5 Um perseguidor
Data = 5 de setembro
Lugar = São Francisco (casa do Tio John)
POV - Melaena
Nem por um único, miserável segundo me passou pela cabeça que o Damion pudesse ser a causa da minha maldição.
Por que ele faria isso? Por que ele transforma em missão pessoal sabotar a minha existência? Juro que esse homem deve ser criogenicamente congelado por dentro — porque ninguém com um coração funcionando consegue ser tão cruel assim, com essa naturalidade. Você não destrói a vida de alguém por esporte, a menos que tenha alguma coisa dentro de você profundamente, irreversivelmente quebrada.
Eu preciso de respostas. Respostas de verdade. Ele me deve uma explicação. No mínimo.
Meu celular vibra na minha mão, e meu pulso dispara feito idiota. Por um segundo patético, eu torço pra que seja ele — antes da realidade me dar um tapa na cara — o Damion nem tem o meu número.
Mesmo assim, a decepção vem do mesmo jeito.
Número desconhecido. Eu franzo a testa e deslizo o dedo.
Número privado: Oi, Melaena, espero que esteja curtindo a festa
Mel: Quem é?
Número privado: Me chama de D
Mel: O que você quer?
Número privado: Vingança. Mas, principalmente, eu quero você!
Mel: Quê?
Número privado: Você é minha, gata!
Mel: Vai catar coquinho!
Número privado: Ah, baby, eu não vou a lugar nenhum. Você é minha. 😘
Eu pisco pra tela. Uma vez. Duas.
Ok. Ou eu tô sendo stalkeada por um psicopata de quinta categoria… ou alguém tá realmente comprometido em arruinar a minha noite. Meu estômago dá um nó, a irritação começa a borbulhar, mas eu empurro pra baixo. Sinceramente, eu não tenho estrutura emocional pra testosterona anônima intoxicando a minha caixa de mensagens.
Aí cai a ficha.
Ah. Ah, não.
D. Ameaças. Você é minha.
Damion.
Porque claro que é ele. Claro que o universo não ia perder essa oportunidade. O nome dele começa com D, os hobbies incluem intimidação e guerra psicológica, e eu já estabeleci que ele é, no mínimo, setenta por cento desequilibrado.
É isso. Caso encerrado. Psicopata certificado.
Enfio o celular no bolso antes que eu atravesse a sala voando, à procura da Kiara. A gente precisa confrontar ele — agora — antes que eu perca o pouco de autocontrole que ainda me resta.
Quando eu vou me arrastando de volta em direção à sala de jogos, uma voz feminina me faz parar seca. É a da Haley.
— Vejo que a Chloe tá aqui? — Ao ouvir esse nome, eu gelo e me encosto casualmente na parede, de repente muito interessada na textura da tinta. Mas meus ouvidos estão trabalhando em modo turbo.
— Tá — o Damion responde. Em seguida vem um suspiro pesado, daquele tipo que parece ensaiado. — Aff, mãe… o que é que eu faço com aquela garota?
Eu dou uma espiada pela quina da porta, me abaixando como o Jackson me treinou — porque aparentemente agora eu sou uma bisbilhoteira profissional.
— Eu achei que você tinha decidido ir atrás dela.
— Eu decidi. Não é tão simples assim. — Outro suspiro. Mais longo dessa vez. — Existem regras…
— Ah, sim — a Haley dá uma risadinha. — As SUAS regras. Pena que você ignorou todas as outras regras enquanto crescia. As minhas regras. As regras da escola. As regras da Fórmula Grand Prix.
Ela não tá errada. Eu dou uma risadinha silenciosa.
— Tá, tudo bem. Esquece as regras — ele diz. — Mas eu vou me machucar. Tipo… fisicamente. O diabo provavelmente vai me matar dessa vez. — Ele realmente ri.
Que. Porra. É. Essa.
Será que ele amaldiçoou a Chloe também? É isso que ele faz? Sai distribuindo trauma emocional com um acompanhamento de desgraça sobrenatural?
— Ai, meu pobre filho — a Haley diz num tom seco. — Talvez você devesse se apaixonar por outra pessoa. De preferência uma menina que não seja parente de Satanás. — Ela tá claramente tirando sarro dele.
Ele lança um olhar fulminante pra ela.
— Não existe outra garota pra mim. — As palavras caem pesadas. Sólidas. Inquestionáveis.
Meu peito aperta.
Fico olhando pra ele, atônita. Damion Grimm — ameaça certificada, destruidor de corações profissional — apaixonado.
E não é só um “gostar” de leve. Ele tá perdido. Ferrado. Sem salvação.
Pela Chloe.
Sério? Por ela?
Uau. O gosto dele é realmente duvidoso.
— E eu machuquei ela — ele continua, a voz mais baixa agora. — Eu quebrei a confiança dela muitas vezes. Não ia me surpreender se ela realmente me odiasse. — Ela com certeza não parece odiar tanto ele assim.
Mas isso… não soa falso. Não tem pose. Não tem sorrisinho de canto de boca. Só arrependimento.
Ótimo. Agora eu tô desconfortável e emocionalmente confusa.
— Qualquer coisa quebrada pode ser consertada — a Haley diz com suavidade. — Corações, ossos, confiança… com as ferramentas certas e paciência. Quando ela acreditar que você tá sendo sincero, o coração dela vai acompanhar.
Chega. Não dá pra ouvir mais.
Ele ama ela. Ama de verdade. Daquele jeito que faz homem burro ter medo de apanhar e de castigo sobrenatural. Daquele tipo que afunda fundo e fica.
Eu nunca pensei que o Damion tivesse um coração.
Aparentemente, tem.
E, aparentemente, ele pertence a outra pessoa. À Chloe.
Meu estômago dá uma cambalhota violenta. Engulo seco e me afasto dali, o barulho da festa virando um rugido distante. Quase não registro o que tá em volta até esbarrar no bar, a madeira firme sob as palmas das minhas mãos.
Eu me inclino pra frente, os cotovelos cravando no balcão, a cabeça caindo nas minhas mãos.
Meus olhos ardem.
Por que eu ligo? Eu odeio ele. Detesto aquela cara convencida, aquelas regras idiotas e a presença catastrófica dele na minha vida.
Isso é só a minha hipo-seilá-o-quê dando problema de novo. Aquele órgão idiota e imprestável que claramente precisa ser recalibrado — ou removido de vez.
É. Só pode ser isso.
— Ih, menina — a Kiara murmura de repente ao meu lado, a voz carregada de mau presságio —, seus irmãos vão ficar MUITO podres. Tão dando STROH rum pro Logan… e agora começaram a acompanhar ele.
Eu realmente não tô nem aí pro que meus irmãos estão fazendo. Podiam estar fazendo malabarismo com motosserra, tanto faz — eu tenho problemas maiores e mais barulhentos gritando dentro da minha cabeça.
Mesmo assim, viro na direção do fim do bar.
Má ideia.
Todos os caras estão aglomerados em volta do Logan, tipo urubu em rodízio. O Axel distribui shots, meus irmãos viram tudo com um entusiasmo heroico, e a galera ao redor vibra.
Testosterona pra todo lado. Neurônio, nenhum.
O Enrique continua colado no acessório ruivo dele. A Chloe — claro — se posicionou perfeitamente entre o Damion e o Ren, como se tivesse calculado a posição pra receber a máxima atenção possível.
O tio John, o Dr. Deimos e o Doc Barney estão enfileirados certinho encostados na parede, braços cruzados, rezando em silêncio pra nada dar errado dessa vez.
Aí a Chloe encosta a boca no pescoço do Damion. Ele se sobressalta como se tivesse levado choque de choquinho de gado.
Meu estômago se rebela.
Uma onda quente, azeda, verde sobe pela minha garganta. Ciúme, puro e radioativo.
— Blarg — engasgo, fazendo uma careta tão feia que devia ser crime. Viro pra Kiara e despejo minha desgraça inteira em cima dela. — Onde caralho você se meteu?
As sobrancelhas dela disparam pra cima. — Uau. Tá. Você resolveu adiantar a TPM ou tá só num nível extremo de frustração sexual?
Eu encaro a vaca morena. Ela segue a direção do meu olhar e entende na hora.
— Aaaahhh — ela solta. — Você e o Ren brigaram?
— O Ren? — eu pisco. — O que o Ren tem a ver com isso?
Os olhos dela se estreitam, pensativos. — Então é o Damion de novo, né?
Dou de ombros, mexo um ombro. Resposta que não responde.
Bem nessa hora, o Jackson arranca a Chloe do Damion fisicamente, desgrudando os dedos dela como se ela fosse um craca. Ele arrasta ela em direção à frente da casa enquanto ela lança olhares que matam. Ao mesmo tempo, um dos seguranças joga o Jason no ombro como se fosse um saco de batata.
Meus irmãos são… únicos.
— Ug — eu resmungo. — Tô só frustrada. Às vezes juro que homem já nasce sem cérebro e sem coração.
— Você tá falando igual a mim — a Kiara zomba. — O que você fez com a minha amiga romântica?
O Jackson volta sozinho e volta a beber como se nada tivesse acontecido.
— Tô começando a achar que você tem razão — continuo. — Homem existe única e exclusivamente pra procriar mais machos sem cérebro e sem coração, pra esse ciclo de merda continuar. Olha esse exemplo sem neurônio aqui, por exemplo. — Empurro meu celular na mão dela.
Ela lê a mensagem, com a expressão neutra. — Ok… quem é que mandaria isso pra você? — Ela rola a tela. — E vingança pelo quê?
Dou de ombros. — Seu palpite é tão bom quanto o meu.
— Você acha que é o Damion tentando ser engraçadinho? — pergunto, cravando os olhos nas costas largas dele. Engraçado como ele não parece minimamente preocupado com a Chloe sendo carregada embora — o suposto amor da vida dele.
— Não — a Kiara diz, firme. — Ele é louco, mas não desse tipo de louco.
Não tô convencida.
Ela me analisa por um segundo, depois sorri de leve. — Você tá com cara de quem precisa de um tempo de menina, sério. Vamo vazar dessa festa.
— E o Ren? — pergunto, sem muita convicção.
Ela olha na direção da galera, onde ele ainda tá perto do Damion. — Tenho certeza de que ele consegue achar a porta de saída sem supervisão. E os amiguinhos idiotas da escola podem ajudar.
— Acho que o Jackson já botou eles pra correr.
— Melhor ainda. Gosto do estilo desse seu irmão.
Eu sorrio apesar de mim mesma. Eu amo todos os meus irmãos — muito, com força — mas o Jackson tem um pedaço especial do meu coração. Ele salvou minha vida uma vez, quando eu era pequena. Um segredo nosso, que ninguém sabe. Não lembro de muita coisa. Só uns flashes. Cavalos. Sangue. Uma cicatriz no meu joelho. E um medo de armas que nunca fez muito sentido… mas continua ali.
A Kiara se inclina e murmura alguma coisa pro segurança que tá de barman. Momentos depois, ele desliza umas garrafas pra ela — Tequila Rose, licor de creme irlandês com caramelo salgado, Kahlua.
Meu tipo de primeiros socorros.
Ela agarra minha mão e me puxa pra fora. A gente faz um desvio pela cozinha, rouba um pote de sorvete de chocolate duplo e duas colheres, e sai rindo que nem fugitiva até o meu quarto.
Minha cama ainda tá enterrada embaixo das ROUPAS DELA. Do MEU armário.
— Ok — ela decreta, largando as garrafas no sofá e escancarando a porta do meu guarda-roupa. Um moletom voa pelo ar e acerta minha cara.
— Veste isso.
— Sim, senhora vaca — faço continência, rindo enquanto troco de roupa e enfio o moletom. Ela faz o mesmo — um palmo mais alta do que eu, linda, com a pele cor de caramelo perfeito e cachos pretos que não acabam nunca.
Ela empurra as roupas pro chão como um trator. Eu me enfio debaixo do edredom que minha mãe costurou anos atrás, coloco o pote de sorvete entre nós e ponho o Pan na minha barriga, tipo um peso de papel peludo.
Ela me entrega a garrafa cor‑de‑rosa. Dou um gole grande. Desce queimando, docinho, até o fim.
“Você não vai acreditar no que o Ren me contou”, digo entre colheradas de sorvete, explicando tudo sobre a maldição.
“Isso é… inesperado”, ela diz devagar. “Mas também… não.”
“Todo o meu jeito esquisito. Toda a minha falta de experiência. Por causa dele”, eu desabafo. “E ainda tem a cara de pau de dizer que eu não sei o que tô fazendo.”
“Mas por que ele ia querer que os caras ficassem longe de você?” ela pergunta, como se já soubesse a resposta.
Tomo outro gole. Desce macio. Perigoso. “Pra ferrar a minha vida. Pra me torturar. Porque ele pode. Porque ele é um babaca. Escolhe.”
Ela sorri como quem sabe de alguma coisa que eu não sei. O que nunca é reconfortante.
“Eu consigo pensar em outro motivo”, ela diz com cuidado. “Ele tá a fim de você.”
“Não. De jeito nenhum. Ele ama a Chloe.” Conto o que eu ouvi escondida. Meus olhos ardem. Bebo de novo e engulo a queimação e as lágrimas junto.
“Ah”, Kiara diz baixinho. “Bom. Isso explica a TPM emocional.”
“Eu não tô com ciúme”, resmungo. “Daquela vaca. Por favor.”
Mas eu tô. Não da Chloe. Do que ela tem.
O coração do Damion Grimm.
“Não acredito que ele tá apaixonado”, Kiara comenta, pensativa. “O motoqueiro perdeu o coração. Tem certeza?”
Eu balanço a cabeça. “Absoluta.”
“Talvez você tenha entendido errado… de novo—”
“Foi uma vez só”, protesto.
“Duas”, ela corrige. “Três, se a gente contar os corpos no jardim.”
Ok. Beleza. Meu histórico não é dos melhores.
Mas, em minha defesa… o diretor disse sim que uma bomba ia explodir assim que a esposa chegasse. E o vizinho tava cavando uma cova… pro gato morto dele.
“Mas dessa vez”, eu suspiro, “eu tô certa. A mãe dele falou o nome dela. Chloe.” Afundo nos travesseiros. “E o Ren quer que eu seja a melhor amiga dela. É tudo muito zoado.”
“Com licença”, Kiara diz. “Eu sou a sua melhor‑melhor amiga.”
“Relaxa. Isso nunca vai mudar.”
“Ainda bem”, ela diz, toda convencida. “Eu não gosto da galera com quem o seu novo amante anda.”
Passo a garrafa pra ela, com o peito pesado e confuso e quente por causa do álcool.
Talvez esteja na hora de repensar esse negócio de Ren.
Ou talvez eu só precise de mais uma colherada de sorvete.
“Então”, Kiara me entrega a garrafa de creme de caramelo salgado como se fosse um bote salva‑vidas, “você acha que agora tem um stalker?”
Eu piscou. Quem iria me perseguir? Eu não sou exatamente famosa… a não ser que você conte a minha fama de atrair desastre. Mesmo assim, meu estômago sussurra Damion.
“Por favor que ele seja gostoso e não um completo idiota como todos os outros caras da nossa vida”, Kiara ri, me cutucando.
“Eu bebo a isso.” Dou um gole generoso, sentindo a queimação doce deslizar pela garganta e as bordas do meu cérebro ficarem embaçadas. A gente termina a segunda garrafa num silêncio confortável. Já não tão sóbrias assim.
Kiara, graciosa como um elefante bêbado, despenca da cama tentando alcançar a garrafa de Kahlua. Eu caio na risada, o som saindo engasgado e rouco.
“Cheira o pó de fada e voa!”, eu fungo, enxugando as lágrimas dos olhos.
“Ô! Isso aí é porcaria do Damion”, ela comemora, engatinhando de volta pra cama da maneira mais desengonçada que já vi um ser humano ocupar um colchão. Eu arranco a garrafa de Kahlua da mão dela e viro direto dentro do pote de sorvete. Ela observa, olhos arregalados e concentrados, com um risco de gosma — sei lá o que é, álcool, sorvete, ranho? — grudado na bochecha.
“É, é a porcaria de Peter Pan do Damion”, digo, dando um tapinha na cabeça fofinha do Pan — meu bichinho de pelúcia.
“Ele me falou isso lá na casa mal‑assombrada, quando meu braço começou a doer. Disse que uma garota especial sempre ensaiava isso quando ele tava na bad.”
“E isso funciona mesmo?” Kiara pergunta, sobrancelhas erguidas.
“Como mágica”, digo. Tipo o bolonhesa da minha mãe.
Rio de novo e ergo a tartaruguinha fofa. “Foi daí que veio seu nome, Pan. A coisinha de Peter Pan do Damion.”
Kiara cai na gargalhada. “Aposto que a coisinha é bem impressionante… nada de ‘inha’ naquele menino.”
Eu bufo e uivo, abraçando a barriga. Só de pensar nisso já me dá crise de riso. Tipo, eu só vi pênis em foto. A não ser que você conte os pintinhos dos meus irmãos quando eram pequenos.
Patético, né?
“Xiu!” Kiara encosta um dedo na minha boca. “A gente não quer que o Ren e os amigos sem cérebro dele achem a gente.”
Minhas risadas vão virando soluços. Ponho a mão na boca, torcendo pra conter o vulcão querendo sair da minha garganta.
Chego tão perto que nossos narizes quase se tocam.
“Você tem uma pele tão bonita… (hic).”
“Eu sei”, ela sussurra, o hálito quente e perto. É, talvez a gente tenha passado um pouco do ponto. Essa é nossa segunda rodada de coragem líquida. Na Europa, a idade pra beber é 18, então, claro, a gente saiu pra balada e barzinho. Teve uma noite que ficou russa demais.
— Kiara, acho que eu tô bêbada — eu admito, a voz bem mais alta e arrastada do que deveria.
Ela dá uma risadinha, espirrando sorvete com gosto de Kahlua pra fora da boca e limpando com a manga.
— Eu também — ela diz. — Deve ser o ar.
Ela gira a mão num círculo caótico acima das nossas cabeças, tipo helicóptero quebrado.
Eu balanço a cabeça. — Acho que é o sorvete.
Ela olha pro pote, desconfiada. — É, esse negócio aqui não pode ser saudável.
Antes que eu possa concordar, a porta se escanca. Logan entra cambaleando e desaba no sofá, feito um saco de batatas bêbado. Ele parece meio morto.
— Ei… (hic) mana… eu… (hic) te amo, bebê — ele soluça, olhos vidrados e perdidos.
Ele aponta um dedo trêmulo pra Kiara. — E eu te amo (burp) também, prima.
Kiara solta uma risadinha. — Tá vendo? É o ar. Ele nem comeu sorvete.
Ela abre os braços e dá um toque no meu nariz. Eu rio de novo, trêmula e quente.
Damion aparece na porta como uma nuvem de tempestade — grande, perigoso, malvado… e mais sexy que o pecado.
Kiara aponta pra ele com um sorrisinho. — A gente tava falando de você!
— É — eu emendo, a voz alta e sem filtro. — Você tem um péssimo gosto pra amor, cara.
— O que ela disse — Kiara repete, ainda sorrindo.
Damion fecha a porta, tranca, e fica com aquele sorriso — tipo Gato de Cheshire chapado.
De repente Logan se senta num pulo, engasgando, a mão pressionada sobre a boca.
— Não vomita no meu quarto! — eu grito, mas Damion já tá arrastando o Logan pro banheiro, tipo jogador de futebol americano carregando peso.
— Bora, mano — eu escuto ele dizer. Aí a água começa a correr.
Eu deslizo pra fora da cama, cambaleio tentando recuperar o equilíbrio e vou me esgueirando até a porta do banheiro. Espiando por ela, eu junto coragem.
— Por que você vai casar com aquela vaca? — Minha voz sai pequena, frágil, mas eu falo mesmo assim.
— Quem? — A voz dele desce, baixa, rouca e suave demais pra alguém em pé no meu banheiro.
Ele já tirou a roupa do Logan, deixando ele só de cueca, debaixo do chuveiro, ele mesmo sem camisa, e aquela maldita calça jeans que gruda em cada curva perfeita. Eu travo, língua presa.
— A Chloe? — eu sussurro.
Ele me encara, olhos afiados.
— Você não devia.
— Tá bom, tá bom, eu não vou. Eu prometo. — Ele dá uma risadinha, como se eu tivesse contado a melhor piada do mundo.
— Conta pra ele do D — Kiara grita lá da cama, abraçada num travesseiro como se fosse boia salva-vidas.
Eu ergo um dedo. Aponto pro Damion. Ele fecha o chuveiro e encaixa o Logan na banheira vazia.
— Damion.
— Presente. — O sorriso dele é tão… desarmante. Do tipo que provavelmente devia ser multa de trânsito.
— Isso não tá certo — eu digo, apontando pra banheira. — Você tem que encher… com água… e espuma. Muita espuma.
— Ele é homem — Damion fala, tranquilo. — Homem não faz banho de espuma. A não ser que esteja com mulher na banheira.
Faz sentido. Mais uma coisa pra colocar na lista das lições da vida.
Ele se levanta e me guia de volta pra cama. Eu deixo. Passo um dedo pelo lado das costelas dele, tentando acalmar a tontura na minha cabeça.
— Você ia me contar do D. Quem é D? — ele pergunta, a voz tremendo.
Ele se inclina e me encaixa debaixo do edredom. Eu enfio o nariz no pescoço dele e respiro chiando o cheiro dele.
— Você cheira tão bem… (hic). — O soluço não foi planejado. Nem o farejar. Humilhante.
— O D te mandou uma mensagem — Kiara me lembra, com um sorriso.
— Isso! Isso aí! — Eu aponto pra ela. — D é meu novo stalker, e eu acho que é você. Porque você — Damion Grimm — é a minha maldição. E… (hic)…
Ele franze a testa, lindo e vulnerável, tipo criança pega roubando biscoito. Só que ele não é criança.
— Você é um babaca — eu digo, a voz grossa. — Um babaca, babaca, babaca.
— Enorme — Kiara acrescenta, prestativa, do lado.
— Não que você tenha um babaca enorme — eu emendo rápido, atrapalhada. — Quer dizer, talvez tenha. Eu não saberia…
Será que eu tô enrolando a língua? Eu olho pra Kiara, pedindo socorro com os olhos.
— Ela nunca viu nenhum pau — Kiara solta.
Não sei se isso ajudou. Ou talvez tenha ajudado.
— É. Zero. Nenhumzinho. — Ótimo. Isso soou pior.
Kiara geme, olhos dramaticamente fechados. — Isso é… tão triste.
— Esquece os paus — eu digo, abanando a mão pra ela. — É sobre você. Você deixa meu hipo… hipo… hipopótamo confuso. Aí ele solta hormônio igual hidrante quebrado. E tudo em que eu consigo pensar é… — Eu entorto o dedo pra ele. Ele se inclina.
— Sexo — eu sussurro bem na cara dele.
Ele solta uma risadinha presa na garganta. Eu esqueço tudo o que ia falar depois.
Eu encaro aquele rosto lindo e irritante — aqueles olhos verde-maçã hipnóticos, a cicatriz cortando a têmpora, o sorriso torto com aquela maldita covinha.
Eu passo a língua nos lábios sem perceber.
— Acho melhor você tentar dormir — ele murmura, a voz rouca.
— Você dorme comigo? — eu solto, de repente desesperada.
Ele hesita, a respiração falhando. Eu quero enfiar a cabeça debaixo do edredom e sumir.
Em vez disso, ele sussurra:
— Shhh.
E me puxa contra o peito.
Eu tô um caos — tropeçando, bêbada, mas, de algum jeito, pela primeira vez em muito tempo, um caos feliz.
