Capítulo 1

— Oi, amor. Me encontra na faculdade. Tenho uma grande surpresa pra você ;)

O rosto de Sara se abriu num sorriso ao ler a mensagem de Victor, seu namorado havia três anos. Ela tentou não deixar a mente disparar enquanto corria pelo quarto se arrumando para encontrá-lo, mas não conseguiu evitar.

Era seu décimo oitavo aniversário. O dia com que ela vinha sonhando havia tanto tempo. Agora que tinha dezoito anos, ela e Victor poderiam, de verdade, ficar juntos como companheiros.

Eles namoravam desde os quinze, e Victor tinha feito dezoito um mês antes. Agora ela também tinha dezoito… e tinha uma boa ideia do que era a grande surpresa.

Ele ia pedi-la em casamento. Havia anos que ela sonhava com o dia em que formalizariam a união, e não poderia estar mais feliz por a espera ter acabado.

Depois de se vestir, ela saiu de casa e começou a caminhada até a faculdade. Ficou se perguntando que tipo de surpresa ele tinha preparado para ela. Se tinha preparado na faculdade… isso queria dizer que ele faria um pedido público?

Ela sorria para si mesma, distraída, sem prestar atenção ao caminho, então não viu o pé atravessado na sua frente até tropeçar nele e quase ir ao chão. Por sorte, se firmou rápido e conseguiu evitar a queda.

Virou-se para ver quem a tinha feito tropeçar e se viu diante de três garotas com quem ela nunca estava com paciência de lidar.

— Ah, olha só quem é — zombou a do meio da fileira, avaliando Sara de cima a baixo.

— O que vocês querem? — Sara exigiu, olhando de Melody para as duas companheiras dela, Stella e Bianca. As três estavam sem a líder habitual do grupo: Laura, a filha do beta. O que, para Sara, estava ótimo. Lidar com três garotas que a odiavam era melhor do que lidar com quatro.

Aquele grupo a intimidava desde que ela se entendia por gente, mas principalmente depois que ela e Victor começaram a namorar. Victor era o Alfa da matilha Blood Moon e o Rei Alfa. Sara era uma Ômega que, por acaso, tinha sido adotada pela família Alfa.

Laura e as amigas nunca aceitaram que uma Ômega como ela pudesse namorar o Rei Alfa, e faziam questão de lembrá-la do quanto ela não era digna sempre que tinham oportunidade.

— Aonde você acha que vai? — Bianca perguntou, esticando a mão e empurrando o ombro de Sara.

Sara deu um passo para trás e fuzilou-a com o olhar. — Não é da sua conta.

— Vocês não ficaram sabendo? — Stella perguntou. — É o aniversário de dezoito anos dela. Olha como ela tá toda produzida. Tá na cara que vai tentar seduzir o Victor.

Melody soltou uma risada de desprezo, semicerrando os olhos para Sara. — Você é mesmo sem vergonha, não é? Acha mesmo que o Victor vai se contentar com uma Ômega como você? Ele vem brincando com você há anos, mas aposto que vai te largar logo, agora que fez dezoito.

— Né? — Bianca concordou. — Se eu fosse você, eu dava no pé antes de passar vergonha. Um Rei Alfa e uma Ômega? Ah, por favor.

Stella enrolou uma mecha do cabelo castanho no dedo. — Talvez a gente devesse poupar você da humilhação, meninas. Agora que fez dezoito, ela pode estar com aquelas ideias grandiosas de ser oficialmente marcada como companheira dele.

— Que piada — Bianca debochou.

Sara suspirou e se virou para ir embora, sem a menor vontade de alimentar aquilo por mais tempo. Ela já tinha ouvido esse tipo de coisa delas antes. E não ia deixar que a abalassem justamente hoje.

Ela não se importava com o que os outros achavam do relacionamento dela com Victor. Havia três anos que falavam mal dela por estar com ele, mas adivinha só? Ela ainda estava com ele. Gostassem ou não, ela e Victor iam se tornar companheiros, e que engasgassem com a própria inveja, por ela.

— Aonde você pensa que vai? — Stella exigiu, agarrando o antebraço dela e impedindo-a de se afastar.

— Me solta — Sara retrucou, tentando se livrar do aperto de Stella.

— Tá com tanta pressa pra quê? — Stella perguntou. — A gente ainda não te deu o seu presente de aniversário. Bianca, pega o balde.

Presente de aniversário? Balde? Sara viu Bianca sair saltitando, e uma sensação de mau pressentimento tomou conta dela.

— Eu não quero nada de vocês — disse a Stella, ainda tentando puxar o braço. — Me solta!

— Ah, qual é, você vai gostar — Stella prometeu. — A gente levou um bom tempo preparando esse presente pra você. Não tá autorizada a dizer não.

Bianca reapareceu, carregando um balde nas mãos. Stella finalmente soltou Sara, empurrando-a para longe. Sara resmungou e esfregou o lugar onde ela tinha agarrado seu antebraço.

Stella foi até Bianca e a ajudou a segurar o balde. Antes que Sara entendesse o que estava acontecendo, as duas balançaram o balde e despejaram o conteúdo nela.

— Feliz aniversário! — gritaram entre gargalhadas.

Sara ficou paralisada no caminho enquanto uma água marrom e fedorenta escorria pelo cabelo, pelos ombros e pelo corpo. As três foram embora, rindo entre si.

Praguejando, ela olhou para a própria roupa. O vestidinho de verão bonito que ela tinha escolhido com tanto cuidado agora estava encharcado de água suja. Seus tênis também.

“Você não pode continuar deixando eles saírem impunes por te tratarem assim”, resmungou a loba dela, Edna, na sua cabeça.

“Tá tudo bem”, Sara respondeu em pensamento. “Eles não vão conseguir fazer isso por muito mais tempo.”

Assim que ela fosse apresentada oficialmente como a companheira do Rei Alfa, eles não ousariam fazer nada disso.

Mesmo sendo da família Alfa, Sara era apenas adotada. Ela tinha sido uma ômega sem-teto antes de a família de Victor acolhê-la, e todo mundo na alcateia sabia disso. Ser uma ômega sem-teto a tornava um alvo para valentões, e piorou depois que ela começou a namorar Victor.

Mas, quando virasse a Luna de Victor, ninguém ousaria intimidá-la. Ela não se importava de verdade com o status de Victor como Rei Alfa. Ele era o companheiro dela, e isso era o que importava. Ainda assim, era um alívio saber que, depois de anos aguentando insultos e até agressões físicas, ninguém ousaria machucá-la de novo.

Ela se virou para voltar para casa. Como tinham encharcado ela com água suja, precisaria tomar outro banho e escolher um vestido limpo. De jeito nenhum ela ia ver Victor sem estar impecável. Assim que entrou em casa, correu escada acima até o quarto. Estava prestes a abrir a porta quando um som estranho a fez parar.

Ela franziu a testa ao perceber que o som vinha do quarto de Victor, bem em frente ao dela. Victor estava na faculdade esperando por ela; quem poderia estar no quarto dele?

Curiosa, ela se aproximou da porta e encostou a orelha na madeira. Os olhos dela se arregalaram quando a voz de Victor soou nítida do outro lado.

“Você gosta disso?”

Sara congelou. O que ele estava fazendo no quarto? Com quem ele estava falando? Ele tinha pedido para ela encontrá-lo—

“Sim… ai, meu Deus, faz isso de novo!”

O coração de Sara disparou no peito quando a segunda voz atravessou a porta. Ela conhecia aquela voz. Laura, a filha do Beta! Laura e Victor—

Sara agarrou a maçaneta e girou, empurrando a porta para abrir. O coração dela bateu ainda mais forte quando viu a cena diante de si.

Victor estava transando com Laura.

O cara que ela achava que ia pedi-la em casamento hoje estava fodendo a garota que a odiava e a intimidava sempre que tinha a chance.

Ela quis correr, fingir que nunca tinha visto aquilo, mas os pés não se mexiam, e os olhos estavam presos neles.

Ela não tinha ideia de quanto tempo ficou ali, chocada demais para fazer qualquer coisa, até que os olhos de Laura finalmente pousaram nela. Laura abriu um sorriso de deboche por cima do ombro de Victor e então disse:

“Vic, temos uma visita.”

— O quê? — ele perguntou, a voz ofegante enquanto continuava com os movimentos entre as pernas dela. Ergueu a cabeça e olhou em direção à porta. Quando viu Sara, parou de se mexer e saltou depressa de cima de Laura. — Sara!

— O que é isso? — Sara perguntou, por fim encontrando a voz. Ela nem sabia por que estava perguntando — dava para ver exatamente o que era.

— Eu posso explicar — disse Victor, pulando da cama e pegando uma cueca boxer jogada ali. Vestiu-a e caminhou na direção dela.

— Parece o quê? — Laura perguntou, do lugar dela na cama. Não fez menção de sair.

— Sara, amor, me escuta — Victor disse, fechando a porta do corredor.

Sara balançou a cabeça e encarou o chão. Não conseguia suportar olhar para o rosto dele. Em todo o tempo em que estiveram juntos, ela nunca imaginou que ele seria capaz de traí-la assim.

Girando, ela estendeu a mão para a porta, mas Victor entrou no caminho e a impediu.

— Não fica com raiva — ele disse. — Vamos conversar.

— Conversar sobre o quê? — ela rebateu, ríspida. — Você estava transando com ela, e eu vi. O que você tem a dizer?

Victor suspirou e passou a mão pelos cabelos.

— O que você esperava que eu fizesse?

Sara finalmente ergueu os olhos para ele, piscando, confusa.

— O quê?

— Você me afastou quando eu quis fazer sexo com você — ele apontou. — Eu tenho necessidades. O que você esperava?

Por um segundo, Sara ficou sem palavras. Ele dormiu com Laura porque ela se recusou a fazer sexo com ele?

As mãos dela se fecharam em punhos.

— Você sabe por que eu não podia. Eu te disse que não queria perder a virgindade até completar dezoito.

— Certo — ele disse, inclinando a cabeça enquanto a observava. — Você queria esperar até os dezoito. Hoje é seu aniversário. Você está disposta a fazer sexo comigo agora?

Sara deu um passo para trás, enojada com a pergunta. Depois de tudo o que ele tinha feito, ele ainda tinha a coragem de perguntar aquilo?

— Deixa eu ir embora — ela disse, passando a mão abaixo do olho para enxugar uma lágrima solta.

— Depois de me fazer esperar? — ele perguntou. — Você devia cumprir sua promessa.

— O que há de errado com você? — ela exigiu. — Você acabou de ficar com ela e agora você… você… — Ela bufou e tentou passar por ele rumo à porta. — Eu terminei com você, Victor. Deixa eu ir!

— Eu não recebo ordens de Ômegas — ele disse, mantendo a posição diante da porta. Olhou por cima do ombro dela, em direção à cama. — Se você está tão brava com isso, por que não se junta a nós? Talvez você goste.

Antes que ela pudesse compreender direito o que ele estava dizendo, ele se abaixou e a pegou no colo. Sara lutou contra ele, mas ele era forte demais e conseguiu levá-la até a cama. Ela tentou sair no instante em que ele a colocou no colchão, mas Laura agarrou o braço dela para mantê-la no lugar.

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