4 Não sei o que estou fazendo

Data = 5 de setembro

Lugar = São Francisco (casa do tio John)

POV – Melaena

Juiz? O que é que eu não sei?

Ele tá mesmo tentando bancar o inocente?

Como exatamente ensaios semanais em tabloides, cheios de mulheres penduradas nele, se traduzem em virtude incompreendida?

Eu encaro os olhos verdes confrontadores dele, meu cérebro disparando teorias como pipoca estourando.

Ele realmente pediu pra eu não julgar as aventuras dele? Eu tenho cara de ser o tipo que vive julgando?

“Eu não tô te acusando”, digo docemente — o que é sempre mentira, momentos antes de enfiar a faca — “mas as suas peripécias com o sexo feminino são um argumento final bem convincente. Você pode dizer que eu não sei de tudo… e é, tecnicamente isso é verdade… mas as provas dos seus supostos casos estão disponíveis pra literalmente qualquer pessoa com Wi‑Fi.”

Eu dou uma risada pelo nariz. Bem alta.

“Seu rosto tá espalhado pela internet pelo menos uma vez por semana — sempre com uma MORENA diferente sorrindo do seu lado.”

E aí está.

O padrão.

Cabelo escuro. Sempre. Muito bem definido o tipo dele.

E eu com certeza não sou.

Ele esfrega o maxilar enquanto me observa por baixo dos cílios pretos espetados. Tem uma sombra de barba, como se não tivesse tido tempo de fazer a barba.

Não era pra isso ser tão malditamente sexy.

Em algum momento nos últimos dez anos, ele cruzou a linha de garoto pra homem. E ali, em pé — olhar afiado, temperamento preso na coleira, mas querendo escapar — ele é irritantemente magnético. Mesmo puto, é sedutor de todos os jeitos possíveis.

“Sem contar,” continuo, já embalada, “que eu mesma já experimentei essa sua arte diabólica de amar e largar. Duas vezes.” Levanto dois dedos. “Então, Meritíssimo, o réu é considerado culpado de ser um canalha parte-corações certificado. Caso encerrado.”

Dou pra ele o meu melhor sorriso de vitória-em-batalha-quebra-corações de todos os tempos. Ele dura exatamente meio segundo.

Porque o calor some dos olhos dele — não é raiva, nem desafio — é outra coisa, mais quieta. Arrependimento. Dor. Como uma porta batendo em algum lugar lá dentro.

Que diabos?

Por um momento, a gente só fica ali parado, se afogando no olhar um do outro. Quer dizer, eu tô me afogando. Não sei ele.

Os olhos dele são ridículos — aquele verde profundo, perigoso — tipo Tinta Látex Bruxa Má — pra ser precisa. Eu sei, porque pintei minha cômoda exatamente dessa cor no último ano do colégio. A cômoda onde guardo minha calcinha.

Porque eu gosto de verde. E o meu verde preferido, por acaso, é a cor dos olhos dele.

“Damion, vamo tacar umas bolas!” o Logan grita, passando e quebrando o momento.

Aí um braço se enrola na minha cintura por trás. Um beijo pousa na minha bochecha.

Eu levanto o olhar pros olhos castanhos, quentes, do Ren. Olhos que não me causam absolutamente nada.

Nada.

Definitivamente não é uma cor que eu usaria na gaveta das minhas calcinhas.

“Oi, gata, foi mal o atraso.”

A expressão do Damion endurece na hora — fria, fechada, impenetrável.

Eu odeio que o Ren me chame de gata. Me lembra aquele filme do porquinho falante e, por mais que o porco fosse fofo, eu não sou gado.

A morena que eu tinha reparado antes aperta mais o braço em torno do Damion, exibindo um sorriso potente e territorial.

“Ah, finalmente,” ela diz, toda dura, como se o batom vermelho-caixa-de-correio fosse rachar se ela relaxasse. “Agora estamos todos juntos.”

Ela é bonita, objetivamente — um chanel escuro bem certinho, pele impecável, alta e cheia de curvas. E muito comprometida com a cor vermelha — vestido, boca, unhas… tudo gritando perigo vulgar.

“Ah, onde é que foram parar meus modos?” ela gorjeia, com os olhos afiados por trás do sorriso.

Não gosto dela. Me lembra aquela aranha gigantesca que o Jackson já teve — o mesmo olhar predador.

“Eu sou a Chloe”, ela diz, se virando pra mim, depois fazendo biquinho pra cima pro Damion. “Amiga do Ren da época da escola e…” Ela faz uma pausa dramática. “Esperançosamente… em breve, futura esposa desse homem.”

Puta. Que. Pariu.

Eu encaro o Damion com os olhos enormes, esticados, mas o rosto dele tá vazio. Vazio tipo caixa de papelão.

Ele vai mesmo casar com ela?

Algo afiado atravessa meu peito. Eu mordo forte o lábio, piscando rápido pra segurar a ardência repentina nos olhos.

Ren estende a mão. “E aí, cara. Eu sou o Ren — n.a.m.o.r.a.d.o da Mel.”

Posso estar enganada… mas tenho quase certeza de que ele alongou essa última palavra de propósito.

Damion hesita. Só uma fração de segundo. O olhar dele se prende no do Ren, os próprios olhos escurecendo, um fogo acendendo lá dentro. Ele se solta das garras de unhas vermelhas, se vira e sai andando sem dizer uma palavra.

A mão do Ren fica lá, esticada no ar, sem resposta.

O sorriso da Chloe fica ainda mais tenso. Se o rosto dela enrijecer mais um pouco, vai se despedaçar.

E, num piscar de olhos, ele some.

“Gente boa, ele, como sempre.” Ren faz uma careta. É, essa “simpatia” dele com certeza vai me levar pro álcool, pros machos de aluguel e pro assassinato casual de roedores com pouco cérebro!

“Eu não sabia que você conhecia ele”, eu digo.

“Ah, eu não conheço de verdade”, Ren dá de ombros. “Mas ele tem fama. E gosta de usar.”

Fico me perguntando o que exatamente isso quer dizer. Provavelmente o de sempre — fama, charme, mulherada fazendo fila como se fosse liquidação. Não que o Damion precise de ajuda. E, ironicamente, eu sei com certeza que ele odeia a parte da fama mais que tudo.

As garotas? Nem tanto.

Igual ao Logan. Jackson. Enrique. Deve ser genético.

“Vou lá achar o Jason”, Ren diz. “Você e a Chloe podem se conhecer melhor. Vai que acabam virando melhores amigas.”

Eu sorrio docemente.

É. Nem ferrando.

Assim que ele some, eu me despeço com o que espero que pareça educação e vou atrás de outro drink frutado — com ênfase em outro. Como o Ren aguenta aquele povo, eu não faço ideia. Já nem sei mais quem é pior — o Jason ou a Chloe.

Mas eu tô pendendo pra segunda opção. Ela ainda tá rondando a mesa onde eu deixei ela.

Eu não vou voltar.

Não. Eu preciso da Kiara. Agora. Pra apoio emocional. Ou pra ter um corpo atrás do qual me esconder.

Dou uma geral no salão com os olhos. Nada. Talvez na sala de jogos.

Eu me esgueiro entre os convidados bêbados, desvio de um cotovelo perdido e entro na caverna masculina do meu tio.

E lá está ele.

Damion.

Sozinho. Jogando sinuca.

“Você tá me seguindo?” eu acuso, apontando o dedo.

Ele nem parece abalado. “Posso perguntar a mesma coisa. Eu cheguei primeiro.”

Aquele sorrisinho de canto de boca. Juro que foi geneticamente projetado pra irritar mulher.

Ele tá de jeans desbotado que não tem o menor direito de vestir tão bem assim. Quando ele se inclina pra dar uma tacada, a calça desce um pouco — o suficiente pra revelar uma faixa da cintura laranja da cueca CK e um pedaço indecente de pele lisa.

Dis-tra-ção. Mas-cu-li-na. Em pessoa.

“Você viu a Kiara?”

“Não sou babá dela.”

Meu Deus. Eu ainda vou presa um dia, e vai ser por homicídio.

Ele encaçapa a bola direitinho na caçapa do canto.

Antes que eu possa retrucar, alguém entra cambaleando, agarrado na parede como se ela estivesse tentando fugir dele.

Jason.

Demora uns segundos — e várias piscadas — pra ele perceber que eu existo.

“Ôôô… oi, coisa linda”, ele arrasta as palavras, tentando ficar ereto. Não consegue. Em vez disso, desaba pra frente, com a mão indo parar exatamente onde não deveria.

Tudo acontece muito rápido.

“Eu te avisei”, um rosnado baixo e furioso explode — e de repente o Jason tá voando. Ele se estampa na parede com um baque de estremecer os ossos.

Damion agora tá entre a gente. Sólido. Tenso. Perigoso.

Jason se levanta aos tropeços, com a raiva e o álcool chacoalhando juntos. Ele aponta um dedo trêmulo na cara do Damion.

“Eu não tenho medo (hic)… de você mais.” Ele enrola a língua e, com uma coragem de bêbado, empurra o Damion com as duas mãos.

Damion não se mexe. Nem um centímetro.

“E você não pode (hic)… me dizer o que (hic)… o que fazer…” As palavras saem todas emboladas.

Jason desfere um soco torto. Damion se abaixa como se não fosse nada.

“Cansei.” Um soco. Limpo. Preciso.

Jason desaba como um saco de arrependimentos, escorregando pela parede até virar um amontoado no chão.

Silêncio.

Dou um passo pra trás — bato na mesa de sinuca — e perco o equilíbrio.

Mãos firmes agarram minha cintura, me segurando. Me puxando contra ele.

“O que foi isso?” eu solto. “Você simplesmente socou ele! Não que eu não tenha gostado — porque eu gostei — ele mereceu totalmente.”

Eu tô tagarelando.

O sorriso dele muda. Mais lento. Mais escuro. Totalmente consciente do efeito que tem.

Aquela maldita cara de FERA. Como se ele soubesse exatamente como meu corpo reage a ele e achasse isso bom demais.

Uma voz na minha cabeça grita corre. Meu corpo ignora solenemente.

“Para com isso”, eu rosno.

“Parar com o quê?” O sorriso dele fica letal. E aqueles malditos olhos de vampiro… talvez eu devesse começar a usar verbena.

“Essa coisa que você faz com os olhos. Pode até funcionar com outras garotas, mas eu acho irritante.”

Irritantemente devastador.

“Sério?” Ele parece se divertir. Muito.

“Sério. Nem todo mundo acha você gostoso.”

O sorriso aumenta. Ele sabe que eu tô mentindo. Saber disso me incomoda mais do que a mentira em si.

“Bom saber”, ele murmura. “Vou adicionar isso no meu discurso de autoconfiança.”

Então ele me puxa mais pra perto. Perto demais.

Meu peito se esfrega no dele. Estou dolorosamente consciente de cada ponto de contato — do meu coração batendo, da minha respiração, do calor se enrolando lá embaixo na minha barriga.

Ele me prende de leve contra a mesa de sinuca, o quadril se mexendo só o suficiente pra deixar meus joelhos fracos.

É isso — isso — que eu vinha sonhando.

Ser consumida. Perder o controle. Faíscas estourando em cada nervo.

Por que tem que ser ELE?

Os olhos dele escurecem — encrenca e perigo embrulhados juntos — e isso é apavorante e intoxicante ao mesmo tempo. Ele coloca meu cabelo atrás da orelha, os dedos roçando no meu pescoço.

Um arrepio rasga meu corpo.

Um som escapa antes que eu consiga segurar. Eu mordo meu lábio com força.

Ele inspira fundo, a testa encostada na minha.

— Você… Mel Blackburn, é minha — ele murmura. — Você só porra nenhuma sabe o que tá fazendo…

— Mel? — a voz da Kiara corta do batente da porta. — Você tá aqui?

Damion me solta na mesma hora.

A ausência repentina bate mais forte do que o contato. Eu cambaleio, me agarrando na beirada da mesa de sinuca pra conseguir ficar em pé — com frio e fervendo ao mesmo tempo.

Meu cérebro tá chiando que nem painel elétrico em curto.

Eu quase beijei o diabo.

E agora meu corpo tá eufórico, destruído… e um pouco apavorado.

Drogo do hipotálamo.

Kiara entra bufando, meus irmãos logo atrás. Basta um olhar pro Jason largado na parede como um casaco jogado — e ninguém sequer pisca.

Nenhuma pergunta. Nenhuma preocupação.

Damion passa por todos nós empurrando, sem dizer uma palavra, a energia dele afiada o bastante pra cortar pele.

Na saída, ele tromba com Ren e Chloe.

Sem aviso, agarra o Ren pela gola e puxa ele pra perto.

— Não tenho medo de você, cara — o Ren rosna, embora a postura dura entregue ele.

A voz do Damion continua assustadoramente calma. — Devia ter… CARA. — Ele solta devagar, quase educado, tirando um pó imaginário do ombro do Ren, como se estivesse arrumando uma bagunça. — Devia mesmo.

Aí — casual como o pecado — ele dá uns tapinhas na bochecha do Ren antes de se afastar.

Chloe sai correndo atrás dele.

— Deixa comigo — Axel resmunga, já indo atrás. Não faço ideia do que é esse “comigo”, mas quando o Axel fala isso normalmente significa que alguém vai ser “resolvido” discretamente.

— Que diabos foi aquilo? — Kiara pergunta.

— Acho que ele não curte babaca — Jackson diz seco, com os olhos grudados em mim. Eu ainda tô agarrada na mesa de sinuca como se fosse a única coisa sólida no universo, as pernas de gelatina.

— Deve ser — Logan murmura, lançando um olhar pro Jason com um meio sorriso sombrio antes de voltar pra mim.

— Tem alguma coisa muito errada com aquele cara — Ren rosna, me segurando pelos braços, a voz estridente de tanta raiva acumulada. — E eu quero que você fique longe dele.

O ódio queimando nos olhos dele revira meu estômago.

Eu quero dizer que ele não manda em mim — mas minha voz ainda não voltou.

— Talvez VOCÊ seja de quem ela devia ficar longe — Jackson rosnou, dando um passo à frente. O olhar dele corta vidro.

— E se eu ouvir você falar com a minha irmã assim de novo… — Ele não termina, mas a promessa nos olhos é cristalina.

Ren engole seco. Solta minhas mãos. Não diz nada.

— Ele é gostoso pra cacete. — Enrique olha pra gata nos braços como se não soubesse que ela era capaz de falar.

— Você ouviu isso? — Enrique repete, fingindo anunciar pra sala toda. A ruiva no colo dele sorri radiante pra ele e faz biquinho pedindo beijo.

— Com ciúmes? — ela provoca.

Nem um pouco. Enrique beija ela mesmo assim — só porque sim — mas não responde. Se ela conhecesse ele de verdade, saberia que ciúme não existe no DNA dele. Esses Garotos de São Francisco não sentem ciúmes.

— Ela não tá errada — Kiara emenda. — Ele é com certeza um dos homens mais bonitos vivos. — Ela passa o olhar pelos meus irmãos. — Mas é tão disfuncional quanto o resto de vocês.

Logan só faz biquinho.

— Vocês… vocês são aquele tipo de cara… daqueles que a sua mãe manda você evitar — a ruiva comenta, pensativa. — Aqueles que você sabe que devia ficar longe — mas não consegue. Aí seu coração é despedaçado em pedacinhos minúsculos.

Ai. Verdade dolorida.

— Exato! — Kiara aponta pra ela. — Putz, garota — talvez você não seja tão burrinha quanto eu pensei.

A ruiva franze a testa. — Valeu… eu acho?

— E aí, mana, você acha ele bonito? — Jackson, como sempre, precisa mexer o caldeirão mesmo vazio. Todos os olhares viram pra mim.

Minha boca seca. Meu pulso dispara. A raiva ferve, quente e rápida.

— Quem. Diabos. Se. Importa!

O sorriso do Jackson é lento e inquietante, tipo o de um serial killer que acabou de achar a próxima vítima.

Não tô nem aí. Tô ocupada demais sendo tomada pela raiva — principalmente de mim mesma por ficar tão abalada, e muito de Damion por me fazer sentir como se meus órgãos estivessem dando pane.

Disparo em direção ao bar antes que alguém possa fazer as perguntas óbvias, tipo — Por que você se importa tanto? Ou pior — Por que seu corpo reage assim?

Ou, pior ainda — Por que meu cérebro despeja um coquetel de hormônios toda vez que ele chega perto?

Acelero o passo, falando comigo mesma no caminho — “Eu não sei o que eu tô fazendo… a cara de pau desse homem!”

“O babaca se diverte com isso. Ele adora mexer comigo, entrar debaixo da minha pele, me ver desmoronar. Dizer que eu não sei o que eu tô fazendo.”

“Ah, desculpa por não ser um desastre completo que se joga de cabeça em qualquer pau.” Não que eu tenha visto muitas opções de perto. Na verdade, não vi nenhuma.

“Você tá falando com quem?” O barman me encara como se eu tivesse perdido o juízo.

Talvez eu devesse simplesmente ficar de boca fechada. Já fui humilhada o bastante por uma noite, muito obrigada.

Pego um drink. Eu preciso disso.

Dou um gole longo, a doçura gelada descendo pela minha garganta, tentando apagar o incêndio que tá queimando no meu peito. Ren se aproxima e me puxa pra perto dele. Os braços dele são firmes, conhecidos. Seguros. Apoio a testa no peito dele e ouço o coração batendo — constante, simples.

Talvez eu devesse dar uma chance pra ele.

Pelo menos ele não é um psicopata emocionalmente travado com talento pra destruir mulher por esporte. Pelo menos ele não parece alguém que coleciona corações partidos como troféus, esmaga por diversão e enterra lá no fundo do quintal enquanto faz mais um risquinho na cabeceira da cama.

Que nem o Damion.

“Eu preciso que você fique longe daquele cara”, Ren murmura, os dedos passando pelo meu cabelo.

Era pra isso me acalmar.

Não acalma. A raiva só aperta mais, ferve mais alto.

“Isso é uma ordem?” rosno, me desvencilhando dos braços dele.

“Você não conhece ele”, ele rebate, entre os dentes.

Ah, eu acho que conheço ele bem o suficiente.

“Ele não bate bem da cabeça.”

Verdade. Ainda assim, isso não quer dizer que eu goste de receber ordens. Minha boca se abre, pronta pra soltar uma bomba nuclear.

“Acho que você não sabe da maldição?” A voz dele baixa. Isso me congela na hora. Empurro ele um pouco pra trás e levanto o rosto pra encarar o dele.

“Minha maldição?” Eu não achava que ele sabia disso.

Agora ele não encara mais meus olhos. Quase… envergonhado.

“Você acredita nisso?”

“Não!” ele solta rápido demais. “Não é uma maldição. Foi o Jason que me contou. O Damion inventou isso. Pra afastar os caras. Pra garantir que ninguém nunca chegasse perto de você. Aparentemente, você era —” ele hesita, “— e ainda é — proibida.”

As palavras estalam como um tapa.

Damion fez O QUÊ?

Ele é o motivo da minha vida social ter morrido? O motivo dos meninos lembrarem de dever urgente toda vez que eu sorria pra eles? O motivo da minha vida amorosa parecer uma cidade fantasma?

E ELE ainda tem a audácia de dizer que EU não sei o que tô fazendo? Sendo que foi tudo obra dele.

“O Damion é a maldição”, eu sussurro, mais pra mim mesma.

“Bom… é. Mas fica tranquila”, Ren diz, estufando um pouco o peito. “Eu não tenho medo dele.”

“Devia ter”, resmungo, sem pensar.

Ren faz uma cara estranha, mas a minha atenção já foi embora.

Vejo o Damion encostado na parede, braços cruzados, letal e indecentemente lindo. A morena tá pendurada no braço dele de novo, mas ele olha através dela, como se ela fosse mobília.

Enrique surge do nada e arranca a Chloe de lá sem nenhum esforço. Ela resiste, se agarra — mas ele não cede.

Por que todos os garotos tão tratando ela como se fosse material tóxico?

Ren acompanha meu olhar. Damion olha direto pra gente e pisca — escancarado, presunçoso, irritante.

Viro o rosto, o maxilar travado. Sorrisinho de menino, uma ova. Não tem nada de inocente nele.

“Você tá apaixonada por ele?” Ren pergunta baixinho.

“Não!” Eu respondo rápido demais.

Ele baixa os olhos pra mim, franzindo a testa.

“Eu odeio ele”, acrescento, na defensiva. O que é verdade.

Só que… meu corpo não recebeu o memorando. Meus hormônios traíras não confirmaram presença na festa do ódio. Minha mente diz corre. Meu coração diz perigo. Minha glândula idiota grita ele.

Damion se afasta da parede e some no meio da multidão.

Ren murmura que precisa ver como o Jason tá e se manda.

Fico ali sozinha, inspirando e expirando.

De novo. Tentando lembrar como é se sentir normal.

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