Capítulo 3
Gemma puxou um cheque da bolsa e o estendeu a Lucinda.
— Pegue.
O valor estava escrito com nitidez: trinta milhões de dólares.
— Assuma a culpa pela Allegra. — Gemma fitou Lucinda com o ar de quem estava concedendo um grande favor. — Você vai voltar para aquele tipo de lugar de qualquer jeito. Que diferença faz confessar ou não? Com esse dinheiro, você nunca mais vai precisar se preocupar pelo resto da vida.
Enquanto falava, seu olhar correu até Francis, ao lado de Lucinda, coberto de poeira.
Gemma zombou por dentro.
Trinta milhões de dólares — para gente tão miserável quanto eles, aquilo provavelmente ultrapassava até os sonhos mais delirantes.
Quando esse dinheiro caísse, eles não iam se ajoelhar em gratidão?
Um sorriso satisfeito curvou seus lábios.
— Sua irmã é bondosa. Ela não quer ver você sofrer. — O tom de Gemma ficou cada vez mais condescendente. — Pegue esse dinheiro e vá viver bem por lá. Essa pessoa ao seu lado é família do seu lado, certo? Com trinta milhões de dólares, vocês atravessam a linha de classe.
Lucinda baixou os olhos para o cheque.
Trinta milhões de dólares.
Em vinte anos com a família Wipere, o total gasto com ela não chegou nem a trinta mil dólares.
Agora, por causa de Allegra, eles jogavam trinta milhões sem pestanejar.
Ela não disse nada, mas seus lábios se arquearam levemente.
Francis, ao lado dela, fixou o olhar no rosto de Gemma.
Ouvindo aquilo, franziu a testa.
Trinta milhões de dólares? Para despachar a irmã dele?
Ele notou a postura de benfeitora de Gemma e entendeu.
Durante esses vinte anos, aquela família provavelmente nunca tinha considerado a irmã dele um ser humano.
Antes de partir, o pai deles pedira que ele levasse presentes para a família Wipere — para retribuir por terem criado sua irmã.
Agora parecia desnecessário.
Francis deu um passo à frente, colocando-se diante de Lucinda.
— Guarde esse cheque.
O tom não deixava espaço para discussão.
— Minha irmã não é alguém que você despacha com esse dinheirinho.
Dinheirinho?
Gemma congelou.
Olhou para o cheque na própria mão.
Eram trinta milhões de dólares! O que foi que ele acabou de dizer?
Dinheirinho?
Francis nem voltou a olhar para ela. Virou-se para Lucinda.
— Vamos.
Lucinda assentiu.
Os dois se viraram e seguiram em direção ao corredor VIP.
Gemma ficou parada, fincada no lugar, apertando o cheque, com uma expressão horrível no rosto.
Depois que eles já tinham se afastado alguns passos, ela finalmente saiu do transe e encarou as costas deles, cuspindo mentalmente.
Que encenação. Recusar trinta milhões de dólares?
Gente de família podre de pobre se fazendo de importante!
O corredor VIP estava silencioso; só o som dos passos deles ecoava baixo nas paredes.
Francis caminhava ao lado de Lucinda, prestes a falar, quando o celular vibrou de repente.
Ele viu o identificador de chamadas, a sobrancelha deu um tique, e ele atendeu.
— Fala.
A voz do outro lado estava em pânico, quase falhando.
— Sr. Douglas, emergência grave! A pressão da linha 3 da Starship acabou de despencar — o sistema principal está totalmente no vermelho!
Francis parou de andar.
— Qual é a situação agora?
— Ainda está caindo! Desse jeito, temos no máximo quarenta minutos antes de o tanque de combustível do segundo estágio ir pro saco!
A respiração de Francis ficou pesada.
O projeto Starship era a maior iniciativa espacial de longo alcance do país em uma década. Se perdessem essa janela, a próxima só viria dali a seis meses.
Ele conferiu a hora no celular e então olhou para o pátio no fim do corredor, ainda iluminado.
Daqui até a base — noventa minutos, no mínimo.
Não dava tempo.
— Me mandem os dados. — A voz dele ficou baixa. — Vou analisar no caminho. Vocês continuem tentando...
No meio da frase, uma mão se estendeu.
Lucinda tomou o telefone dele e levou ao ouvido.
— A linha 3 corresponde ao tanque de combustível do segundo estágio.
A voz dela era calma.
— A anomalia de pressão é causada por vaporização prematura devido ao pré-aquecimento excessivo. Fechem a válvula de pré-aquecimento do segundo estágio. Mantenham a válvula de desvio totalmente aberta.
Silêncio do outro lado por um segundo.
Então vieram sons rápidos de digitação, misturados a exclamações.
— Isso... espera, os dados estão mudando mesmo! A curva de pressão está nivelando!
— Está estabilizando! Estabilizou! — A voz subiu, empolgada, quase rachando. — Como a gente não pensou nesse método! Posso perguntar como você sabia? A gente está rodando simulações internas há três meses e não conseguiu chegar nessa solução... —
Lucinda não respondeu. Apenas devolveu o celular a Francis.
Francis pegou o aparelho, encarando-a.
As luzes do corredor derramavam-se de cima, iluminando aquele rosto absurdamente sereno.
— Como você sabia? — a voz dele baixou, o choque impossível de esconder. — O sistema de combustível da Starship é classificado em nível nacional. Nem a documentação interna está completa… como você poderia saber?
Lucinda olhou para ele. Os lábios se curvaram de leve.
— Vamos. Não estamos com pressa?
Ela se virou e seguiu até o fim do corredor.
Francis ficou parado, observando aquela figura se afastar.
De repente, percebeu que a irmã era muito mais complicada do que ele imaginara.
No topo da escada, a porta da cabine se abriu devagar.
Lucinda entrou, os olhos percorrendo o interior. Assentos de couro, revestimento de madeira — até os copos eram de cristal.
Sentou-se com uma expressão de total indiferença, prendendo o cinto com movimentos tão naturais quanto respirar.
Francis entrou atrás e se sentou de frente para ela.
Observando aquela irmã, algo parecia errado.
O jeito dela — praticado demais. Como se já tivesse feito aquilo incontáveis vezes.
Ele tirou do bolso uma caixinha de veludo e a colocou sobre a mesinha.
Lucinda olhou de relance.
— O que é isso?
— Um presente que eu tinha preparado para aquela família — o tom de Francis esfriou. — Só uma pedra. Nada muito valioso. Mas, pelo jeito que trataram você, deixa pra lá.
Ele empurrou a caixa de lado, como se não tivesse importância.
O olhar de Lucinda ficou nela por um segundo.
O veludo era de um preto profundo, e na tampa havia um logotipo em dourado em relevo — a embalagem especial do Leilão Elysian.
Ela se lembrava perfeitamente. O lote estrela do leilão tinha vindo numa caixa daquele tipo.
Radiant Star. Diamante azul de primeira linha. O único do tipo no mundo — 3,17 quilates, com uma pureza e uma cor incomparáveis.
Ela se lembrava. Fora arrematado por um comprador misterioso por trezentos e vinte milhões de dólares.
Lucinda baixou os cílios, escondendo o brilho que lhe atravessou os olhos.
Virou o rosto para a janela.
A pista se afastou lentamente. O nariz do avião se ergueu. As nuvens avançaram na direção deles.
— Estamos voando para o norte? — ela perguntou.
Francis hesitou.
— Sim.
— A capital, Starlight City, fica ao norte — a voz de Lucinda permaneceu uniforme. — Achei que nossa família morasse nas favelas.
Francis olhou para ela e, de repente, sorriu.
— Era favela. Mas descobriram uma nova jazida mineral debaixo daquela terra — um dos projetos da nossa família. As favelas antigas foram demolidas há muito tempo. Agora é uma nova zona de desenvolvimento.
Ele fez uma pausa e acrescentou:
— Nossa família mora em Seaview Estates.
Lucinda não disse nada.
Seaview Estates.
O principal distrito de luxo do país, no coração de Starlight City, aninhado entre montanhas e mar. Uma propriedade por família.
Preston trabalhou a vida toda e ainda assim não conseguia pagar uma mansão nem nos subúrbios de Starlight City.
Ela voltou o olhar para a janela. Acima das nuvens, a luz do sol cegava.
Noventa minutos depois, o avião pousou no Aeroporto Internacional de Starlight City.
Um Maybach preto já esperava no pátio.
O motorista estava ao lado da porta, aguardando com respeito.
Lucinda entrou.
Francis sentou-se ao lado dela e estava prestes a mandar o motorista seguir para Seaview Estates quando a ouviu falar:
— Vá para o Instituto de Pesquisa de Starlight City.
Francis abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas no fim apenas assentiu para o motorista.
O carro saiu do aeroporto e seguiu para o norte.
Quarenta minutos depois, parou na entrada do instituto.
Lucinda empurrou a porta e entrou direto.
Francis permaneceu no carro, observando a figura dela se afastar.
Os portões do instituto estavam bem fechados, e havia guardas postados na entrada. Para entrar, eram necessárias várias autorizações de segurança.
Um lugar desses — gente comum não tinha acesso. Nem mesmo pesquisadores comuns podiam entrar nas áreas centrais.
Ele ia chamá-la, dizer que aquele não era um lugar onde qualquer um podia entrar, quando a viu tirar algo do bolso e passar de leve no controle do portão de segurança.
A porta se abriu.
O guarda assentiu em reconhecimento e a deixou passar.
As palavras de Francis ficaram presas na garganta.
