurgia, o risco de complicações sérias é muito alto.
Senti um frio percorrer minha espinha. Camila segurou minha mão com mais força, como se pudesse me ancorar naquele momento.
— Qual… qual é a cirurgia, doutor? — ela perguntou, a voz quase sumindo.
— Será um transplante parcial ou reparo do ventrículo, dependendo da evolução nos próximos dias. É um procedimento delicado e extremamente caro. O valor aproximado gira em torno de duzentos mil reais. — Ele fez uma pausa, olhando para nós com seriedade. — Sei que é muito, mas atualmente é a única opção que pode salvar a vida dela.
Camila começou a chorar, escondendo o rosto no meu ombro.
— Liz… eu… nós não temos dinheiro para isso… — ela soluçava, e minha garganta se fechou.
Respirei fundo, tentando manter a calma, mesmo sentindo meu coração bater tão rápido que parecia que iria explodir.
— Eu vou dar um jeito, Camila. Não se preocupe. Eu prometo. — Apertei sua mão com força, deixando que minha voz soasse firme. Mesmo que eu não tivesse ideia de como faria isso, precisava que ela acreditasse.
Perdemos nossos pais há anos, e a vida nunca foi fácil. Trabalho em uma pequena cafeteria com minha amiga Rosângela, tentando juntar cada centavo. Mas o valor da cirurgia parecia impossível de alcançar. Ainda assim, naquele instante, uma coisa estava clara: eu faria de tudo para salvar minha irmã, custasse o que custasse.
Depois de sairmos do hospital, caminhamos até a parada de ônibus. Estávamos no bairro Horto, um lugar simples de Belo Horizonte, com ruas movimentadas e casas pequenas, algumas já desgastadas pelo tempo. Eu apertava a mão da Camila, tentando pensar em alguma forma de conseguir o dinheiro da cirurgia.
— Liz… — ela murmurou, a voz cheia de preocupação —, como vamos pagar isso? Duas centenas de mil… nunca vamos conseguir.
Suspirei, sentindo um aperto no peito.
— Eu sei, mana… — respondi, tentando soar firme. — Mas vamos achar um jeito. Não podemos desistir agora.
O ônibus chegou, e entramos. Durante a viagem, continuamos conversando sobre possibilidades, empréstimos, qualquer ideia que pudesse surgir. Por dentro, eu estava desesperada, mas não podia deixar que a Camila percebesse o quanto eu estava assustada.
Chegamos em casa e eu a ajudei a subir as escadas até o nosso quarto. A casa era pequena, com sala, quarto, cozinha e banheiro, e os móveis já estavam velhinhos desde que nossos pais ainda eram vivos. Ainda assim, era nosso lar, nosso refúgio.
— Fica aqui quietinha, tá? Eu vou trabalhar agora. — Ela assentiu, os olhos marejados, e se deitou na cama, abraçando o travesseiro.
Eu tinha 19 anos, não tinha namorado, e só havia dado um único beijo na boca até hoje. Meu sonho sempre foi ser psicóloga, mas tive que largar tudo para cuidar da minha irmã desde que perdemos nossos pais para a COVID há dois anos. Desde então, toda a responsabilidade caiu sobre mim.
Troquei de roupa rapidamente, respirei fundo e me despedi da minha mana. Caminhei até a parada de ônibus, pronta para mais um turno na cafeteria. Cada dia era uma luta, mas eu faria de tudo para garantir que Camila tivesse uma chance de sobreviver.
Entrei na cafeteria e fui recebida pelo cheiro de café recém-passado e pelo calor do forno. Rosângela, minha amiga de longa data, já estava atrás do balcão, sorrindo para mim.
— Liz! Você tá com cara de quem viu um fantasma! — disse ela, puxando-me para perto com um abraço rápido. — O que aconteceu?
Suspirei, tentando não desabar ali na frente de clientes e colegas.
— Camila… — comecei, e ela imediatamente percebeu o tom sério na minha voz. — Ela precisa de uma cirurgia de coração gravíssima… e custa duzentos mil reais.
Rosângela arregalou os olhos, chocada.
— Duzentos mil?! Liz… isso é impossível! — disse, ainda segurando minhas mãos. — Mas calma… vamos pensar juntas. Sempre damos um jeito.
Enquanto atendíamos os clientes, minhas ideias giravam sem parar. Empréstimos? Pedir ajuda a conhecidos? Vender alguma coisa? Nada parecia suficiente.
O tempo passava rápido entre cafés, pedidos e risadas nervosas de clientes que não sabiam do meu desespero. Cada moeda que entrava no caixa parecia pequena demais diante do que eu precisava. Mas não podia parar. Não podia deixar Camila sozinha nesse momento.
No fim do turno, quando o café começou a esvaziar, sentei ao lado de Rosângela, apoiando a cabeça nas mãos.
— Eu preciso de um milagre, Rosangela… não posso perder minha irmã. — Minha voz falhou, e senti uma lágrima escorrer.
— Eu sei, Liz… eu sei — respondeu ela, segurando meu ombro. — Mas vamos pensar juntas. Algo vai aparecer. Sempre aparece.
— Liz… — disse ela, hesitando, como se medisse cada palavra —, eu tenho uma amiga… ela fez algo… bem extremo, mas conseguiu levantar dinheiro rápido. Ela leiloou a própria virgindade e conseguiu quinhentos mil reais.
Meu coração disparou, e senti o ar faltar por um instante.
— Rosângela… — sussurrei, incrédula —, será que eu conseguiria?
Minha mente girava, e o desespero apertava meu peito. Era absurdo. Era vergonhoso. Mas… eu faria qualquer coisa pela Camila. Qualquer coisa.
— Eu… eu não sei — falei, a voz quase falhando —, mas se for isso que salvar minha irmã, talvez… talvez eu consiga.
— Espera… — respirei fundo, tentando processar a ideia absurda —, amiga… me explica direito. Como ela fez isso? Onde ela foi? Com quem falou?
Rosângela me olhou, hesitando, sabendo que cada palavra precisava ser medida.
— Liz… — começou ela, baixando a voz —, ela fez tudo pela internet. Jogou o nome dela num site de leilão e… torceu. Torceu para que aparecesse um homem de bem, alguém pelo menos cuidadoso que respeitasse os limites. Não havia garantia, nada seguro… só esperança.
Meu coração disparou. Era absurdo, arriscado, até assustador. Mas cada palavra só aumentava meu desespero.
— E você acha que eu conseguiria? — perguntei, a voz trêmula. — Por Camila… eu faria qualquer coisa.
Rosângela me apertou o ombro, solidária.
— Eu sei, Liz… eu sei. Mas pensa bem. Cada passo tem que ser pensado. Não dá para se jogar sem refletir.
Fiquei em silêncio, sentindo o peso da responsabilidade e do medo. Nunca imaginei que chegaria a esse ponto. Mas era a minha irmã… e eu precisava tentar.
