3 Decisões
Data = 5 de setembro
Faz um ano inteiro desde a última vez que vi o rosto dela ao vivo. Eu, Damion Grimm, tenho 20 anos. Quase 21.
Lugar = São Francisco (casa do Tio John)
POV – Damion
Merda.
Ela tá ainda mais bonita do que eu lembrava — o que não deveria ser possível, mas tá aí.
Meus olhos acham ela do jeito que sempre acham. Instinto. Memória muscular.
Ela tá a poucos metros de mim, espremida entre o tio e a Kiara, e mesmo assim consegue dominar a sala inteira. Uma calça jeans justa, toda detonada, abraça aquelas pernas de corredora como se tivesse sido feita sob medida por um cara que idolatra coxas.
Combinada com uma blusa rosa-sujo, caída no ombro, quase transparente, escorregando o suficiente pra sugerir renda preta e encrenca. Nada espalhafatosa. Nada desesperada. Só… perigosa.
O sutiã valoriza o decote de seio médio, exigindo que eu levante e preste porra de atenção.
Mudo o peso do corpo, maxilar travado, lembrando meu corpo de que isso aqui é uma festa — a festa do meu melhor amigo. E ela é a irmãzinha dele.
Porra.
A lembrança não ajuda em nada. O sangue já tá se comportando mal, descendo pra uma região ao sul do meu umbigo, e eu realmente tento dar uma bronca no meu pau pra ele sossegar antes que eu fique sem dignidade.
Essa garota tá deixando foda de difícil não agir por impulso. Muito, muito difícil.
O cabelo dela tá solto hoje. Cachos macios escorrendo pelas costas, chegando naquela bunda apertada, quente pra cacete, pegando a luz — loiro queimado de sol, com fios de mel dourado e cinza, tudo misturado.
Jackson levanta o olhar do outro lado da sala — um lado do lábio dele se curva num sorriso irritante, tipo homem que sente cheiro de sangue. Eu conheço esse sorriso. Merda. Ele tem me vigiado desde que me pegou aquele dia com a irmã dele.
Me botou na linha de novo. Seguindo as regras.
Enrique passa voando com uma ruiva pendurada no braço, toda perna e confiança. Claro. Ele sempre teve um fraco por ruivas.
Eu sou mais do time das loiras. Na verdade, desde o incidente da casa mal-assombrada, tenho sido secretamente um cara de uma loira só.
— Tão bonitos, hein, povo! — ele grita.
Kiara analisa a garota. — E essa aí, qual é o sabor do dia?
Mel dá de ombros, sem se impressionar. — Sei lá. Parei de decorar nomes faz anos. — A boca dela puxa num sorrisinho julgador.
Eu engulo um sorriso. Deus me ajude, eu senti falta da boca dela.
— E cadê esse tal de Ren? — Tio John entra na conversa.
Esse nome desce atravessado. Azedo. Meu rosto se torce antes que eu consiga segurar.
Ele é um problema que eu preciso resolver o quanto antes. De um jeito ou de outro. Porque ela é minha.
— Ele vai se atrasar um pouco porque tá passando pra pegar uns amigos depois do trabalho. — Ela fala casual. Displicente. Como se não tivesse notado minha coluna enrijecer.
— E ele trabalha com o quê? — o tio insiste.
Ela dá de ombros. — Ele ajuda o pai no negócio de importação e exportação.
Aqueles olhos azul-papagaio sobem. Claros. Cruéis. Direto no estômago.
E o meu amiguinho quer começar a dançar o hula.
E ficar tanto tempo sem nenhuma garota não ajuda em nada no meu caso.
Aquelas janelas da alma exibem um combo absurdo de paradoxos — é como se ela estivesse em guerra com ela mesma sempre que eu tô por perto. Amor e ódio — os dois intensos, apontados pra mim. Ambivalência.
Lá está — aquele tranco na respiração que ela acha que ninguém percebe. Arrepio subindo no braço, se entregando. O pulso acelerado no pescoço. A expressão de merda nos olhos.
Ela força o rosto numa máscara de irritação, mas já é tarde.
Leio ela como se fosse gibi. Sempre li.
Ela tá com raiva. Na defensiva. Mas… não é imune.
Eu também não.
Gostar de mim não é o problema. Perdão — esse é o verdadeiro campo de batalha.
Confiança também. Vou precisar dos dois, e sei que não vai sair barato.
E a culpa é toda minha. Eu estraguei ela. Quebrei a confiança dela. Talvez o coração.
Mesmo assim eu sorrio. Devagar. De propósito.
Uma distração, pra desviar a atenção das minhas intenções selvagens.
Fecho as mãos em punho ao lado do corpo e travo o maxilar — tudo pra não agarrar ela e beijar aqueles lábios rosa e pecaminosos. Pra não enfiar as mãos por baixo da blusa, entrar naquelas calças e explorar aquela parte quente dela com que eu sempre sonho. Sonhos eróticos, molhados, que me deixam sem fôlego por horas. Toda. Santa. Vez.
Ah, como eu quero essa garota… Só pra matar essa fome desesperada que ela criou em mim.
Talvez transar com ela quebre o feitiço que ela tem sobre mim.
Meu pau dá um sinal de vida… então respiro fundo e pisco pra ela.
Ela solta um palavrão baixinho, um xingamento nada delicado — começando com C, e nomeando exatamente o lugar que tá esquentando agora e que eu quero provar — antes de levar a mão à boca, as bochechas ficando cor-de-rosa. Kiara e o tio dela encaram como se tivessem acabado de ver uma falha na matrix.
Valeu a pena.
“Foi mal, escapou”, ela se desculpa, enquanto me lança um olhar pegando fogo. Juro que ela tá me estrangulando na cabeça dela.
Gostosinho. Sei lidar com isso.
Registro um toque em algum lugar distante, mas meu cérebro tá desligado no momento — ocupado passando um slideshow bem indecente, estrelando só ela. Fazer duas coisas ao mesmo tempo, nesse ponto, é causa perdida. Porque toda a capacidade cerebral foi redirecionada pro sul, onde o pensamento crítico vai pra morrer.
Ela rompe o contato intenso entre nossos olhares. Tenho certeza de que um momento de coração partido acende naqueles olhos azuis de neném — interrompendo meu looping de pensamentos imundos e circulação sanguínea defeituosa. Mas é difícil ter certeza quando toda a lógica já evacuou o prédio.
Mesmo assim… em algum cantinho ainda lúcido da minha mente, concluo que a culpa pela tristeza dela é minha de novo, à medida que o cérebro começa, aos poucos, a voltar a funcionar direito.
Aí ela se vira.
Isso… isso sempre dói. Ver ela se afastando de mim é uma cena até familiar. Ela sempre é a primeira a correr. Virou a nossa dança. E, sim, a visão daquela bunda gostosa definitivamente não deixa mais fácil deixar ela ir.
Um sopro quente atinge meu ouvido. “Tava com saudade de mim, baby?”
Porra.
Eu tava tão imerso no momento que nem registrei direito a invasão indevida do meu espaço.
Chloe Ursinha. Maior vaca, psicopata, predadora, stalker que eu podia arrumar.
Eu travo, depois arranco o braço da Chloe de mim como se estivesse contaminado. “Que que você tá fazendo aqui?”, sibilo. “Isso aqui é uma festa privada.”
Ela sorri. Batom vermelho demais. Perto demais. “É o destino. O Ren é meu amigo de antigamente”, ela começa toda animada, “Ele vai casar com a loirinha que mora aqui.”
Só se for por cima do meu cadáver.
Ela se agarra de novo. A cabeça encostada no meu ombro.
Eu a sacudo pra longe com mais força dessa vez e disparo uma mensagem.
Damion: S1. PSB. Chloe.
Os moleques vão entender. Conhecem nossos códigos.
Psycho Stalker Bitch. Nível de seriedade 1. Em outras palavras… sério pra caralho.
Axel me salva antes que a coisa piore, arrastando a Chloe embora no meio do chilique. Eu sumo, procurando a Mel.
Ela tá com a tia Betty e a minha mãe.
Pego uma bebida e fico por perto, fingindo que não tô ouvindo. Não é meu momento mais nobre — em vez de estar aqui pro Logan — meu melhor amigo — tô espionando a irmã dele.
“E aí, como foi as férias?”, pergunta minha mãe, os olhos verdes varrendo a multidão até pararem em mim, encostado na mesa, contra a parede, tentando ser invisível. Os olhos dela se estreitam de leve. Eu faço uma cara e espero que ela entenda.
Entende. Graças a Deus.
Porque nem eu me entendo.
Passei boa parte da minha vida tentando entender por que eu sinto o que eu sinto. Ainda não sei exatamente, mas tenho uma ideia.
Aquele dia… 1º de março… foi um dia ruim pra mim, um dos piores. Eu não esperava encontrar ninguém naquela casa mal-assombrada. Então aquele grupo de crianças foi uma surpresa. Eu queria avisar do perigo… mas o caos explodiu antes que eu conseguisse.
E ali, no meio da loucura das crianças correndo, uma garotinha ficou parada no escuro, ferida, mas intacta — mais corajosa do que eu jamais fui. Nossos olhos se encontraram, e algo em mim acalmou. Como se a dor tivesse reconhecido o oposto dela. E pela primeira vez em um ano… eu senti alguma coisa.
Talvez seja aí que mora a atração. O fato de que, de algum jeito, ela faz doer menos. Por algum motivo, ela é a única que consegue.
“Foi ótimo. A gente viu tanta coisa. Fico muito feliz que a gente tenha ido”, ela diz, a voz dela flutuando no meio do barulho.
Eu também.
A distância fez o que o caos nunca conseguiu — me obrigou a sentar sozinho com a minha bagunça. Eu me abri no meio, cutuquei as partes quebradas, tentei decidir quais podiam ser consertadas e quais eram só… eu.
Não foi bonito. Nada de montagem de filme. Nada de luz de iluminação espiritual. Só sangue, casca grossa e verdades difíceis.
Mas agora eu sei.
Na real… eu sempre soube — só fui covarde demais pra admitir.
Mas agora cansei de esperar.
Por ela, vou quebrar todas as regras que eu mesmo escrevi pra me manter seguro. Vou entrar direto no inferno, apertar a mão dos meus demônios e desafiar cada um deles a tentar alguma coisa comigo.
Vou proteger ela de qualquer coisa.
A única coisa que eu não sei é: quem diabos vai me proteger?
Jackson chega perto. Perto demais. Afiado demais. Ele se apoia na mesa ao meu lado, os olhos grudados no mesmo ponto que os meus… na irmã dele.
Porra.
Viro meu drink.
Mas querer uma coisa e conseguir são dois bichos bem diferentes — e é aí que mora o maldito problema.
Isso não é um simples pega e foge. É frágil. Complicado. Cheio de armadilhas. Um passo em falso e tudo explode na minha cara.
Vou ter que apostar. Alto.
Dou uma olhada de lado pro homem ao meu lado, o canto da boca repuxando.
É… talvez eu saia vivo dessa. Tecnicamente. Mas não existe universo em que eu saia ileso. Não com um irmão como ele. Costelas quebradas, na melhor das hipóteses. Velório, na pior.
A maldição dela.
Quase rio dentro do copo.
Fui eu que comecei essa merda. Achei que era esperto. Achei que era intocável. Agora tô prestes a entrar nessa de braços abertos, e o Jackson vai ficar mais do que feliz em garantir pessoalmente que a lenda continue viva.
Dizem que o karma é uma vadia. Descobri que ela também é incrivelmente paciente.
Giro o copo entre os dedos, o frio me trazendo de volta, a queimação do álcool assentando lá no fundo do estômago. A sala vibra ao meu redor — risadas, música, vida — enquanto tudo dentro de mim fica estranhamente imóvel.
Ainda dá pra voltar atrás. Eu não vou.
É isso. A linha na areia. O momento que decide se eu continuo me escondendo ou finalmente vou com tudo.
Inferno, levei uma década inteira pra chegar aqui — pesando, duvidando, me estraçalhando por dentro até ter absoluta, indiscutível certeza.
E agora eu tenho.
Ergo o copo, bebo devagar e o coloco de volta na mesa com uma calma silenciosa.
Agora ou nunca.
“O que tá rolando com você ultimamente?” Os olhos azuis dele não só me encaram — eles me dissecam. Como bisturis, arrancando camada por camada que eu me esforço pra manter seladas.
Jackson sempre foi assim. Detector de mentira humano. Farejador de papo furado. Ninguém esconde nada dele por muito tempo.
Exceto que… desta vez eu tenho que esconder.
Baixo o olhar, estudando o chão como se ele pudesse me dar alguma resposta. Minha mandíbula trava. Preciso dizer alguma coisa — qualquer coisa — antes que o silêncio me entregue. Mas meu cérebro tá dando voltas, tropeçando em mina terrestre.
Porque eu não posso dizer a verdade.
Não posso dizer que tô pensando em quebrar as regras. As minhas regras. As que me mantêm são. As que me mantêm respirando.
E com certeza não posso dizer que tô pensando em comer a irmã dele — ou que meu autocontrole tá pendurado num fio gasto com o nome dela bordado.
“Você ainda tá mexido por causa do acidente?” ele pergunta, sem tirar os olhos do meu rosto.
Não.
Isso já sarou. As cicatrizes, os ossos, os pesadelos — tudo arquivado. Controlado.
“Sim”, digo em vez disso.
A mentira cai pesada entre nós.
Ele sabe que não é verdade. Ele sempre sabe. A expressão dele mal muda, mas o silêncio se estica, denso e perigoso. Igual à calmaria bem antes de alguém levar um soco.
Se ele sacar agora, eu tô morto. Figurativamente. Possivelmente literalmente. E qualquer chance que eu tenha de chegar a um quilômetro da Mel evapora na hora.
Engulo seco. Não posso me dar ao luxo de errar. Não com ele. Não com ela.
“Ei”, Luke aparece, arrastando a Mel pela mão como se tivesse encontrado um tesouro enterrado. Meu irmãozinho tem só nove anos — quase dez — mas já tem o gingado de futuro mulherengo. “Você já conheceu essa menina?”
“Essa é minha irmã, parceirinho”, Jackson diz. “Nem pensa nisso, ou eu vou ter que te matar.” Ele tá falando com o Luke, mas os olhos diabólicos tão em mim.
Merda. Ele sabe. Ele sabe pra caralho.
“Mas ela é muito irada”, Luke faz biquinho, todo inocência de olho arregalado e zero vergonha. O moleque tem bom gosto. Irritantemente bom gosto. Igual ao do irmão.
“Tipo, olha pra ela.”
Mel ri — suave, desprevenida — e bagunça o cabelo escuro do Luke.
“E ela cheira a doce.”
É. Isso basta.
Só de olhar pra ela, um zumbido baixo atravessa meu corpo, como se alguma coisa estivesse se ajustando na frequência dela. E ela realmente cheira ao paraíso — açúcar, calor e encrenca. Eu quero essa garota mais do que qualquer outra coisa que anda por esse planeta verde e injusto.
Ela sacudiu o meu mundo na primeira vez que eu vi ela.
Mas foi no armário dela que ela acabou comigo de vez — me pegou pelo saco sem nem encostar em mim. E nunca mais largou.
Eu tentei me livrar dela. Deus sabe que eu tentei. Dez anos tentando.
Fiquei longe. Fiz o bom moço. Tentei transar até tirar ela do meu sistema. Me afoguei em corrida, velocidade, disciplina e distância. Falei pra mim mesmo que ia superar.
Spoiler — não superei.
Eu fui paciente. Heroicamente paciente. Mas acho que minha autocontenção acabou de pedir aposentadoria antecipada.
O Luke puxa a Mel pra frente. Estala uma faísca quando o braço dela roça no meu. O calor sobe pela minha coluna e se instala lá embaixo. Eu respiro fundo, tentando segurar.
“Ei, Jackson!”, o Enrique grita do bar. “Vem beber uma com o aniversariante.”
O Logan já tá bamboleando como se a gravidade tivesse alguma coisa pessoal contra ele.
“Vem?” o Jackson pergunta.
Eu balanço a cabeça. Ele vai indo, levando embora um pouco da tensão, como um presente que eu nem sabia que precisava. Eu não vou atrás na mesma hora.
“Então”, eu digo, a voz me traindo com uma leve falhada, “como é que você tá? Curtiu o ano longe?”
Eu tô precisando desesperadamente de um drink. Talvez três.
“Tô ótima”, ela diz, toda doce. “Um ano longe de VOCÊ e dos meus irmãos — melhor fase da minha vida.” Ela sorri. O sorriso é afiado nas bordas. E sim… ela com certeza deu ênfase no VOCÊ.
Eu me inclino, chegando com a boca perto do ouvido dela.
“E aí… você pensou em mim?”
Ela arfa.
“Pensei.”
A palavra escapa antes que ela consiga segurar. Os olhos dela se arregalam de horror. “Não!”, ela solta, tentando voltar atrás na marra. “Quer dizer — não!”
Eu arqueio a sobrancelha e dou um sorriso que eu sei que deixa ela maluca. Na hora, ela faz aquela cara de quem tá considerando me matar. Com certeza pensando em me estrangular.
“Seria bem mais erótico”, eu murmuro, a voz mais áspera do que eu planejava.
“Hã?” Ela pisca.
“Me enforcar na vida real”, eu digo de leve, “é melhor do que só sonhar com isso.”
Os olhos dela se escancaram.
“É um dom”, eu acrescento, prestativo. Eu adoro provocar ela.
“Se você namorar meu irmão frouxo, você pode ser minha irmã”, o Luke se mete, com cara de cachorro pidão, todo esperançoso. “Por favor. Ele manda mal com mulher, mas até que é um ser humano decente quando você passa por cima de toda a merda dele.”
“Eu não mando mal”, eu digo. Eu só mantenho minha vida sexual longe de casa. Tá nas minhas regras. E sim, a imprensa exagera. Na maior parte do tempo. Às vezes.
“E aposto que esse irmão frouxo ainda consegue chutar a sua bunda”, eu completo, com um meio sorriso. “E eu não tenho dificuldade nenhuma pra ficar com mulher.”
“Isso dá pra ver”, ela rebate, aquele julgamento familiar brilhando no rosto.
“Claro”, o Luke fala. “Eu acredito nisso quando você chamar a Mel pra sair.”
Ele faz uma careta pra ela, todo cheio de si, e depois se vira pra mim.
“Vou ver isso aí.” Eu dou uma piscada.
“Amarelão!” O Luke faz uma careta pra Mel com um sorrisinho sexy de ‘eu te disse’, e depois me encara num desafio, peito estufado, queixo pra cima.
“E você tá tão ferrado”, eu aviso.
O Luke sai correndo, aponta pros próprios olhos e depois pra mim — “tô de olho em você”. Eu passo o dedo pelo pescoço em resposta.
“Pirralho metido pra cacete”, eu rio.
“É de família”, ela devolve na lata.
“É”, eu digo. “Assim como o ótimo gosto pra mulher.” Eu hesito, coçando a nuca — de repente me sentindo com doze anos de novo. “Então… você vai?”
A voz dela abaixa. “Sair com você?”
Meus pulmões esquecem como é que faz pra funcionar. Ela endireita os ombros, o peito se ergue — e aquele decote definitivamente não ajuda na minha concentração.
“Eu não sou mais aquela garotinha ingênua. E com certeza não sou o seu tipo de garota.”
Ela mexe as sobrancelhas, sorrindo como se já tivesse ganhado.
Ah, minha pobre docinho. Ela não podia estar mais enganada. Ela não é só o meu tipo — ela é o molde.
“E que tipo é esse?”
“Pra começar, todo mundo já sabe que o senhor MotoGP não pega loira. Eu não vou pintar meu cabelo de castanho pra entrar no seu catálogo de tiete.”
Tá. Sim. Eu só durmo com morenas.
Mas tem um motivo. Um motivo bem forte.
“Talvez”, eu corto baixinho, antes que ela acerte o próximo golpe, “você não devesse julgar o que você não sabe de verdade.”
Minha boca tá seca. Meu pulso bate alto.
Isso tá sendo mais difícil do que eu esperava.
Como diabos eu convenço ela de que eu não sou mais o cara que ela pensa que eu sou — sem quebrar todas as regras pelas quais eu sempre vivi?
