6 As regras
Data = 5 de setembro
Lugar = São Francisco (casa do tio John)
POV – Damion
Eu encaro a mensagem no celular dela.
Isso é alguma piada?
Reviro o cérebro procurando alguém — que não seja eu — cujo nome comece com D. Qualquer idiota que fosse burro o suficiente pra aprontar uma dessas.
Nada.
Merda.
E eu estou prestes a viajar pra uma sequência de corridas. Dias. Semanas. Se ela tem um perseguidor — se alguém acha que pode ficar rondando ela como um urubu enquanto eu estiver fora — eu preciso acabar com isso.
De vez.
Toque. Toque.
Tem alguém na porta.
Eu não me mexo. Nem respiro.
A Mel está esparramada no meu peito, quente e macia, respirando de maneira regular, soltando um ronquinho minúsculo — doce, leve e completamente injusto. Tipo um gatinho que, sem querer, conquistou seu coração e agora é dono da sua alma.
TOC. TOC. TOC.
Persistente. Irritante. Definitivamente um pé no saco.
A maçaneta chacoalha.
Eu cerro os dentes e deslizo a Mel pro lado com cuidado, saindo debaixo dela como se fosse feita de vidro. Ela solta um sonzinho, faz uma careta, depois se aquieta de novo. Meu peito aperta.
“Mel?” uma voz chama do outro lado da porta. “Você tá aí?”
Eu mostro os dentes.
O namorado.
Perfeito.
Destranco a porta e escancaro.
“O que você quer?” Sem calor nenhum. Sem paciência. Nem educação de mentira.
O rosto dele se contorce na mesma hora. Bom. Ódio mútuo é um belo ponto em comum.
“Tô procurando a Mel.” Ele tenta passar por mim.
Não chega longe. Eu preencho o vão da porta sem esforço. Ele volta um passo como se tivesse batido numa parede.
“Falaram que esse é o quarto dela.”
“Ela tá dormindo”, eu digo, calmo. Aquele tipo de calma que geralmente vem antes da violência.
Os olhos dele escurecem. “Você viu o Jason e a Chloe?”
“Foram escoltados pra casa.” Dou uma pausa e acrescento, só pra dar um gosto: “Pra sempre.” O Jackson cuidou disso. Deus o abençoe.
“E você não é bem-vindo aqui”, continuo. “Então dá meia-volta e cai fora.”
Por um segundo, eu acho que ele vai.
“Bom garoto”, eu provoco. Ele parte pra cima. Aí — BUM. O punho dele acerta em cheio o meu maxilar.
Minha cabeça vira pro lado, e eu cambaleio um passo pra trás, mais surpreso do que com dor.
Filho da puta.
O treino assume antes mesmo de eu pensar. Meu punho acerta as costelas dele. Com força.
Ele solta um chiado, se dobrando pra frente, e eu emendo, desferindo um soco firme embaixo do olho. Ele desaba no chão.
Isso… não tava nos planos. Mas caralho, é gostoso.
“Agora cai fora dessa casa.”
Ele se arrasta pra levantar, olhos vidrados, respirando pesado. É aí que eu vejo — aquele brilho insano. Do tipo que você não ignora.
Porra. Eu preciso tirar a Mel de perto desse cara. Ele não é pra ela. Não serve pra ser namorado. Só de pensar nisso, levo um soco no estômago.
— Isso ainda não acabou, motoqueiro — ele cospe.
Eu sorrio. Lento. Afiado.
— Ela é minha — ele sibila antes de sair bufando.
— É — resmungo, fechando a porta. — Nos seus sonhos, campeão.
A fechadura trinca. Um arrepio corre pela minha espinha. Nem fudendo que eu vou deixar ela sozinha hoje.
Dou uma checada rápida na casa.
O Logan tá apagado na banheira, encolhido que nem um camarão bêbado. Enfio um travesseiro debaixo da cabeça dele, jogo um cobertor por cima do corpo quase pelado. Ele geme, mas não acorda.
Vai sobreviver. Vai sofrer amanhã. Equilíbrio.
O resto dos irmãos tá espalhado, baixa de guerra. O Axel deu conta.
Volto pro quarto, me ajoelho ao lado da cama e só… fico olhando pra ela.
Os cílios dela descansam nas bochechas. A boca tá entreaberta. Eu afasto o cabelo do rosto dela, devagar e com respeito, como se ela pudesse desaparecer se eu não tomasse cuidado.
Ela parece irreal. Angelical. Macia demais pra esse mundo. Boa demais pra mim.
O barulho na minha cabeça some. Sem culpa. Sem fantasmas. Sem memórias ensanguentadas arranhando minhas costelas.
Só silêncio. Só ela. Ela é a única que faz isso comigo. A única que desliga o caos. Ela é a minha luz.
Eu inspiro fundo, bebendo a essência dela. Ela cheira a oceano — limpo, selvagem, infinito. Um perfume criado em harmonia com a natureza. Radiante, fresco, capturando de um jeito sutil a paisagem onde o céu beija a água num buquê floral quente e oceânico. Envolvente, sereno e sensual. E por um momento perfeito, tudo faz sentido.
Esse cheiro me envolve. Me acalma. Me desmonta.
Meu corpo reage antes que meu cérebro consiga cortar o impulso. Xingo em silêncio e me obrigo a me controlar, empurrando pra baixo o órgão empolgado.
Assim, não. Hoje, não.
Aqui e agora, todos os motivos que eu já usei pra manter distância parecem insignificantes. Frágeis. Quase ridículos.
Eu me inclino e encosto um beijo suave na testa dela.
Aí me endireito, saio pra varanda e deixo o ar da noite bater no meu rosto.
Porque se eu ficar mais um pouco — posso acabar quebrando as regras.
Talvez esse sentimento que eu tenho por ela seja coisa da minha cabeça. Talvez seja circunstância. Momento. Fio desencapado. Ou fatalismo… superstição… ou algum mau funcionamento profundamente inconveniente da libido masculina.
Quem diabos sabe?
O que eu sei é que toda vez que eu bato no fundo do poço, a Mel é a única que consegue me puxar de volta lá de baixo. Sem cordas. Sem sermão. Sem terapia. Só… ela.
Eu encaro o oceano, uma folha preta de tinta se estendendo infinitamente até o nada. A noite está silenciosa. Sem vento. Sem ondas fazendo escândalo. Uma calmaria que parece quase suspeita.
Eu poderia dizer que tudo começou na casa mal-assombrada — e começou mesmo — mas o verdadeiro início está mais atrás. Antes. Mais fundo.
Tem todo um prólogo antes daquele capítulo.
A minha infância, por exemplo — selvagem, barulhenta, hiperativa. Uma necessidade interminável de me mexer, pular e testar limites.
Perigo sempre foi como oxigênio. Ainda é.
Imprudência vem tão natural quanto respirar. Os desastres não me encontram — eu que atraio eles como um míssil teleguiado por calor.
E eu amo velocidade. Correr não é um hobby — é um defeito de personalidade. Uma parte de mim.
E onde tem adrenalina, velocidade e burrice, os demônios vêm atrás. Alguns por acaso. Outros merecidos. Pequenos parasitas desgraçados que grudam na sua alma e sugam culpa como se fosse combustível premium. Eles te puxam pra trás, pra baixo, direto pra escuridão.
Os médicos chamam de TEPT.
Eu chamo de demônios. Porque é isso que eles são.
Um cheiro. Uma palavra. Um som. É só isso que precisa pra um deles aparecer. E, de repente, ele começa a me assombrar como uma banshee amarrada num trem de carga desgovernado, e eu sou puxado pra escuridão. E é feio. Violento. Sufocante.
Foi assim que eu acabei na casa mal-assombrada.
Desesperado. Exausto. Procurando qualquer coisa que fizesse aquilo parar antes que eu perdesse de vez a cabeça.
E foi aí que eu encontrei a Mel. E, por um momento, eu vi a luz.
Por causa dela, eu comecei a tentar jeitos novos de lidar com tudo. Terapia não adiantou porra nenhuma — mas lutar adiantou. Artes marciais. Disciplina. Estrutura. Dor com regras. Isso ajudou. Muito.
Não me consertou, porém. Não expulsou os demônios. Eles ficaram. E, com o passar dos anos, mais alguns subiram a bordo do trem.
Mas eu aprendi a controlar melhor eles.
Aí veio o oitavo ano.
Eu estava em outro fundo do poço — daqueles silenciosos em que você parece normal por fora, mas por dentro tá todo oco. E lá estava ela. De pé no armário dela. Um anjo. Só existindo.
E isso bastou.
Ver ela me puxou de volta pro mundo. Como acender um interruptor. Eu soube — ali, na hora — que ela era a minha âncora. Aquilo que me impedia de escorregar direto pro inferno.
A puberdade ainda não tinha batido com força, então sofrer por ela de longe era fácil. Seguro. Ser o melhor amigo do Logan me dava proximidade sem levantar suspeita. Eu entrei num ritmo — descobri que só observar ela nos dias ruins já conseguia me trazer de volta pro eixo.
Eu fiquei… observador. Bom demais nisso.
Aprendi os humores dela. Os sinais. Lia ela como se fosse um livro aberto.
Mas, quando os hormônios começaram a bater e o meu pau passou a querer mais, criei regras pra me manter na linha.
Regras são controle. Controle é sobrevivência.
Algumas vieram das artes marciais. Outras eu inventei pelo caminho. Com o tempo, a lista cresceu.
Elas mantêm os demônios quietos. Me mantêm funcional.
Puxo todas na minha cabeça.
Regra 1: Nunca se apaixone pela irmã do seu melhor amigo.
A primeira regra. A razão de todas as outras. A única regra que eu nunca deveria quebrar, mesmo tendo sido quebrada desde o começo.
Regra 2: Nunca perca o controle.
Essencial pra um cara que vive a uma decisão errada do abismo. Uso visualização, respiração e exercícios mentais.
E, se isso falhar, tenho três métodos comprovados —
Bater em alguma coisa
Comer alguém
Pilotar alguma coisa muito rápida
Regra 3: Lute pra ganhar.
Segundo lugar é só um jeito educado de dizer perdedor. Na pista — e em qualquer outra parte da minha vida — eu não participo — eu domino. As pessoas chamam minhas manobras e loucuras de insanas e irresponsáveis. Eu chamo de posse.
Regra 4: Não demonstre medo.
Medo racha o controle. Rachaduras são exploradas. Em corridas, brigas, na vida — medo é o que te mata.
Regra 5: Nunca comece uma briga.
Conte até dez. Vire as costas. Respira. Mas, depois que o primeiro soco entra? A Regra 3 entra junto.
Regra 6: Transa e cai fora.
Nunca levo garota pra casa. Pra isso existe hotel. Nada de dormir junto. Nada de carinho depois. Nada de conversa no café da manhã fingindo que eu lembro o nome delas. Sem drama. Eu deixo os termos claros desde o começo. Eficiente. Limpo. Necessário.
Regra 7: Sem camisinha, sem sexo.
Dinheiro e fama geram maluquice, principalmente em mulher. Já vi mina tentando roubar camisinha usada, cuspir porra em potinho, furar camisinha. Como se engravidar fosse bilhete premiado de loteria. Comigo não.
Eu levo as minhas. Eu mesmo jogo fora. Nunca gozo na boca. Ponto final.
Não existe a menor chance de eu deixar QUALQUER UMA grávida por acidente.
Regra 8: Não seja pego de calças arriadas.
A imprensa tá em todo lugar. Então eu tranco portas, confiro quartos, procuro câmeras e nunca confio na conveniência mais do que no instinto.
O que leva a—
Regra 9: Confie no seu instinto.
Se algo parece errado, É errado. Ponto.
Regra 10: Treine. Coma direito. Fique afiado.
Um corpo forte mantém a mente quieta. Me mantém vencendo. E é uma das poucas coisas que eu consigo controlar completamente.
E ainda assim — apesar de todas as regras, da disciplina, do controle — uma garota ainda consegue me desmontar. Uma garota ainda consegue me puxar pra fora da escuridão sem nem fazer esforço.
E isso me apavora.
Mas agora eu sei o que eu quero. E é ela.
Essa parte é dolorosamente clara.
O problema é tudo que veio antes — quando eu era jovem, idiota, e mandado pelos hormônios e pelo medo. Quando eu caguei tudo. Feio. Mais de uma vez. O suficiente pra estilhaçar a confiança dela em mil pedaços. Pedaços que eu nunca me dei ao trabalho de tentar juntar.
Levei a Mel pro calçadão uma vez. Só nós dois. Matamos aula.
Cheiro de sal no ar, luzes zumbindo, o mundo barulhento e vivo. Estar com ela parecia certo de um jeito que nada mais jamais pareceu — como se o universo tivesse parado, por um instante, de tentar me mastigar e cuspir. Um dos melhores momentos da minha vida, bem no meio de um dos piores dias que eu já tive.
Ela me fazia sentir corajoso. Como se eu pudesse encarar qualquer coisa. Como se talvez eu não estivesse quebrado além do conserto.
E aí eu deixei ela em casa.
Foi quando as sombras saíram de onde estavam escondidas.
O medo subiu pela minha coluna, frio e cortante. Não medo do escuro — mas medo DELA. Do tanto de poder que ela tinha sobre mim sem nem fazer esforço. Tipo um maldito boneco de voodoo costurado com os meus nervos. Eu sabia — sabia — que se um dia ela enfiasse uma agulha no coração daquele boneco, eu nunca ia me recuperar.
E porque eu era covarde, decidi não arriscar.
Quebrar minhas regras também não ajudava. Essas regras são a única coisa que me mantém de pé, a linha tênue entre o controle e a queda livre. São meu cabo de segurança quando ela não tá por perto.
Então eu fiz o que covardes fazem. Fiz uma canalhice.
Dei um jeito dela me ver beijando uma garota qualquer na escola no dia seguinte. Assisti o estrago acontecer. Recuperei o controle.
Mas o olhar dela — magoado, confuso, atordoado — me seguiu direto pra escuridão. Mais um demônio. Mais um peso jogado na pilha que já esmagava o meu peito.
Prometi pra mim mesmo que nunca mais ia chegar perto dela.
E fiquei longe até o meu segundo ano.
Dei conta da situação com sexo — rápido, vazio, mecânico — servia como substituto provisório da Mel. Amortecia o barulho por alguns minutos. Não era perfeito. Nem bom. Mas era melhor que nada.
Peguei geral. Muito.
Parte pra arrancar ela debaixo da minha pele. Parte pra não enlouquecer. Qualquer morena disposta. Nunca loiras. Nunca olhos azuis. Eu tinha regras até pra isso.
Não adiantou.
Cada garota só apertava ainda mais o feitiço. Aprofundava a falta. Fazia eu querer ela mais ainda. Um ciclo cruel, autoimposto.
Mas naquele segundo ano, eu vacilei. Primeiro de março. O pior dia do ano. O dia que me racha por dentro toda vez que volta.
Deixei rosas cor-de-rosa nos degraus da casa mal-assombrada. Deixei a dormência tomar conta.
Sem pensar direito… eu sequestrei a Mel do quarto dela, e a gente se esgueirou pro zoológico como dois idiotas, com coragem emprestada e tempo roubado. Eu tava destruído — triste, culpado, me afogando.
Não é desculpa. É só a verdade.
A gente teve outra noite perfeita. E, dessa vez, eu não ia fugir. Eu ia contar tudo pra ela. Eu planejei tudo… um gesto romântico pro dia seguinte. Joias, poesia, comida.
Então deixei ela em casa de coração leve. E com grandes planos.
E o Jackson me viu.
O diabo quase me matou — mas também bateu juízo na minha cabeça. Forte.
Eu percebi uma coisa que me apavorou mais do que a morte poderia um dia.
A Mel é um anjo. Inocente. Pura. Intocada pela podridão que vive em mim. Eu não podia arrastar ela pra minha escuridão.
Então, de novo… foi coisa de babaca… quebrei o coração dela.
Depois disso, eu fiquei longe do único jeito que eu sabia — vigiando de longe. Roubando pedaços dela sem ela saber. A risada. O sorriso. A ideia dela. Egoísta. Patético. Necessário.
Mas isso acaba agora.
Na verdade… acabou com o meu acidente. E com uma conversa de leito de morte que eu ouvi sem querer.
Eu comecei a cavar dentro da minha própria alma. Acontece que não tem como tirar a Melaena Blackburn do meu sistema. Nem do meu sangue. Dos meus sonhos. Do meu coração.
Então eu tomei uma decisão.
Primeiro de tudo — parei de brincar. De vez. Não cheguei perto de nenhuma mulher desde o acidente. Nada de bocas. Nada de corpos. Só a minha mão. E vou te dizer: gozar pensando nela não é bem como a natureza planejou. É ineficiente. Frustrante. Quase cruel.
Por outro lado, meu braço tá malhado.
Tem que ser assim. Sem erros. Tem coisa demais em jogo.
Eu preciso planejar isso até o ar que eu respiro antes de bater na porta dela — porque, quando os irmãos dela descobrirem, eles vão me matar. De novo. Aquela maldita maldição voltou pra morder a minha bunda.
Necessário, porém. Eu não ia deixar qualquer cara vagando pelo meu terreno.
Agora eu tenho uma chance.
E depois de hoje à noite — depois de ver ela com aquele babaca do caralho — eu sei que fiz a escolha certa. Ela é minha. E só minha.
Eu só preciso convencer ela.
E a família sanguinária e superprotetora dela.
Convencer um bando de playboys encrenqueiros — que, por acaso, são os irmãos dela e meus melhores amigos — de que eu tô sincera, desesperada e catastroficamente caído pela irmã deles… não é fácil.
Vai ter dor. Talvez morte. Eu já fiz as pazes com isso.
O que eu ainda não engoli é a ideia de perder eles.
E sem as minhas regras, sem as minhas fugas de sempre, tô começando a escorregar. O controle se desfaz. As paredes tremem. Só de pensar nela, meu corpo me trai — calor, tensão, uma dor latejante se enrolando lá embaixo enquanto algo invisível aperta a minha garganta.
Macumba. Só pode.
Porque alguma coisa vai ter que ceder.
Pego o celular e ligo pro meu pai, precisando de conselho — conselho de verdade, que dê pra usar, não frase de pôster motivacional. Ele é um homem inteligente, dentro do que dá pra chamar de homem inteligente. E de alguma forma, contra todas as probabilidades, conseguiu convencer a mulher perfeita a casar com o traste dele. Só isso já me diz que ele deve ter decifrado algum tipo de código cósmico.
“E aí, filho. Onde você tá?”, ele pergunta assim que atende.
“Cuidando do Logan e da Mel”, eu digo. “Eles beberam um pouco demais.”
“Mel?” Aí está. A pausa. A preocupação que ele tenta — e não consegue — disfarçar.
“Tô.” Passo a mão no rosto. “Pai… eu tô fazendo a coisa certa?”
Não acredito que acabei de abrir a porta pra esse tipo de conversa. Preferia perder uma corrida. Aliás, preferia perder duas.
“Acho que tá, sim, filho”, ele diz na hora. Sem enrolação dramática. Sem introdução filosófica. “Você tá duvidando do que sente?”
“Eu não sei o que é nela”, admito, olhando pra água escura. “Ela me deixa maluco. Sempre deixou. Mas isso é real? Eu não quero perder a amizade dos irmãos dela à toa.”
“Bom”, ele diz, tranquilo, “só você pode responder isso. Sempre existem riscos. A verdadeira pergunta é se ela vale esses riscos.” Ele faz uma pausa. “Ter ela vale a pena se isso significar perder o Logan?”
Meu peito aperta. Essa bate como um soco. A Escolha de Sofia, versão babaca. Eu realmente, mas realmente, espero não ter que escolher. Ia sentir uma falta do caramba do Logan.
“Como você soube com a mãe?”, pergunto em voz baixa.
Ele ri. “Entre eu e você? Se ela te deixa nesse grau de doido, já é um ótimo começo.” Eu sorrio apesar de mim. “Acho que percebi bem rápido que as outras mulheres ficaram… embaçadas. Simplesmente não chegavam nem perto.”
Isso acerta fundo demais. Desde a Mel, nenhuma garota chegou. Nem de longe. Nunca senti esse tipo de puxão antes. Mas a minha hesitação não é sobre sentimento. Não de verdade. É sobre todo o resto.
“Pai”, eu digo, a voz mais baixa agora, “e se ela descobrir que eu não sou um cara legal? E se ela perceber que merece alguém melhor?”
E se ela não der conta dos meus demônios? E se nem eu der?
“Acho que você é bem decente, pra caramba”, ele diz. “Top cinco, fácil. Logo depois do Batman.”
Ele sempre sabe como me desarmar. Ainda assim, não compro totalmente. Eu não sou santo. Sou pecador.
Inferno, dependendo de como você olha, sou um assassino. Meu passado não é bonito. Pode enojar ela. E eu não sei se eu sobreviveria a isso. Ao nojo dela.
“Filho”, ele continua, mais sério agora, “tem uma coisa que eu nunca te contei.”
Ih, fodeu.
“Você sabe que eu tenho uma história com os Blackburn.”
“Sei”, eu digo. “Você era amigo do pai deles.”
“Sei. Eu fiz o parto de cada um deles”, ele dá uma risadinha. “Inclusive o da Mel.”
Eu pisco. “Pera — quê?”
“E fui eu que tirei a flecha do braço dela naquele dia.”
As palavras tiram meu ar. A casa mal-assombrada. Ele nunca me contou isso.
“Eu vi ela usando a jaqueta do seu time”, ele continua, “e eu sabia que ela era especial pra você. Você não daria a coisa mais importante da sua vida de graça. Mas enquanto o avô deles ainda tava vivo, eu não podia arriscar você se aproximar deles.”
“Mas depois que ele morreu… eu te mandei pra mesma escola. Imaginei que você ia acabar encontrando ela lá.”
Eu rio, atordoado. “Então você é tipo o caralho do destino.”
“Talvez um pouco”, ele diz, convencido. “Tentei te arrumar com ela. Em vez disso, você virou melhor amigo do Logan. Complicou as coisas.”
É. Só um pouco.
“Mas se você sente o que eu acho que você sente”, ele continua, “não deixa isso te impedir.”
Eu escuto, cada palavra afundando em mim.
“Vai com calma”, ele diz. “Tem certeza absoluta do que ela é pra você antes de tomar qualquer atitude. Se tudo que você quer é uma foda sem compromisso, cai fora agora. A Mel não é qualquer mina em que você pode enfiar o seu pau. E o Jackson vai te matar se você tentar.”
“Ele vai me matar de qualquer jeito”, eu digo, rindo pelo nariz.
“Que nada”, meu pai ri. “Se você tiver sendo sincero, ele só vai te botar no hospital. Quebrar uns ossos. Eu dou um jeito nisso. E você pode até perder o Logan por um tempo — mas não pra sempre.”
Aí vem a martelada.
“Cria vergonha na cara, filho.”
A linha morre.
Eu abaixo o telefone e encaro o oceano. O luar se espalha pela água, prateado e inquieto. As ondas chegam, espuma branca chiando quando quebram, constantes e implacáveis.
Essa obsessão é só uma fantasia sexual longa e arrastada? Uma coisa que vai apagar na hora que eu finalmente transar com ela?
Ou é outra coisa — algo mais pesado, mais profundo, mais perigoso?
Eu não sei como é o amor de verdade. Nunca tive isso pra comparar.
Mas eu sei de uma coisa — nunca quis nada do jeito que eu quero ela.
E, sinceramente? Se eu consigo ficar mais de um ano sem sexo… tem que ser pelo menos um pouco real pra caralho.
