Capítulo 4
Dentro do instituto de pesquisa, os passos de Lucinda ecoavam suavemente pelo corredor vazio.
Assim que dobrou a esquina, uma jovem de jaleco branco veio trotando ao encontro dela.
— Srta. Wipere!
A mulher parecia ter uns vinte e cinco ou vinte e seis anos. Usava um rabo de cavalo alto e parou diante de Lucinda, um pouco sem fôlego. — Você finalmente chegou! Estou esperando desde cedo!
Lucinda a encarou. — Elowen, o que houve?
Elowen Coleman era a pesquisadora mais jovem do instituto. Tinha concluído o doutorado aos vinte e três e fora promovida ao laboratório central aos vinte e seis. Todos ali a chamavam de gênio.
Mas, diante de Lucinda, ela sempre agia como uma fã assumida.
— Aconteceu alguma coisa no laboratório central! — Elowen baixou a voz. — Hoje de manhã, o Lancaster Group enviou a centrífuga de baixa temperatura mais recente deles. Disseram que é um produto novo — só existem três no mundo. Mas, com menos de duas horas de funcionamento, o sistema começou a disparar alarmes!
Os passos de Lucinda vacilaram por um instante.
O laboratório central.
Era o laboratório de maior segurança de todo o instituto. Era ali que estudavam os patógenos mais perigosos do mundo.
Se algo desse errado naquele laboratório, perder a instalação seria o menor dos problemas. Se qualquer um daqueles vírus vazasse, seria uma catástrofe global.
— Como está a situação agora?
— Está um impasse. — Elowen acompanhou o passo ao lado dela, as palavras saindo rápidas. — O pessoal do Lancaster Group diz que a interface do nosso laboratório está desatualizada. O nosso pessoal acha que o problema é do equipamento. Estão discutindo desde a manhã. Ninguém cede.
Ela fez uma pausa e baixou ainda mais a voz. — E tem algo pior.
Lucinda olhou de lado.
— O Barney está aqui.
A sobrancelha de Lucinda se contraiu.
Barney Lancaster. Tio de Reginald Lancaster, o chefe do Lancaster Group. Ele comandava a divisão de tecnologia médica.
Diziam que todo o espaço que o Lancaster Group conquistara na pesquisa biomédica era, em boa parte, mérito dele.
Aquele equipamento era o projeto médico carro-chefe do Lancaster Group neste ano. Barney viera pessoalmente supervisionar e estava no laboratório desde o começo da manhã.
— E depois?
— Quando o equipamento deu problema, evacuaram o laboratório pelo protocolo de emergência. O Barney estava no último grupo a sair. Menos de uma hora depois, ele começou a ter uma febre baixa. — A voz de Elowen desceu. — Agora ele está inconsciente. Estão tentando estabilizá-lo na ala de isolamento.
Lucinda parou de andar.
Aquilo não era só um incidente de segurança. Podia virar uma crise política entre duas instituições gigantes.
O Lancaster Group era o maior patrocinador do instituto. Injetavam centenas de milhões todos os anos.
Se o Barney realmente morresse ali—
Ela não se permitiu concluir o pensamento. Voltou a andar.
No fim do corredor, havia uma pesada porta de eclusa, com luzes vermelhas de alerta piscando acima.
Lucinda tirou um cartão preto do bolso e passou no leitor.
Um bip suave. A luz vermelha ficou verde.
Elowen a seguiu, encarando o cartão. Não conseguiu evitar estalar a língua.
Nível máximo de autorização.
Só cinco pessoas em todo o instituto tinham aquele cartão.
Lucinda era uma delas.
A porta da eclusa deslizou, abrindo devagar. Um leve cheiro de desinfetante veio do corredor além.
No instante em que Lucinda atravessou, ouviu uma discussão acalorada mais à frente.
— Que diabos você está querendo dizer? Que o Sr. Lancaster ficou preso no isolamento? O Lancaster Group investe milhões neste lugar todo ano — é assim que vocês nos retribuem?
Um homem de meia-idade, de terno, estava ali, o rosto vermelho, a gravata torta. Ele tinha abandonado completamente qualquer pretexto de profissionalismo.
Do outro lado, um pesquisador bateu a mão na mesa. — O equipamento quebra e, em vez de consertar, vocês só querem jogar a culpa em alguém! O Sr. Lancaster desabou — você acha que a gente não está preocupado? Aquele é o nosso laboratório lá dentro!
— Jogar a culpa? Vocês é que—
— Chega.
Uma voz fria cortou tudo a partir da porta.
Todos congelaram. E se viraram na direção do som.
Lucinda estava na entrada, o olhar varrendo a sala com calma.
Flynn a analisou de cima a baixo. Jovem. Rosto desconhecido. O desprezo no semblante mal se disfarçava. — Quem diabos é você? Acha que tem voz aqui?
Lucinda o ignorou.
Ela entrou na sala, e seus olhos pousaram na enorme tela de monitoramento na parede.
Dados em tempo real da ala de isolamento tremeluziam ali. Linha após linha de números alarmantes.
Ela falou, num tom neutro: “Qual é a frequência cardíaca do Barney agora?”
O pesquisador que vinha batendo na mesa respondeu por reflexo: “Cento e trinta e sete. E ainda subindo.”
O olhar de Lucinda ficou preso à tela por dois segundos. “Se continuarem esperando, ele vai morrer.”
Assim que ela terminou de falar, passos apressados ecoaram do corredor.
“Com licença—saiam da frente—”
Uma jovem irrompeu pela porta, com os olhos vermelhos e inchados.
Ela empurrou as pessoas que bloqueavam a entrada e correu até a tela de monitoramento. Quando viu aqueles números, seu rosto perdeu a cor.
“Onde está o meu pai? Onde ele está?”
Diana Lancaster. A filha do Barney. Mimada desde que nasceu.
Ela se virou de repente e cravou no diretor um olhar fulminante. “Por que vocês estão aí parados? Salvem ele!”
A testa do diretor se encheu de suor. “Srta. Lancaster, por favor, mantenha a calma. Seu pai foi infectado por um vírus muito incomum. Não podemos usar qualquer medicamento. Já entramos em contato com a sede. Há um consultor sênior em Starlight City neste momento — assim que ele chegar, vamos trabalhar juntos num plano de tratamento. Essa é a abordagem mais segura.”
“Esperar por ele?” A voz de Diana ficou estridente. “Esperar até o meu pai morrer? O Lancaster Group investe milhões neste instituto todos os anos — e é essa atitude que vocês têm quando algo dá errado?”
Os olhos dela estavam vermelhos, mas a voz ficou ainda mais cortante. “Vou dizer uma coisa: meu primo já está a caminho. Se meu pai morrer no seu instituto, é melhor vocês descobrirem sozinhos como lidar com as consequências!”
Primo.
Aquela palavra caiu como pedra na água. A sala inteira ficou em silêncio.
O chefe do Lancaster Group. Reginald.
O homem mais rico do mundo. A Morte do mundo dos negócios.
Só de ouvir aquele nome, as espinhas se arrepiavam.
A expressão do diretor oscilou por várias emoções.
Os olhos de Flynn se acenderam. A postura dele se endireitou na hora. “A Srta. Lancaster tem razão! Se algo acontecer com o Sr. Lancaster, algum de vocês consegue aguentar o que vem depois?”
Os pesquisadores que, instantes antes, estavam jogando culpa uns nos outros agora mantinham a cabeça baixa, sem ousar nem respirar alto demais.
O olhar de Diana varreu todos na sala, como se os rebaixasse. “Eu não quero saber de briguinha. Agora — imediatamente — deem medicamento ao meu pai!”
O diretor falou com dificuldade: “Mas, Srta. Lancaster, ainda não terminamos de cultivar a amostra do vírus. Usar medicamento às cegas traz um risco enorme…”
Diana soltou uma risada fria. “O equipamento de vocês falhou e infectou o meu pai, e agora vocês vêm falar comigo de risco? Se não tratarem ele agora, ele vai ficar em estado grave!”
Nesse momento, aquela voz calma falou de novo.
“Ela tem razão.”
Todo mundo congelou. Todos os olhares se voltaram para Lucinda.
Diana estreitou os olhos e avaliou a jovem desconhecida de cima a baixo. “Quem é você?”
Lucinda não olhou para ela. Seu olhar permaneceu na tela de monitoramento. “Isto é uma mutação viral de HSV-1. Período de incubação curto. Ele já está apresentando sinais iniciais de encefalite. Se continuarem esperando, mesmo que vocês salvem a vida dele, é provável que ele sofra dano cerebral irreversível.”
A sala ficou em silêncio por um instante.
O diretor ficou imóvel. Os pesquisadores também.
Mutação de HSV-1? Sintomas iniciais de encefalite?
Eles sabiam que o vírus era incomum, mas ninguém ousara fazer qualquer afirmação definitiva sobre as características específicas antes de os resultados da cultura voltarem.
E essa jovem deduziu isso só de bater o olho nos dados?
Diana franziu a testa e se voltou para o diretor, num tom acusatório: “Que tipo de gente aleatória o seu instituto deixa entrar hoje em dia? Essa ninguém acha que pode vir me dar lição?”
Alguns pesquisadores trocaram olhares. Um dos mais velhos se manifestou: “Senhorita, agradecemos a intenção, mas isso não é algo em que você deva se envolver. A condição do Sr. Lancaster é delicada. Precisamos ser extremamente cuidadosos com a medicação. Por favor, saia. Vamos discutir opções de tratamento quando o consultor sênior da sede chegar.”
“Isso mesmo.” Outro entrou na conversa. “Aquele consultor é um gênio na área. Assim que ele chegar, tudo vai ficar sob controle. Por favor, não complique as coisas.”
