Capítulo 2 O leilão
Eu me sentei à frente do computador, as mãos trêmulas, sentindo o peso da decisão apertar meu peito. Cada segundo parecia eterno. Olhei para Rosângela, que estava ao meu lado, me encorajando com um sorriso firme.
— Eu… eu vou fazer — sussurrei. — Pela Camila… eu não tenho escolha.
Rosângela assentiu, segurando a minha mão.
— Vai dar certo, Liz. Apenas seja você mesma. Mas lembra: mostre sua pureza… mas precisa ser ousada. Que desperte desejo, mas sem perder quem você é.
Respirei fundo, o coração batendo rápido. Digitei o nome que escolhi, olhando para a tela:
Usuário: Menina de Cristal
Rosângela inclinou-se, animada.
— Agora, a descrição. Mostre quem você é. Delicada, rara… mas que quem ganhar entenda que este momento é único.
Comecei a digitar, as palavras saindo devagar, cada uma cuidadosamente escolhida:
"Sou uma jovem de 19 anos, loira, com cabelos longos e ondulados que caem suavemente pelos ombros. Tenho olhos claros e corpo delicado, ainda intocado. Escolhi o nome Menina de Cristal porque assim me sinto: rara, preciosa e frágil.
Procuro alguém que compreenda este momento único, que saiba respeitar e valorizar a minha inocência e delicadeza. Quem vencer terá a oportunidade de experimentar algo que sempre guardei com carinho e reverência.
Que este seja um encontro de respeito, cuidado e prazer mútuo. Que saiba que cada gesto precisa ser feito com atenção e ternura."
Parei, sentindo a tensão e o medo se misturarem com um estranho calor no peito.
— É… acho que é isso. — Olhei para Rosângela, esperando uma reação.
— Liz… está perfeito. — Ela sorriu, orgulhosa. — É ousado, mas ainda é você.
— Eu… eu não sei se consigo… tirar a foto — sussurrei.
Rosângela sorriu, confiante, segurando minha mão.
— Relaxa, amiga. Eu tenho a máscara perfeita pra você. Uma de mulher-gato. Vai esconder seu rosto e dar aquele ar de mistério. Confia em mim.
Respirei fundo e coloquei a máscara preta, sentindo-me estranhamente poderosa e vulnerável ao mesmo tempo. Rosângela me entregou uma lingerie delicada, quase etérea, e me ajudou a vestir, ajustando cada detalhe com cuidado.
— Agora… uma pose ousada, mas sem exageros — ela disse, me posicionando. — Mostre confiança e encanto, mas ainda preserve sua essência de Menina de Cristal.
Olhei meu reflexo no espelho, segurando a respiração. Devagar, adotei a pose indicada, sentindo o calor subir e o nervosismo misturado com determinação. Rosângela pegou a câmera, ajustou o ângulo e clicou.
— Pronto! — disse, me mostrando a tela. — Está linda. Perfeita. Agora é só colocar no site.
Com um clique final, enviei a foto para o anúncio.
Me afastei um pouco, sentindo o coração disparado e uma mistura de medo e alívio. Eu estava completamente exposta, mas determinada a fazer qualquer coisa pela vida da Camila.
Rosângela se aproximou, olhando para a tela com um sorriso encorajador.
— Pronto… agora começou — disse, apontando para a seção de lances. — Cada lance que aparecer vai ser uma chance real de salvar a Camila.
Senti meu coração disparar. Uma lágrima rolou silenciosa pelo meu rosto.
— Eu consigo… — sussurrei para mim mesma, quase sem acreditar — …por você, Camila.
Rosângela segurou minha mão, firme.
— Isso mesmo, Liz. Você é forte. Cada clique, cada lance… é por ela.
Olhei para a tela, vendo o primeiro lance aparecer. Meu corpo tremeu, e uma mistura de esperança e medo me envolveu. Pela primeira vez, senti que talvez… apenas talvez… conseguíssemos.
Fiquei olhando para a tela, vendo os lances aparecerem. Cada número me deixava mais nervosa, meu coração acelerava, minhas mãos tremiam. Mas a espera era insuportável. Eu não aguentava ficar ali sentada, observando, sem fazer nada.
— Rosângela… eu… eu não consigo esperar mais. Preciso ir ver como a Camila está — disse, levantando-me, a voz trêmula.
Ela me olhou, compreensiva, e segurou minha mão rapidamente.
— Tá bem, Liz. Eu vou ficar de olho aqui, prometo.
Suspirei, tentando manter a calma, e saí em direção à parada de ônibus. A rua estava estranha e deserta, os postes de luz lançando sombras longas. Já passava das 22h e eu estava cansada, mas o que mais me doía não era o corpo, era o coração.
Enquanto caminhava, sussurrei para mim mesma, quase como uma prece:
— Que esse homem que me leiloe seja alguém paciente… que não me machuque. Sei que isso é errado… mas é a única solução que vejo até agora.
Mais ou menos uma hora depois, cheguei em casa. O coração ainda batia acelerado, e minha mente não parava de girar, pensando nos lances, no que estava fazendo… no que teria que enfrentar.
Quando entrei na cozinha, o cheiro simples e familiar de macarrão com salsicha encheu o ar. Camila estava ali, mexendo a panela com calma, os cabelos presos de qualquer jeito. Era quase 23h, mas ela ainda estava acordada me esperando.
— Fiz macarrão com salsicha pra gente comer… — disse, tentando sorrir.
Meu coração apertou. Ela sempre tentava cuidar de mim, mesmo sem ter quase nada.
— Mana, você precisa se alimentar melhor… — falei, me aproximando e acariciando o braço dela. — Vou pegar umas horas extras no trabalho pra você poder comprar mais frutas e legumes.
Ela largou a colher e segurou minha mão, os olhos brilhando.
— Liz, minha irmã… você é tão linda… — murmurou. — Desde que nossos pais morreram eu nunca te vi com nenhum namorado. Você só pensa em mim.
Engoli seco. Ela não fazia ideia do que eu estava passando, do que eu estava prestes a fazer.
— Eu só quero cuidar de você, Camila… — respondi baixinho.
Ela riu, com aquele jeito sonhador que eu amava.
— Mana, por favor… saia, conheça um rapaz legal, se divirta. Eu não posso, mas sei que um dia eu quero me casar com um homem lindo, que me ame, que me faça muito feliz… e que me beije muito! — disse, rindo e jogando os cabelos para trás.
Eu sorri, tentando esconder a dor no peito.
— Você vai ter isso, Camila… tenho certeza.
Ela apertou minha mão com força, quase num pedido.
— Me promete, Liz, que você vai sair, vai se permitir… você precisa.
Olhei para ela, o nó na garganta quase me sufocando. Eu queria dizer que já estava tentando fazer algo por nós, que tudo aquilo tinha um motivo. Mas apenas assenti.
— Eu prometo, mana… — respondi com um sorriso trêmulo.
Disse para ela:
— Vai se deitar, mana. Eu lavo a louça e já vou me deitar também.
Ela bocejou, riu levemente e se levantou, caminhando para o quarto. Suspirei, lavei a louça em silêncio, tentando organizar meus pensamentos, mas a mente não parava.
Quando finalmente me deitei, o travesseiro parecia pequeno demais para todo o peso que eu carregava. Eu virava de um lado para o outro, tentando achar uma posição que aliviasse a ansiedade, mas era inútil. O coração não parava de disparar, a respiração vinha curta, e o medo apertava meu peito como nunca.
Foi então que meu celular vibrou no criado-mudo. Tremendo, peguei o aparelho. Era uma mensagem de Rosângela.
“O leilão acabou. Você foi leiloada por 700.000.”
Meu corpo congelou. As palavras repetiam-se na minha cabeça, como um eco impossível de ignorar. 700 mil… eu não podia acreditar. Era real. Era suficiente para salvar a Camila… mas ao mesmo tempo, tudo parecia errado, assustador.
Respirei fundo, tentando processar. Uma mistura de alívio, medo e culpa me envolveu. Por Camila, eu havia feito isso… mas agora, o preço que pagaria seria muito mais do que dinheiro.
