Capítulo 4 UM VÍNCULO FORJADO EM RUÍNAS
As palavras ainda ecoam na minha cabeça. Enrolando-se na minha própria alma como correntes...
— Este aqui é Meu!
O calor explode no meu peito, desce em disparada pela minha coluna e se acumula, quente e úmido, entre minhas coxas. Minha loba traidora... a mesma que me ignorou a vida inteira... se agita de repente dentro de mim.
Companheiro!
A palavra reverbera em mim, alta, invasiva e errada... Meu estômago se revira violentamente.
Não... Não, não, não — isso é doentio —
A ironia é cruel o bastante para me dar vontade de gritar. Este diabo? Este monstro que transformou meu casamento dos sonhos num massacre? É o meu companheiro?
— Não... — Minha voz treme, fina e incrédula.
Ele acabou de massacrar metade da minha matilha, transformou meu casamento num banho de sangue, me arrancou dos braços de Kieran... E a Deusa da Lua... em toda a sua crueldade divina... decidiu que ele é meu.
A mão enorme de Lucien desliza do meu queixo para a minha garganta, inclinando meu rosto para cima, mais alto, até nossos olhos se encontrarem. Meu fôlego falha.
O aperto é firme, mas não esmagador, e eu sinto a tensão saindo dele em ondas. O choque nos olhos prateados é inconfundível. Ele me encara como se não acreditasse no que está vendo.
Atrás dele, os outros puro-sangues ficam imóveis num silêncio atônito. Valir paralisa, os olhos cor de carmim brilhando de incredulidade antes de se estreitarem em algo afiado e calculista.
A expressão de Viktor se contrai, sua calma mortal se quebrando só um pouco quando o olhar dele alterna entre nós, como se tentasse entender algo que não deveria existir.
E Loki... Loki parece encantado. Um sorriso lento e perverso se espalha pelo rosto dele, a diversão dançando nos olhos escuros como se aquilo fosse o entretenimento mais delicioso que ele teve em anos.
Até o quarto, o entediado, para de brincar com o braço decepado e encara, o olhar se aguçando quando se fixa em mim, sombrio.
Loki se recompõe primeiro.
— Ora, ora... — ele arrasta, a voz se enroscando no silêncio tenso. — Isso não é interessante...
Ele solta uma risada baixa e escura.
— Uma lobisomem como sua companheira? — O olhar dele volta para Lucien, a sobrancelha arqueando. — Diga-me, irmão: você tem absoluta certeza? Ou a emoção da matança finalmente turvou os seus sentidos?
Lucien não responde de imediato. Ele se inclina mais perto e o nariz roça meu pescoço enquanto ele inspira fundo. A reação é instantânea... O corpo inteiro dele fica imóvel, os olhos prateados escurecem e algo cru e faminto se acende neles.
— Tenho certeza — ele rosna, sombrio.
A certeza na voz dele me apavora mais do que qualquer outra coisa, e um gemido baixo e humilhante escapa dos meus lábios.
A outra mão dele sobe e roça meu queixo devagar, como se ele nem estivesse pensando, como se me tocar já fosse instinto. Eu me encolho, mas o aperto dele é forte e eu não consigo me afastar.
O rosto dele é uma máscara agora... frio e ilegível. Parece esculpido em algo inumano. Esse é o monstro de todo pesadelo de filhote. O próprio diabo...
O polegar dele acaricia meu rosto de maneira distraída enquanto ele estuda meus traços, os olhos prateados seguindo minhas bochechas marcadas de lágrimas, meus olhos castanhos arregalados de choque, meus lábios tremendo e meu cabelo castanho-escuro. Lila tinha passado horas colocando flores nas mechas longas e onduladas naquela manhã; agora ele caía selvagem sobre meus ombros, e as flores estavam murchas. Como meus sonhos...
— Qual é o seu nome, lobinha? — A voz dele sai como uma ordem gelada.
Meu coração martela com violência, e o medo arranha minha garganta, mas eu me recuso a deixar que ele veja... Se eu vou morrer, vou morrer de cabeça erguida...
— Malia... — digo, erguendo o queixo só um pouquinho mais, apesar do tremor no meu corpo. — Malia Monroe.
Eu sustento o olhar dele e a desafio explode dentro de mim, afogando meu terror.
— Não me chame de “lobinha” — rosno entre os dentes. — Eu sou a filha do Alfa Derrick Monroe, da Matilha Crescente! E você vai se lembrar disso quando o meu povo caçar você pelo que você e sua patética quadrilha de selvagens fizeram!
Lila solta um som baixo, engasgado, ao meu lado.
— Malia... — É um aviso sussurrado.
Os puro-sangues nos observam em silêncio, e as mulheres nem estão chorando mais. Todo mundo parece esperar, tenso, pela reação dele.
Os olhos prateados e frios de Lucien ainda perfuram os meus, sombrios, e minha coragem recém-descoberta vacila quando percebo que talvez eu tenha ido longe demais...
Eu me reteso, esperando que ele me acerte por eu ter ousado desafiá-lo. Afinal, ele ainda está meio transformado... alto, enorme e letal, exatamente como as histórias descreviam... Uma besta.
Um único golpe dele poderia acabar comigo.
Mas Lucien apenas solta uma risada baixa e sombria, vibrante como um trovão. O som é inesperado e profundamente perturbador.
— Sua bravura é adorável... — ele murmura, afrouxando só um pouco o aperto enquanto o polegar volta a traçar a linha do meu maxilar. — Minha companheirinha — acrescenta, quase pensativo.
O termo carinhoso me atinge como um tapa e um carinho ao mesmo tempo, e meu estômago dá um salto. As palavras não deveriam me afetar, mas o vínculo reage na mesma hora, enviando outra onda de calor através de mim, tão aguda que me faz prender o fôlego.
Minha loba se mexe de novo... Um pulso suave e ansioso contra minhas costelas. Se exibindo em resposta, satisfeita com a reivindicação dele. Eu quero arrancá-la de dentro de mim... sua vadia traiçoeira!
Não! Nem fodendo!!!
Mordo o lábio inferior com força para me distrair do calor inundando meu ventre, me ancorando na ardência da dor, tentando sufocar a reação antes que ela me consuma por completo.
Mas Lucien percebe, e o olhar dele desce até minha boca. Demora-se ali e escurece. Algo perigoso cintila nos olhos dele.
Então ele se inclina ainda mais — perto o bastante para que eu sinta o calor irradiando dele.
A mão dele se ergue, alcançando meu rosto para me tocar de novo.
Eu inclino a cabeça para evitar o toque e meus olhos se prendem ao cadáver de um lobo idoso a alguns metros dali. É o Ancião que deveria conduzir meu casamento com Kieran; ele ainda está com as vestes oficiais, e sua garganta foi arrancada, os olhos vítreos encarando, vazios, a lua.
Tudo desaba de uma vez, e uma onda de ódio e desespero me atinge ao mesmo tempo.
Meu casamento foi destruído! Meu pai e meu irmão sumiram, provavelmente estão mortos... Tantos convidados, nossos homens que estavam rindo e comemorando poucos minutos atrás, agora jazem massacrados na grama. E Kieran — meu Kieran... O nome dele me acerta como uma lâmina no peito.
Meu companheiro escolhido... o homem que tinha prometido me reivindicar esta noite... Eu nem sei se ele está vivo. Ele deveria estar ao meu lado agora. Não... este Monstro! Ele acabou com a minha vida! Que ele e a Deusa da Lua vão para o inferno, por mim!!!
O luto sobe violento dentro de mim, se torcendo em algo muito mais afiado. Algo mais frio. Ódio puro, ardente, em carne viva!
Quando os dedos de Lucien roçam minha pele de novo — eu estalo.
Eu me arranco do aperto dele, cambaleando para trás com mais força do que elegância. Os olhos dele escurecem com uma raiva de gelar o sangue, mas eu não paro.
Eu cuspo no rosto dele.
O bosque inteiro fica mortalmente imóvel, enquanto os lycans se eriçam de indignação. Suspiros das mulheres ondulam pela clareira, mas eu ignoro todos. Os olhos prateados e frios de Lucien continuam fixos em mim, imóveis... escuros e indecifráveis.
— Não toque em mim! — Minha voz falha, mas a fúria nela arde forte o bastante para ecoar. — Sua besta!
— Eu te odeio! — engasgo, o peito arfando enquanto as lágrimas embaçam minha visão, mas eu me recuso a deixá-las cair. — Está me ouvindo? Eu te odeio! E odeio suas feras selvagens!
Minha loba se contorce dentro de mim em protesto, como se tentasse me punir por cada palavra, mas eu a ignoro e aperto ainda mais.
— Eu nunca vou aceitar você como meu companheiro! Nunca! Nem nesta vida nem na próxima!
A expressão dele muda um pouco. Não é muito, mas é o suficiente. O suficiente para eu saber que atingi alguma coisa... bom.
— Eu já tenho um companheiro — continuo, minha voz ganhando força a cada palavra, alimentada pelo luto e pela raiva e por tudo que eu perdi no espaço de uma única noite. — Um de verdade! Que me ama... Um companheiro que eu escolhi...
O próprio ar parece prender a respiração, e os olhos de Lucien não entregam nada.
Ergo o queixo, prendendo o olhar no dele e despejando cada grama de desafio que ainda me resta nas próximas palavras, enquanto a raiva queima no meu coração. Quente e abrasadora...
— Eu, Malia Monroe — digo, minha voz ressoando pela clareira, firme e inflexível apesar do caos em fúria dentro de mim —
— Rejeito você, Lucien Voss, como meu companheiro!!! —
