Capítulo 3 REIVINDICADO PELO DIABO

O Lycan me empurra ao chão junto com as outras fêmeas, e eu bato no solo com força, o impacto arrancando o ar dos meus pulmões. Antes que eu consiga me erguer, Lila é jogada ao meu lado, e nós nos arrastamos uma na direção da outra no mesmo instante, agarrando-nos como se fôssemos as únicas coisas sólidas que restaram no mundo.

Eu levanto a cabeça, e o horror cai sobre mim como uma pancada.

Corpos... por toda parte.

Estão espalhados pela clareira que antes era tão bonita. Alguns ainda de smoking, outros meio transformados, o pelo empastado de sangue. Gargantas rasgadas, crânios esmagados... membros dobrados em ângulos impossíveis.

Várias mulheres explodem em novos gritos quando reconhecem seus companheiros, pais, irmãos, estirados e dilacerados entre as pétalas de rosa que deveriam celebrar o meu casamento. Alguns machos ainda se contorcem, garras raspando a terra com fraqueza. A cena revira o estômago e meus olhos se enchem de lágrimas.

Eu procuro desesperadamente, os olhos saltando de cadáver em cadáver. Nenhum sinal do pelo preto com estrias prateadas do meu pai. Nenhum sinal do casaco negro familiar de Maddox. Nenhum pelo dourado que pertença a Kieran...

O alívio me atravessa com tanta força que minha visão embaça. Eles estão vivos... mas esse alívio se torce em um terror novo quando eu percebo quantos convidados do casamento — homens que estavam rindo e erguendo taças minutos atrás — agora estão mortos na grama.

Meu olhar vai para os Lycans. Aquele que me arrastou para fora é visivelmente maior do que os outros, um pesadelo colossal de pelo negro e músculos retesados. Comparados a ele, os demais parecem menores, como mestiços com traços levemente lupinos.

São Híbridos, eu percebo. Mas os grandes... há quatro deles ao todo — devem ser todos Lycans de sangue puro, com brilhos carmesins mais cruéis nos olhos. Eu me pergunto qual deles é o rei — Lucien Voss, o monstro impiedoso que dizem ser o próprio diabo.

Aquele que me arrastou rosna para um dos outros Lycans de sangue puro. “Por que o Lucien ainda não voltou, Viktor? Eu cansei de esperar.” O som do nome do rei deles me enche de pavor. Ele não estava ali com eles?

O tal Viktor responde com uma calma mortal. “Ele está caçando os fugitivos. Tenha paciência, Valir. A gente não divide a recompensa sem ele.” Meu coração vacila... Os fugitivos... Eu rezo em silêncio à deusa da Lua para que meu pai, Maddox e Kieran consigam escapar em segurança... Pelo menos, talvez assim eles possam nos resgatar depois... Até a possibilidade disso acontecer parece sombria...

Os lábios de Valir se curvam num sorriso de desprezo. “Acho que a minha paciência acabou. Eu nunca fui bom em esperar...”

O terceiro sangue puro abre um sorriso sombrio. “Não é uma boa ideia, Valir. Você sabe o que aconteceu da última vez que não seguiu ordens...”

“Cala a boca, Loki”, Valir rosna.

O último os observa com uma expressão entediada, brincando displicente com um braço de lobo decepado como se fosse um brinquedo. “Deixa ele fazer o que quiser”, ele arrasta, sem pressa.

Valir os ignora e dá um passo à frente. Ele agarra a Ômega assustada do bunker — a que tinha me perguntado o que aconteceria conosco. Ela choraminga quando ele a pega pelos cabelos, inclinando para cima o rosto marcado de lágrimas, e passando dedos com garras pelos fios loiros. As mãos dele deixam um rastro de sangue no cabelo dela. Ele a avalia como gado.

“Fraca demais”, ele resmunga, empurrando-a de lado com brutalidade. “Não vai sobreviver à minha semente...” As mulheres gemem baixo e se afastam ainda mais.

Em seguida ele avança em Selena, e ela estremece, se debatendo nos braços dele antes de sustentar o olhar com firmeza. Os lábios de Valir se curvam num sorriso cínico, enquanto ele segura o rosto dela e deixa a outra mão passear, atrevida, pelo corpo dela.

“Uma beta arisca...”, ele ronrona, a voz pingando sujeira. “Aposto que você ia ser gostosa enrolada no meu pau. Você é forte... Acho que tem o que é preciso...”

Selena lhe dá um sorriso lento e sarcástico. “Eu não acho que você tenha o que é preciso pra me aguentar, grandão.” Selena com certeza perdeu a porra do juízo. Eu espero que ele a acerte de raiva, mas ele não acerta.

Os olhos dele se arregalam, e o sorriso vira algo sádico e faminto. “Uma fêmea que faz mais do que chorar e choramingar? Você vai ser interessante de quebrar...” Então ele empurra Selena também, assustando-a. Ela se arrasta para longe imediatamente.

Agora ele vai em direção à Lila, e eu vejo os olhos verdes dela se arregalarem de terror puro; a máscara de coragem se estilhaçando por completo. A mão dela aperta a minha quando Valir estende a mão para agarrá-la—

De repente, Viktor dá um passo à frente, a boca marcada por uma linha dura. “Eu já reivindiquei essa quando arrastei ela pra fora. Ela é minha agora.” Os olhos de Lila tremulam para Viktor e se enchem de lágrimas. De algum jeito, ele parecia ainda mais letal do que Valir.

Valir solta um riso de desdém. “Que hipócrita... falando de regras quando você já fez a sua escolha.” Ele puxa o cheiro de Lila e zomba de novo. “Tanto faz, eu não vou pra cama com Ômegas.”

Então aqueles olhos cruéis se fixam em mim.

Ele me agarra pelo pescoço e me ergue. Lila choraminga ao meu lado quando nossas mãos entrelaçadas são arrancadas uma da outra. Ele arrasta o nariz pelo meu pescoço, inspirando fundo. “Você... que porra é você?”, ele resmunga. “Você cheira a lobo, mas eu não consigo sentir o seu lobo. O que você é? Algum tipo de abominação?”

Eu me obrigo a não me encolher e encaro direto os olhos vermelhos dele, com a mandíbula travada.

Valir abre um sorriso de escárnio. “Mais uma valentona... Sua força não acompanha essa sua coragem, lobinha. Você é pior do que uma Ômega, fraca e patética... Mas não importa. Você não é lá grande coisa como lobisomem, mas esse corpo...” A mão livre dele desliza pela minha lateral. “Talvez você possa compensar suas inadequações de—outros jeitos...”

Ele começa a rasgar o que restou do meu vestido de noiva, as garras ensanguentadas dele dilacerando a renda como papel, e eu grito...

De repente, um rosnado ensurdecedor, trovejante, sacode todo o bosque e todo mundo paralisa. Lobos, híbridos, até os outros sangue-puros.

Um Lycan alto e monstruoso sai da linha das árvores... Dois metros e dez de pesadelo feito carne. Ele tem pelagem de obsidiana, empastada de sangue escuro, e inúmeras cicatrizes cruzam o torso como um mapa de cada guerra que ele venceu. Os olhos prateados dele brilham sob a lua, irradiando uma calma letal que faz cada Lycan ao redor se curvar por instinto.

Lucien Voss... o Rei dos Lycans... o terror sobre o qual todo filhote é alertado em histórias antes de dormir.

Ele se move como a morte em forma sólida, silenciosa e inevitável. A simples presença dele suga o ar do bosque e até o vento se aquieta. Os guerreiros híbridos baixam os olhos e a maioria das mulheres desaba em novos soluços e choramingos.

O olhar dele varre a fileira de fêmeas trêmulas. Devagar e avaliando, antes de pousar em Valir com uma calma glacial. O terror me inunda até eu mal conseguir respirar.

Então o cheiro dele me alcança e meu coração falha uma batida. Por baixo do pavor, algo mais se agita... algo terrivelmente errado. O aroma dele me invade... intoxicante e estranho, e meu corpo me trai com um calor que floresce na boca do estômago. Minhas coxas se apertam em torno do nada. Por quê... por que eu estou sentindo isso?

O rosnado de Lucien corta a noite. “Você desobedeceu às minhas ordens, Valir?”

A arrogância de Valir vacila e ele começa a murmurar uma desculpa, mas Lucien o silencia com um único olhar. “Sua insolência continua me surpreendendo, irmão. É uma pena que você—” O olhar dele cai sobre mim e ele para no meio da frase.

O tempo parece parar, e uma corrente elétrica estala entre nós. Crepitante e viva. Minha Loba, normalmente adormecida, choraminga e se comprime contra minhas costelas, de medo ou excitação, eu não sei. É a primeira reação dela que eu tenho em eras.

As narinas dele se dilatam enquanto ele fareja o ar ao meu redor; então ele vê meu vestido em farrapos e os olhos carmesins dele se estreitam nas mãos de Valir ainda em mim. O olhar dele queima mais quente, e eu sinto o calor da raiva dele como uma força física.

“Tire. As. Mãos. Dela.” ele rosna, e Valir me solta na hora. Meus joelhos cedem, e eu desabo no chão, tremendo.

Lucien cruza a distância em duas passadas e para a poucos centímetros de mim — tão perto que eu preciso inclinar a cabeça para trás para encontrar aqueles olhos prateados e tempestuosos. Uma mão enorme se estende, e as garras dele retraem com um clique metálico suave, deixando pontas rombas que ainda parecem capazes de esmagar pedra. Ele segura meu queixo num único movimento rápido.

Eu me encolho, mas ele não solta; em vez disso, ergue meu rosto ainda mais, me obrigando a sustentar o olhar dele. De perto, ele é ainda mais aterrorizante... bonito do jeito que avalanches e incêndios florestais são bonitos. Mortal e inevitável...

O polegar dele roça a borda do meu lábio inferior devagar, e minha respiração falha. Cada instinto em mim grita perigo, mas cada nervo, cada pulso, responde a ele, desejo e medo se enroscando juntos. Não... não! Não podia ser... Isso era uma piada cruel da deusa da lua—

“Minha!” O rosnado, vindo das profundezas dos ossos, explode do peito dele — possessivo e primal.

A palavra me atinge como um raio. E meu corpo reage na hora, com um calor traiçoeiro e vergonhoso inundando entre minhas pernas; meu pulso dispara e uma dor desesperada floresce fundo dentro de mim.

Não — não, não, não! Qualquer coisa menos isso... Eu já tinha um companheiro! E esse monstro acabou de massacrar metade da minha alcateia! Eu odeio isso! Eu odeio ele!

Ao nosso redor, tudo cai num silêncio mortífero, e a palavra ecoa pelo bosque como uma maldição escrita em sangue. Os Lycans ainda em choque, enquanto as mulheres ao meu redor ofegam de horror. O rosto de Lila empalidece, os lábios congelados num grito silencioso. Até Valir recua, atônito.

Lucien me puxa para cima, o corpo maciço dele me protegendo dos outros. A voz dele baixa para um rosnado letal que atravessa todo o bosque, prometendo violência e posse na mesma medida.

“Ninguém toca nela. Esta aqui é minha! Toquem nela e eu vou arrancar suas colunas...”

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