Capítulo 5 Ponto de Vista: VALENTINA
Ponto de Vista: VALENTINA
O cheiro de pólvora, agora misturado ao meu próprio medo, era sufocante. Eu tinha visto um homem morrer. Fui puxada do palco por Leonardo e, segundos depois, estava sozinha com o assassino no camarim abafado, onde o ar parecia rarefeito e pesado demais para respirar.
Damian Valmont era o meu terror em carne e osso. O dono daquela birosca do inferno, o homem que puxou o gatillo sem piscar, estava ali, na minha frente, invadindo meu espaço com aquela postura de quem comanda o mundo e cospe nas regras.
Valentina: — O tremor na minha voz era incontrolável, escapando dos meus dentes que batiam de leve pelo pânico. — Quem você realmente é?
Damian: Isso não importa. Se falar sobre algo que aconteceu aqui, eu vou atrás de você e mando alguém fazer uma visita à sua família.
A ameaça foi direta, seca, batendo no meu peito como um tiro certeiro. Mas ele não parou por aí, o desgraçado. Ele deu mais um passo à frente, invadindo cada centímetro do meu perímetro, e eu recuei desajeitada até bater as costas na parede fria, sentindo o suor frio colar minha blusa na pele.
Damian: Eu sei tudo sobre a sua vida, Valentina.
Meu coração deu um salto violento na garganta, quase rasgando meu peito. Valentina. Ninguém naquele lugar maldito sabia o meu nome verdadeiro, absolutamente ninguém, exceto o Murilo, que jurava guardar meu segredo debaixo de sete chaves. Como diabos aquele monstro sabia quem eu era?
Valentina: — Minha voz mal saiu, arranhada e rouca pelo choque absoluto. — C-como você sabe meu nome?
Ele abriu um sorriso, mas a boca curvada não alcançava os olhos. Era um sorriso frio, vitorioso, de quem se diverte vendo a presa se debater na teia.
Damian: Esta boate é minha. O Stardust é meu. E absolutamente nada acontece aqui, ou com qualquer pessoa que trabalhe para mim, sem o meu conhecimento prévio. A máscara não escondeu nada de mim, querida.
O golpe foi devastador, esmagador. Eu me senti completamente nua, invadida, exposta na pior vitrine possível, sabendo que a minha última ilusão de anonimato e refúgio havia estilhaçado em mil pedaços. Eu não passava de uma boneca na prateleira dele, monitorada desde o dia em que pus os pés naquele palco.
Damian avançou ainda mais, me encurralando de vez na poltrona velha do camarim. Ele colocou a mão pesada no braço da cadeira ao meu redor, me prendendo sem rota de fuga, e se inclinou para frente. O olhar dele estava cravado nos meus olhos com uma intensidade doentia, e a boca dele estava perigosamente perto da minha, me obrigando a respirar o hálito dele misturado ao cheiro de cigarro caro e adrenalina.
Damian: O que foi, Valentina? Está com medo do que eu possa fazer com você? Se você for uma boa menina, posso te proporcionar coisas que você nunca experimentou na vida inteira.
A raiva subiu pela minha cabeça com tanta força que o medo recuou por um segundo. Eu empurrei o peito dele com toda a força dos meus braços, afastando-me daquela respiração nojenta que me embrulhava o estômago.
Valentina: Você está louco! Jamais quero algo que venha de você, seu lixo!
Damian: Agora que você sabe que sou o proprietário, o seu patrão supremo, tem certeza de que não pretende mudar de ideia sobre essa sua pose de "dignidade"? — Ele zombou, a voz pingando veneno.
Valentina: Não pense que, por ser o dono e um criminoso da pior espécie, algo vai mudar entre a gente. Jamais me deitarei com você, escutou? Se for esse o caso, se essa for a condição para eu continuar aqui, eu solicito minha demissão imediatamente! Pede as contas agora!
Ele simplesmente ignorou o meu pedido de demissão como se eu tivesse latido para a lua e se aproximou ainda mais, colando o corpo dele no meu. Com um movimento rápido e bruto, ele soltou a fita que prendia o meu cabelo, deixando as mechas caírem soltas pelos meus ombros, e levou a mão grande para acariciar a borda da minha máscara. Quando ele tentou puxá-la para expor meu rosto inteiro, eu segurei a mão dele com desespero puro, cravando as unhas na pele dele.
Valentina: Nunca mais tente remover a minha máscara! Não importa quem eu sou por trás dela, isso não te pertence! Assim como você não precisa me explicar a morte daquele infeliz lá fora, eu não sou obrigada a explicar quem sou para um assassino!
Ele recuou de relance, surpreso com a minha reação animalesca, e foi se sentar relaxado na poltrona, cruzando as pernas como se estivésssemos em uma reunião de negócios qualquer.
Damian: Calma, Valentina. Só fiquei curioso, respira. — O tom dele mudou derrepente para o de um predador negociando os termos da caça. — Mas quer saber? Eu realmente apreciei seu estilo de dança no palco. E gostaria de contar com suas habilidades de forma totalmente exclusiva para mim.
Ele lançou o ultimato com um sorriso frio que me gelou até a alma:
Damian: Estou disposto a oferecer uma remuneração significativa, três vezes o que você ganha nessa boate suja. Você terá duas opções simples: tornar-se minha dançarina particular, exclusiva para os meus olhos, ou pegar suas coisas agora mesmo e ser expulsa da minha boate com uma mão na frente e outra atrás.
O pânico misturado à dor dilacerante de saber que ele controlava a minha vida inteira me atingiu como um caminhão desgovernado. Minhas pernas fraquejaram.
Valentina: Por favor, não me mande embora! — A minha voz quebrou, implorando contra a minha própria vontade. — Eu preciso muito desse emprego para sustentar a minha família, você sabe disso!
Damian: Nada impede que você seja minha dançarina particular, princesa. Se aceitar a proposta, terá a oportunidade de ganhar um bom dinheiro e viver bem. Caso não aceite, infelizmente, não poderá continuar trabalhando em minha boate de jeito nenhum. E pode ficar tranquila que farei questão pessoal de fechar todas as portas para você em qualquer canto desta cidade.
Valentina: Isso é uma ameaça direta, Damian? É isso?
Damian: Sim, é uma ameaça, e você sabe muito bem que eu sempre cumpro o que ordeno. Eu não quero compartilhar sua dança com mais nenhum outro homem naquela pista. Estarei aguardando a sua resposta, Valentina, e se você demorar muito para decidir, eu mesma desisto da proposta. Assim, você vai ficar sem trabalho, sem um centavo no bolso e sem nenhuma opção para salvar a sua casa.
Antes que eu pudesse raciocinar, ele se levantou de uma vez, aproximou-se novamente, segurou o meu rosto com força entre os dedos e tentou enfiar um beijo na minha boca. Eu virei o rosto com nojo, resistindo com todas as forças até ele soltar um riso cínico da minha pequena resistência e dar as costas, saindo do camarim e batendo a porta.
Assim que o trinco estalou, eu me deixei escorregar pela madeira da porta até o chão frio, fechando os olhos enquanto o tremor voltava com força total, nascendo agora de uma mistura indigesta de raiva cega e terror paralisante. Ele sabia o meu nome. Ele era o assassino frio daquela noite. E agora eu estava encurralada na pior armadilha que a vida poderia ter armado para mim.
O que eu faço agora, meu Deus? Eu realmente dependo desse maldito emprego para pagar o aluguel, comprar os remédios da minha mãe e garantir o prato de comida do meu irmão que dependem inteiramente de mim para sobreviver. Contudo, me sujeitar a ser a dançarina particular daquele verme arrogante, virando o brinquedinho particular de um criminoso, passa muito longe de qualquer plano que eu tinha para a minha vida. Se eu recusar, ele cumprirei a promessa de tornar a minha vida um inferno na terra e garantir que eu nunca mais consiga arrumar trabalho em lugar nenhum da cidade, me jogando na miséria absoluta.
Por outro lado, se eu aceitar essa proposta imunda, ele vai ter o poder de transformar os meus dias em uma tortura insuportável, pisando na minha alma, me achando uma mulher fácil e barata só porque danço em uma boate noturna e aceitei virar exclusiva dele por dinheiro. Em que tipo de situação desgraçada eu fui me colocar, e como diabos eu vou conseguir sair dessa corda bamba sem perder o meu emprego, sem vender a minha dignidade e sem ver a minha família passar fome?
