Capítulo 5 Uma batida
Naquela noite, mal consegui pregar os olhos. Fiquei me virando de um lado para o outro, revivendo cada detalhe do dia no shopping e no spa. Sempre que fechava as pálpebras, era como se visse meu reflexo em lingerie no espelho — aquilo me assustava e excitava ao mesmo tempo.
Os dias seguintes pareciam se arrastar. Cada minuto parecia uma eternidade. Eu tentava me ocupar com as tarefas da casa, mas logo me pegava parada, encarando o nada, com a mente voltando para o mesmo ponto: o encontro.
Às vezes, trancava a porta do quarto, pegava a sacola escondida no guarda-roupa e vestia a lingerie de novo. Olhava no espelho e sentia o coração acelerar, como um ensaio silencioso. Tocava o tecido macio do robe, ajeitava a máscara no rosto… e, por alguns segundos, me imaginava diante dele. Um homem sem rosto, sem voz, apenas uma sombra que me observava em silêncio.
Rosângela não me deixava sozinha. Ligava-me todos os dias, mandava mensagens engraçadas e tentava aliviar meu peso. Mas também havia momentos em que ficava séria e me lembrava:
— Amiga, isso pode ser a chance de virar sua vida. Não pensa só no medo, pensa na oportunidade.
Eu balançava a cabeça, mas por dentro me sentia dividida entre o desespero da falta de saída e uma curiosidade que crescia a cada hora. Quem era ele? Que tipo de homem pagava tanto por uma noite?
Na véspera, fui até o quarto da minha irmã. Ela dormia tranquila, abraçada ao travesseiro, o rosto sereno como o de um anjo. Sentei-me na beira da cama e fiquei acariciando seus cabelos até as lágrimas deslizarem pelo meu rosto.
— Me perdoa… — sussurrei baixinho, engolindo o choro. — Eu só quero que você consiga fazer seu tratamento.
Naquela noite, não dormi. O relógio parecia zombar de mim, marcando cada segundo como um peso. Às vezes, fechava os olhos e sonhava acordada: sentia mãos firmes segurando as minhas, ouvia passos fortes se aproximando, mas o rosto continuava sendo apenas um borrão.
E então o dia chegou.
Acordei cedo, como se um fio invisível me puxasse da cama. Meu corpo tremia, mas havia uma estranha lucidez nos meus gestos. No fim da tarde, quando o sol começava a se esconder atrás dos prédios, decidi que era hora de me preparar. O coração batia descompassado, mas eu precisava transformar cada gesto em um ritual para não deixar o pavor me dominar.
Entrei no banheiro, fechei a porta e liguei o chuveiro. A água quente caiu sobre meu corpo, escorrendo como se levasse embora parte da ansiedade. Peguei o shampoo e massageei devagar o couro cabeludo, fechando os olhos e me obrigando a respirar fundo. Escolhi uma música suave no celular, deixei que a melodia preenchesse o ambiente e, aos poucos, o banho se tornou uma cerimônia silenciosa.
Passei o creme pelo corpo inteiro, espalhando com calma, como um lembrete de que eu estava cuidando de mim. A espuma se misturava às lágrimas que teimavam em escorrer, mas eu não queria chorar. Não naquela hora. Queria me sentir forte, pelo menos por alguns instantes.
Quando saí do banho, a pele quente e úmida exalava o perfume adocicado dos cosméticos. Sequei os cabelos com paciência, deixando-os soltos e macios sobre os ombros.
Caminhei até o quarto, abri a sacola escondida e encarei o conjunto champanhe. Por alguns segundos, minhas mãos tremeram, mas respirei fundo e vesti cada peça devagar, como se assumisse uma nova versão de mim.
Abri o guarda-roupa e fiquei parada diante das opções. Precisava de algo elegante, mas discretamente sensual. Escolhi um vestido preto simples, justo na medida certa. Sob o tecido, a renda champanhe permanecia escondida — um segredo guardado só para aquela noite, queimando contra minha pele e lembrando, a cada movimento, do que estava por vir.
Peguei o robe, dobrei-o com cuidado e o guardei na bolsa junto com a máscara. Seriam revelados apenas na hora certa.
Olhei para o espelho uma última vez. O reflexo mostrava uma mulher diferente daquela que eu conhecia: olhos firmes, pele iluminada, corpo envolto em mistério.
— Você consegue… — murmurei para mim mesma, mesmo sem acreditar completamente.
Respirei fundo, fechei o zíper e me sentei na beira da cama. O relógio marcava pouco mais das seis da tarde. Faltavam apenas algumas horas.
Já passava das sete quando fui até o quarto da minha irmã para me despedir. Ela estava sentada na cama, penteando os cabelos, e ergueu os olhos curiosos quando me viu arrumada.
— Mana… você vai para onde? — perguntou, franzindo a testa.
Meu coração apertou. Respirei fundo e forcei um sorriso.
— Aniversário de uma amiga. Nada demais, volto logo.
Ela me encarou desconfiada, mas não insistiu; apenas deu de ombros e voltou ao que fazia.
Poucos minutos depois, a campainha tocou. Era Rosângela, como havíamos combinado. Ela entrou sorridente, fazendo graça para disfarçar a tensão que só nós duas conhecíamos.
— Oi, princesa! Hoje a gente vai virar a noite vendo filme, hein? — disse, piscando para minha irmã, que se animou de imediato.
Enquanto elas conversavam, me afastei em silêncio. Rosângela me lançou um olhar rápido e cúmplice, firme como quem dizia: vai dar certo.
Já dentro do carro, olhei pela janela uma última vez. A imagem da minha irmã e da minha amiga ficou gravada na minha mente, me acompanhando por todo o percurso.
Quando o motorista anunciou que havíamos chegado, minhas pernas quase falharam. O Hotel Imperial erguia-se imponente diante de mim, totalmente iluminado. Respirei fundo, engoli em seco e caminhei até a recepção.
— Boa noite. Suíte presidencial, no nome do senhor… — hesitei, mas logo entreguei o cartão.
A recepcionista sorriu discretamente, como se já soubesse exatamente do que se tratava.
— Claro, senhora. O elevador a espera.
Meus pés pareciam afundar no carpete macio enquanto eu atravessava o saguão. As paredes espelhadas refletiam uma imagem que eu quase não reconhecia: uma mulher elegante, misteriosa, carregando segredos na bolsa.
O elevador subiu devagar, e a cada andar o peso no meu peito aumentava. Quando as portas se abriram, o corredor silencioso me recebeu com luzes suaves e um perfume discreto de flores.
Caminhei até a porta indicada. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei a bolsa cair. Toquei a máscara guardada e respirei fundo.
Ali, parada diante daquela madeira maciça, entendi que não havia mais volta. Uma batida, e minha vida mudaria para sempre.
