Capítulo 3 O presente

Eu e Antony estávamos na sacada do prédio dele, o vento batendo levemente enquanto segurávamos os copos de uísque. Ele já tinha passado por muita coisa — viu a morte da minha esposa, que faleceu num acidente de carro enquanto estava grávida do nosso primeiro filho. Eu tinha 42 anos, e desde então, A dor parecia eterna.

— Que presente idiota será agora? perguntei, rindo, olhando para Antony.

— Esse aqui você vai gostar respondeu ele, com aquele sorriso maroto. — Vai lembrar os tempos da faculdade de medicina.

— Não vai prestar, falei, já prevendo besteira. — Só fazíamos besteira naquele tempo.

— Besteiras bem gostosas, digamos… Antony deu uma risada, lembrando-se do passado. — Éramos jovens. Agora somos dois velhos já.

— Diga isso por você respondi, tomando um gole do uísque. — Eu estou na minha melhor fase.

— O que seus pacientes diriam se soubessem que o diretor Antony é um devasso? provoquei.

— Iriam apoiar meu bom gosto — disse ele, sorrindo de canto. — Prefiro ser um devasso a ser um sonso.

Rimos, lembrando das loucuras de antes.

— Tá bom, mas me diz aí… o que é?

Ele baixou a voz, com um brilho travesso no olhar.

— Um leilão. Estou dando um leilão para você… comer uma bocetinha virgem.

Me engasguei com o uísque.

— E o que? Você é louco?exclamei, entre a incredulidade e a preocupação. — Eu sou ginecologista, tenho nome, uma carreira… você não pode fazer isso.

— Já estou fazendo respondeu ele, confiante. — E o lance já vai em 100.000.

— Louco… você vai perder dinheiro. Isso nem virgem deve ser! — falei, balançando a cabeça.

— Um já gostou só de saber que a moça é virgem… — disse ele, dando de ombros. — Já mudou o discurso. Não tô dizendo que você é sonso.

— Eu não vou, já estou dizendo retruquei.

— Ela está sendo bem disputada, viu. Antony olhou para a tela com um sorriso satisfeito. — Ela se descreve como Menina de Cristal, tem 19 anos, loira…

— Quem hoje em dia tem 19 anos e ainda é virgem? — murmurei, incrédulo.

— Não sei, meu amigo… disse ele, sem desviar o olhar. — Eu não posso, Antony.

— Você está solteiro há mais de 3 anos, não está prometendo relacionamento a ninguém… vai lá, come a loirinha e vem embora pra casa.

O silêncio pairou por um segundo, mas ele continuou:

— O que será que levou ela a querer entregar algo tão precioso? Existem muitos motivos que podem levar uma menina a fazer isso. Pelo menos sendo você, ela estará em boas mãos e será tratada como uma princesa. Lembro muito bem como você era cuidadoso quando sabia que as meninas eram virgens… elas ficavam babando por você.

Suspirei, sentindo o peso da decisão.

— Nos aproveitamos muito na faculdade, caro amigo… — falei baixo.

— Mas eu acho que não consigo confessei, encarando a tela.

— Olha só… já vai em 300.000 — disse Antony, os olhos brilhando com a competição do leilão.

— Tá muito caro isso, Antony… esquece isso — falei, quase implorando.

— Olha… vi aqui que é um árabe que estamos disputando — ele respondeu, sério agora. — Deve ser daqueles malucos que sequestram mulheres. Não deixe ele comprar essa menina, não.

— Sério? — meu coração disparou. — Ele vem com um lance maior. Esses caras são perversos…

— Já está em 400.000 Antony disse, sorrindo maliciosamente, mas a tensão no ar era real.

Fiquei ali, encarando a tela, o copo de uísque quase esquecido na mão. O lance tinha chegado a 400.000 e meu coração não parava de bater. Um árabe entrou na disputa, e a tensão subiu instantaneamente. Cada novo número me fazia prender a respiração.

— Antony… — murmurei, a voz trêmula ele vai passar de nós…

Ele apenas deu de ombros, com aquele sorriso travesso.

— Confia, Rogério. Lembre-se de como você sempre foi cuidadoso…

O lance subiu: 450.000… 500.000… minha mente girava, meu estômago se apertava. O suor começou a escorrer pela minha testa. Eu sabia que se cedesse, poderia perder o controle da situação.

— Não posso… murmurei, quase para mim mesmo.

— Vai, Rogério… dá o seu lance maior Antony incentivou, sorrindo. — Só assim você garante que ela estará em boas mãos.

Respirei fundo e cliquei no botão: 600.000.

Um silêncio pesado tomou conta de mim, enquanto esperava o próximo lance. Meu coração parecia bater no peito como um tambor. E então, lá estava: 650.000.

— Droga… murmurei, sentindo a adrenalina subir. — Esse árabe não vai desistir fácil.

Antony deu um sorriso de canto:

— Esse é o momento, meu amigo. Mostre quem manda.

Com um último gole de uísque, cliquei novamente: 700.000.

Houve uma pausa longa, interminável. Meu corpo estava tenso, cada músculo contraído. Então, finalmente, a notificação apareceu:

“Você venceu o leilão. Setecentos mil.”

Meu coração disparou. Eu tinha conseguido. O outro concorrente desistira, e agora a responsabilidade e o desejo, eram inteiramente meus.

Suspirei fundo, tentando processar tudo. A garota, a loirinha de 19 anos, ainda virgem, entregue a mim… a tensão, a adrenalina, a culpa e a excitação se misturavam em cada batida do meu coração.

Olhei para Antony, que apenas deu um sorriso satisfeito, piscando para mim:

— Bem-vindo de volta à vida, meu amigo.

O coração ainda não queria desacelerar. Eu havia vencido o leilão, e agora Antony olhava para mim, satisfeito, pronto para explicar o próximo passo.

— Agora… disse ele, cruzando os braços — vamos marcar o dia, a hora e o lugar para o encontro. 

Eu respirei fundo, sentindo a responsabilidade apertar meu peito, mas também a excitação de finalmente encarar o momento.

— Certo falei, firme. — Então reserva a melhor suíte do prédio e define onde será. Pelo que vi, a moça é de Belo Horizonte. Então prepara tudo: a suíte mais confortável, com tudo que ela vai precisar. Quero que se sinta segura.

Antony sorriu, batendo no meu ombro.

— É isso aí, amigo… bem-vindo de volta.

Suspirei, olhando a cidade iluminada abaixo da sacada, sentindo a mistura de tensão e expectativa crescendo. O leilão tinha acabado, mas agora vinha a parte que realmente importava: o encontro.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo