Capítulo 1

Lucinda Wipere estava sentada diante do pai adotivo, Preston Wipere, na sala VIP do aeroporto. A voz dele carregava uma relutância evidente enquanto falava alto o bastante para que os passageiros por perto ouvissem.

— Lucinda, comporte-se lá. Seus pais biológicos têm poucos recursos, mas são sua família. Aprenda a segurar esse temperamento mimado que você pegou depois de anos na casa dos Wipere.

Lucinda ergueu os olhos, o olhar límpido encontrando o rosto cansado dele. Não disse nada; apenas o observou em silêncio. Preston se remexeu, sem jeito, e desviou o olhar.

— Ligue para casa se precisar de alguma coisa.

A mãe adotiva dela, Gemma Adams, vasculhou a bolsa e colocou um celular antigo, com a tela rachada, sobre a mesa.

— Pegue isto. O pessoal de lá mal consegue comprar smartphones. Está ultrapassado, mas ainda funciona — se vira com ele.

Os dedos de Gemma roçaram o colar Cartier de edição limitada, enquanto emoções conflitantes se agitavam dentro dela. Tinham criado Lucinda por vinte anos e, agora, finalmente a estavam mandando embora. Inclinando-se na direção de Preston, ela resmungou:

— Quem vai cozinhar quando ela for embora? Eu não suporto a comida de mais ninguém.

— Fala mais baixo — advertiu Preston.

— Só estou sendo sincera — rebateu Gemma. — Contratamos três chefs, e nenhum consegue reproduzir o bife dela. Ultimamente, toda refeição tem gosto de sem graça, de vazio.

A irritação franziu sua testa.

Anos atrás, a filha biológica deles, Allegra, tinha desaparecido, e Gemma chorara até quase ficar cega. Por sugestão de Preston, adotaram Lucinda para preencher o vazio. Mas o arrependimento a atingiu no instante em que a menina atravessou a porta. O rosto de Lucinda sempre lembrava Gemma de sua criança perdida.

A família Wipere reinara como a mais rica de Seaside City por duas décadas. Irritava Gemma que a filha de uma estranha vivesse no luxo enquanto o paradeiro de Allegra permanecia desconhecido.

Felizmente, Allegra havia voltado para casa. Melhor ainda: a família biológica de Lucinda reaparecera. O rumor dizia que viviam nas favelas, sem emprego e sem reputação, com três filhos homens preguiçosos e inúteis. Um sorriso frio repuxou os lábios de Gemma. Ainda bem. Livre-se disso. Um corte limpo — embora fosse uma pena perder a comida de Lucinda.

Ela tocou o colar, e uma dor aguda atravessou seu peito. Pressionou uma mão contra o coração, buscando alívio. Três meses antes, os médicos tinham diagnosticado câncer de mama em estágio avançado e lhe dado menos de um mês de vida. Naquela época, Lucinda cuidara dela incansavelmente, massageando-a e trazendo remédios, mas Gemma só ficara mais impaciente.

Tudo mudou quando Allegra voltou. Gemma se sentiu meio curada ao ver a filha pela primeira vez, e então veio um verdadeiro milagre: o tumor desapareceu por completo. O médico chamou de maravilha da medicina, mas Gemma sabia que era graça divina. Allegra era o anjo de Deus, enviada para salvá-la. As alegações de Lucinda de que seus cuidados tinham ajudado não passavam de besteira. Aquela garota agourenta já deveria ter sido posta para fora havia muito tempo.

— Lucinda, não fique triste. Essas regiões remotas são perigosas para moças. Cuide-se.

Allegra, a filha biológica dos Wipere, perdida por tantos anos, estava sentada ao lado de Lucinda e segurava sua mão, com os olhos avermelhados. Por baixo do teatro de tristeza, o triunfo cintilava com clareza. Ela sabia que a família biológica de Lucinda mal conseguia pôr comida na mesa, e que a garota enfrentaria tarefas intermináveis e maus-tratos por lá. Uma sensação de superioridade a inundou.

— Não se preocupe — disse Allegra, com doçura. — Vou te mandar uma mesada todo mês. Não é muito, mas dá para as coisinhas do dia a dia. Somos irmãs… eu não aguento ver você sofrer.

Um burburinho de elogios se espalhou entre os presentes, todos louvando a bondade de Allegra.

Lucinda encarou a mão que apertava a sua; as pontas dos dedos estavam geladas. Encontrou os olhos marejados de Allegra, o próprio rosto absolutamente sereno; então puxou a mão, libertando-se, e se levantou.

— Nojento.

Allegra ficou paralisada, novas lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Eu sei que você está chateada. Para falar a verdade, eu quase sinto inveja de você… morando num lugar calmo e bonito. Eu fico presa aqui com festas entediantes, obrigações de família e até o seu noivado antigo.

A rica família Grayson havia sido ligada aos Wipere havia muito tempo por um contrato de casamento, que passou para Allegra depois que ela voltou.

Um sorriso gélido brincou nos lábios de Lucinda.

— Aquele canalha? Fica com ele, se você quiser.

Allegra ficou atônita. Marshall Grayson era o sonho de qualquer socialite — jovem, talentoso e bonito. Aquele noivado era a chance dela de subir ainda mais, e Lucinda ousava insultá-lo?

— Lucinda! — Gemma se ergueu de supetão e veio em disparada. — Até onde vai a sua crueldade? Allegra foi bondosa com você, e você retribui vinte anos do nosso cuidado assim? Sua ingrata!

Lucinda parou e se virou, com um sorriso vazio no rosto.

— Quer que eu conte centavo por centavo do que vocês gastaram comigo todos esses anos?

Os traços de Gemma endureceram. Sem dizer mais nada, Lucinda pegou a mochila e seguiu para a segurança.

Ela colocou a bolsa na esteira. Na mesma hora, uma luz vermelha piscou, e um alarme estridente rasgou o silêncio do saguão. Dois agentes uniformizados correram até ela.

— Senhora, por favor, coopere com a nossa inspeção.

O agente abriu a mochila e tirou sacos plásticos lacrados de um compartimento escondido. Dentro, havia cápsulas de papoula ressecadas.

Lucinda franziu a testa e olhou na direção de Allegra, que estava a pouca distância. Ela ainda mantinha a expressão de luto, mas um claro lampejo de vitória acendeu nos olhos no segundo em que o alarme soou. Lucinda entendeu na hora. Aquilo era uma armadilha.

Allegra deu um passo à frente, com a voz tremendo na medida certa.

— Lucinda… como você pôde trazer uma coisa dessas?

Ela fingiu uma súbita realização.

— Não é à toa que a mamãe e o papai andavam desejando tanto a sua comida… Você tem misturado isso na comida deles esse tempo todo?

Gemma abriu caminho pela multidão e congelou. Pensou nas refeições sem graça que vinha engolindo ultimamente, e seu rosto se retorceu de horror e repulsa.

— Você estava envenenando a gente?

A expressão de Preston escureceu.

— Lucinda, nós te criamos por vinte anos. É assim que você nos paga?

Allegra se agarrou ao braço de Gemma, falando baixo.

— Mãe, não brigue com ela. Ela cresceu sozinha aqui, sem nunca se sentir segura. Ela só queria que a gente amasse mais a comida dela, então ela…

A voz se apagou, e depois ela suspirou.

— A culpa é minha. Ela nunca teria chegado a esse desespero se eu não tivesse voltado para casa.

Gemma olhou para a filha gentil e compreensiva, depois para a Lucinda fria e inflexível. O contraste doeu fundo. Ela puxou Allegra para trás de si e encarou Lucinda com um nojo sem freios.

— Eu sabia que você era problema! Drogando a gente, deixando a gente viciado… você não tem coração? Isso não acabou. Os seus crimes são só seus. A gente cortou todos os laços com você há muito tempo. Viva ou morra, isso não tem nada a ver com a família Wipere.

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