Capítulo 4 Email

Quando abri o e-mail, minhas mãos começaram a tremer. O coração parecia querer sair pela boca.

“Parabéns. Você foi arrematada. O encontro será no Hotel Imperial, suíte presidencial. Data: daqui a três dias, às 21h. Todas as despesas estão cobertas. Compareça pontualmente. Sua identidade permanecerá preservada.”

Li e reli aquelas linhas, sem acreditar que era real. Três dias. Só isso me separava do momento que poderia mudar tudo.

Peguei o celular e liguei para Rosângela.

— Amiga… chegou. minha voz quase falhou.

— O e-mail? ela perguntou rápido.

— Sim. Vai ser no Hotel Imperial, suíte presidencial. Daqui a três dias, às nove da noite.

Do outro lado da linha, ouvi a risada nervosa dela.

— Então é isso, Liz… setecentos mil, amiga. Ele pagou tudo isso por você. Ele deve ser podre de rico.

Engoli em seco.

— Eu tô muito nervosa, Rosângela. Parece que vou desmaiar só de pensar.

— É normal, amiga. Mas agora não tem mais volta. Você só precisa se preparar. Vai no depilador amanhã, deixa a pele macia, passa seus cremes, fica cheirosa.

— Eu não sei se vou conseguir… sussurrei, sentindo meu corpo todo tremer.

— Vai sim. — ela respondeu firme. E não esquece da máscara. Aquela que cobre metade do rosto. Assim você não corre risco de ser reconhecida.

Passei a mão no rosto, tentando me acalmar.

— Rosângela… nesse dia, você pode dormir com a minha irmã? Eu não quero sair preocupada, pensando se ela está sozinha.

— Claro, amiga, pode deixar comigo. ela respondeu sem hesitar. — Vou inventar qualquer desculpa, mas eu fico com ela.

— Obrigada… falei baixinho, com a voz embargada.

Ela fez uma pausa e então completou, num tom mais sério:

— Ah, e leva camisinha, Liz. Vai preparada.

Fechei os olhos e respirei fundo, mas a sensação era de estar sufocando. Três dias. Só isso me separava daquele encontro.

Olhei meu reflexo no espelho do quarto: pálida, com os olhos arregalados e o corpo em choque.

— Meu Deus… três dias… murmurei para mim mesma.

No dia seguinte, acordei com o coração acelerado. Tinha dormido mal, revirando na cama, imaginando mil vezes como seria aquele encontro. Rosângela apareceu logo cedo na minha porta, animada, como se fosse um dia normal de compras.

— Vem, amiga, hoje é dia de shopping. Você precisa de uma lingerie nova. disse ela, puxando meu braço sem me dar tempo de recusar.

No caminho, tentei disfarçar o nervosismo, mas minhas mãos suavam sem parar.

Entramos em uma loja sofisticada, cheia de peças rendadas, delicadas e ousadas. Eu me senti deslocada só de estar ali. Rosângela já foi direta com a vendedora:

— A gente quer algo especial. Algo que combine com a pele dela.

A moça sorriu, me olhando de cima a baixo, e começou a separar algumas opções. Rendados vermelhos, pretos, um conjunto azul marinho… mas foi quando ela trouxe uma peça em tom champanhe com detalhes em renda fina que Rosângela arregalou os olhos.

— Esse. Esse é perfeito.

Fui para o provador, o coração disparando. Quando vesti aquela lingerie minúscula, senti meu corpo tremer. Olhei para o espelho e por um instante não me reconheci. A mulher refletida ali parecia outra pessoa: mais ousada, mais sensual… completamente diferente da imagem que eu sempre tive de mim.

— E aí? ouvi a voz de Rosângela do lado de fora.

Abri a cortina devagar. Ela sorriu ao me ver.

— Amiga… você tá maravilhosa. Ele não vai resistir quando te vir assim.

Meus olhos encheram de lágrimas. Toquei de leve na renda, sem acreditar que era eu mesma usando aquilo.

— Eu nunca me vi desse jeito… sussurrei, quase sem voz.

Rosângela se aproximou, pegou minha mão e apertou firme.

— Pois agora se veja. Porque é assim que você vai aparecer: confiante, linda e irresistível.

Voltei a encarar meu reflexo. Ainda havia medo, mas também uma pontinha de poder que eu nunca tinha sentido antes.

Depois de escolher a lingerie, a vendedora voltou com algumas opções de acessórios. Entre elas, um robe de seda no mesmo tom champanhe, tão suave que parecia deslizar entre os dedos.

— Esse combina perfeitamente com o conjunto disse ela, mostrando como o tecido caía leve e elegante.

Rosângela não teve dúvidas:

— Você precisa levar, Liz. Vai se sentir ainda mais poderosa.

Coloquei o robe por cima da lingerie e me olhei novamente no espelho. O tecido macio cobria parcialmente o corpo, deixando só alguns detalhes à mostra. Era sensual, mas ao mesmo tempo delicado, como se me desse um ar de mistério.

Passei a mão devagar pelo tecido e suspirei.

— Parece que não sou eu…

Rosângela sorriu, ajeitando a gola do robe em mim.

— É você, sim. Só que agora do jeito que nunca deixou ninguém ver. 

Encarei meu reflexo mais uma vez, com os olhos marejados. Havia medo, sim, mas também algo novo: uma força estranha, como se eu estivesse assumindo um papel que nunca pensei que teria coragem de viver.

Fechei a cortina, vesti minha roupa comum de novo e levei tanto a lingerie quanto o robe para o caixa. Quando saímos da loja, senti o peso das sacolas nas mãos e o da responsabilidade no coração.

Três dias. E agora, além do medo, havia expectativa.

Saímos da loja com as sacolas nas mãos, e eu ainda me sentia estranha, com aquele reflexo do espelho gravado na mente. Rosângela olhou para mim e sorriu, como se lesse meus pensamentos.

— Agora é hora do spa, amiga. Vamos deixar você pronta de verdade.

Entrei no Spa Day com o coração acelerado. O cheiro de óleos essenciais e a música suave me envolveram imediatamente, mas não consegui deixar o nervosismo ir embora. Cada passo parecia pesar toneladas.

Primeiro, fui para a depilação. O calor do ambiente e a sensação da cera fizeram meu corpo se enrijecer, mas tentei me concentrar na ideia de que era por uma boa causa: me sentir segura e confiante. Rosângela ficou ao meu lado, segurando minha mão, rindo de vez em quando para aliviar a tensão.

— Quase lá… — murmurou, piscando. — Você tá ficando linda, Liz.

Depois, passei para a hidratação da pele. As mãos da esteticista eram firmes, mas delicadas, espalhando creme perfumado por cada centímetro do meu corpo. O cheiro doce e suave parecia acalmar um pouco a minha mente. Fechei os olhos e tentei me concentrar na sensação de cuidado, no toque gentil, deixando o estresse escapar lentamente.

Por fim, a massagem relaxante. Deitada na maca, senti cada músculo tensionado começar a ceder. Meu corpo se afundava no colchão macio, a música suave e os óleos aquecidos transformando o nervosismo em um relaxamento raro. Durante alguns minutos, esqueci até do que estava por vir.

Quando saí do spa, minha pele brilhava, meu corpo parecia leve e minha mente mais tranquila. Rosângela me entregou uma toalha macia e sorriu:

— Pronta para arrasar, amiga. Você tá linda, relaxada e poderosa.

Respirei fundo, encarando meu reflexo no espelho do spa. Ainda havia medo, ainda havia ansiedade, mas também havia uma confiança que eu nunca senti antes. Três dias. Só mais três dias.

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